Se escrever é minha paixão, há de se convir duas coisas: em primeiro
lugar, não tenho pretensão de ser escritora. Em segundo, para o gênero que mais
admiro, a poesia, não levo o menor jeito.
Me deleito com poesia em um transe musical, como quem
admira uma pintura, uma fotografia, uma escultura. Como quem fecha os olhos para
saborear uma iguaria.
Dialogo com o poema, leio, releio, “treleio”. Disseco cada
possibilidade e penso que nunca me ocorreria aquele arranjo perfeito de
palavras para traduzir os sentimentos que nunca consigo sintetizar.
Tenho um amigo, ex-colega de faculdade, que deve ser meu alter
ego masculino. Nossa amizade é peculiar, de brigar e fazer as pazes como
crianças no jardim de infância. De respeitar o tempo de caverna um do outro sem
cobranças, comemorando os reencontros. De dividir segredos inconfessáveis e angústias
profundas. De compartilhar livros e as alegrias mais bobas.
O curioso é que a gente acaba se encontrando só umas duas vezes
por ano. Quem sabe nem nos demos conta disso porque nossa visão sobre o mundo e
os sentimentos do bicho homem nos aproxima muito mais do que os cafés que ficam
faltando. Conversamos no facebook, com sugestões de leitura, filmes, arte em
geral e eventuais cervejas nas sextas à noite.
E se dessa amizade surgiu o incentivo para este blog, também
tenho o privilégio de ler seus escritos em primeira (e quase sempre única) mão.
Fico surpresa com a originalidade e qualidade de seus contos
e do quanto leio dele no que escreve. Quem sabe por isso tantas vezes não os publique.
E ontem, tarde da noite, me veio este poema no meio de nossa
conversa. Achei belíssimo em cada palavra – in vino veritas? - e na disposição
visual. Para minha surpresa, o escritor saiu da caverna e me deixou
compartilhar.
Manual prático do
ser humano
Acorde
de blues
Luz
Sexo
Solidão
A
M
O
R
De
todos os animais que rastejam na lama, o ser humano é o único que pode dançar
sobre ela.
Moisés F.
Como poderia eu ser poeta? Nunca terei amores suficientes
para isso.
Abro aspas e saboreio as palavras, como o viajante que senta
na janela e contempla a paisagem.
Sorrio.
Danço sobre a lama despreocupada, nunca me ocorreriam os
outros animais.
Sorrio novamente antes do ponto final.
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| "Escolhe uma foto de Kyle Thompson para o post?" "Tá, pode ser esta do barco" "Já imaginava." |

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