Postagens populares

sábado, 28 de junho de 2014

Dançando sobre a lama



Se escrever é minha paixão, há de se convir duas coisas: em primeiro lugar, não tenho pretensão de ser escritora. Em segundo, para o gênero que mais admiro, a poesia, não levo o menor jeito. 

Me deleito com poesia em um transe musical, como quem admira uma pintura, uma fotografia, uma escultura. Como quem fecha os olhos para saborear uma iguaria.

Dialogo com o poema, leio, releio, “treleio”. Disseco cada possibilidade e penso que nunca me ocorreria aquele arranjo perfeito de palavras para traduzir os sentimentos que nunca consigo sintetizar. 

Tenho um amigo, ex-colega de faculdade, que deve ser meu alter ego masculino. Nossa amizade é peculiar, de brigar e fazer as pazes como crianças no jardim de infância. De respeitar o tempo de caverna um do outro sem cobranças, comemorando os reencontros. De dividir segredos inconfessáveis e angústias profundas. De compartilhar livros e as alegrias mais bobas.  

O curioso é que a gente acaba se encontrando só umas duas vezes por ano. Quem sabe nem nos demos conta disso porque nossa visão sobre o mundo e os sentimentos do bicho homem nos aproxima muito mais do que os cafés que ficam faltando. Conversamos no facebook, com sugestões de leitura, filmes, arte em geral e eventuais cervejas nas sextas à noite. 

E se dessa amizade surgiu o incentivo para este blog, também tenho o privilégio de ler seus escritos em primeira (e quase sempre única) mão. 

Fico surpresa com a originalidade e qualidade de seus contos e do quanto leio dele no que escreve. Quem sabe por isso tantas vezes não os publique.

E ontem, tarde da noite, me veio este poema no meio de nossa conversa. Achei belíssimo em cada palavra – in vino veritas? - e na disposição visual. Para minha surpresa, o escritor saiu da caverna e me deixou compartilhar.

Manual prático do ser humano

Acorde de blues
Luz
Sol e Chuva e Sol
Sexo
Solidão

A
M
O
R

De todos os animais que rastejam na lama, o ser humano é o único que pode dançar sobre ela.

Moisés F.


Como poderia eu ser poeta? Nunca terei amores suficientes para isso. 

Abro aspas e saboreio as palavras, como o viajante que senta na janela e contempla a paisagem.

Sorrio. 

Danço sobre a lama despreocupada, nunca me ocorreriam os outros animais.

Sorrio novamente antes do ponto final.

"Escolhe uma foto de Kyle Thompson para o post?" "Tá, pode ser esta do barco" "Já imaginava."

Nenhum comentário:

Postar um comentário