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sábado, 26 de outubro de 2013

Vovozinha

Nasci velhinha, numa casa cheia de revistas de palavras cruzadas, lãs e agulhas. Aos 6 anos já estava craque no tricô e no crochê, e a impaciência da vida ainda não tinha me atingido, de modo que eu tricotava.

E descobria o mundo da leitura. E a impaciência da vida ainda não tinha me atingido, de modo que eu lia. E bebia chá. Chá preto.

Aos 6 anos costurava à mão as roupinhas de boneca e às vezes alguma ficava costurada no meu pijama. E depois perdia as agulhas na cama e nunca mais as encontrava.

E a velhinha de 8 parou de perder agulhas porque passou a costurar à máquina. E até pouco tempo ainda tinha paciência, de modo que costurava. E bebia chá.

Aos 8 anos, desenhava. E pintava aos 12. E a professora dizia que eu era excêntrica, precoce. Uma velhinha de 12 anos?

Depois, uma adolescente adulta, casada com 19 anos. Cheirinho de café bem cedo da manhã, um filho planejado na idade certa. No meio do caminho, as coisas se encontraram, como no filme Benjamin Button.

E depois disso vem a infância?

Nunca tive vontade de escrever diários. Foi a impaciência de brincar de vida que me fez desenhar as palavras, como giz na calçada, para eu entender meu caminho.

Fui uma criança velhinha para me tornar uma velhinha criança, que ainda gosta do mesmo chá. Chá preto.

É isso sirvo na minha xícara, todos os dias no trabalho.

Os adultos dizem que é café.

Mas eles já não sabem mais fazer de conta.

(escrito em 6 de julho de 2013 às 09:33)

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