Postagens populares

domingo, 28 de junho de 2015

Histórias sem graça

Inspirada por este vídeo da incrível Jout Jout https://www.youtube.com/watch?v=tT0D6RsYfLk, fui conhecer esta página  do Tumblr http://historiasemgraca.com.br/


Tiro um tempinho para ler as pérolas, como esta "estou com preguiça de comprar desodorante… há duas semanas. ninguém reclamou, até agora." e dar umas risadas. 

Enviei várias, pois é bem rapidinho, mas não sei se serão publicadas. Então aproveito para deixar meus momentos sem graça aqui, para quem quiser compartilhar da beleza dos acontecimentos nada interessantes do nosso cotidiano.

"Acho que as pessoas que colocam o papel higiênico virado para a parede são muito menos inteligentes que as outras. Mas aí tem aqueles que nunca trocam o rolo. Desses eu não sei."

"Estava passeando com minha cachorra e notei que tinha esquecido a sacolinha pra recolher o cocô. Quando ela desceu da calçada e se agachou pra dar uma aliviada, fingi que estava olhando o whats. Na verdade tirei uma foto do local e do cocô pra recolher depois. Hoje fui lá. O cocô tinha sumido. Estou intrigada."

"Essa semana me informaram que eu tinha namorado um cara que nunca namorei. Há uns meses soube que fiquei com um cara com quem nunca fiquei. É muita torcida pela minha vida romântica. Acho legal pensarem que sou popular."

"Tenho uma crush no Jamie Oliver. Queria ter três filhos com ele. Não posso mais ter filhos desde os 36. Sinto muito pelo Jamie. Sou uma boa mãe e tenho muito apetite."

"Tenho um affair com o Rodrigo Hilbert, mas o Jamie Oliver não sabe disso. Nem o Rodrigo. Nem a mulher dele."

"Estou escrevendo essa história sem graça no banheiro. Se ela for publicada, provavelmente estarei no banheiro quando ler. Aposto que quem está lendo isso também está no banheiro. Pelo menos sou sincera."

"Tenho cabelo comprido e lavo a cada banho. Se tomo um banho por dia, lavo 1x. Dois banhos, 2x. Três banhos, 3x. E assim sucessivamente. Será que ficou claro ou preciso explicar melhor? Acho que tenho TOC. Mas sou bem limpinha."

"Quando faltava papel higiênico, eu usava guardanapos. Quando acabavam os guardanapos, usava papel toalha. Quando acabava tudo, eu ia ao mercado comprar muito de cada um. Me recuperei desse problema. Me sinto vitoriosa."

"Estava de férias e achei 300 reais em uma gaveta(!!!)...pensei em largar o emprego e seguir a vida procurando dinheiro nas minhas gavetas. A essas alturas, posso estar rica. Ou não."

"Uma vez derrubei a chave de uma sala do trabalho no vaso. Recolhi, lavei suuuper bem e ela está em uso até hoje. Sorrio sabendo que tem meu DNA no chaveirinho de madeira. Contei pros meus superiores. Eles riram ao invés de me demitir."

"Tenho intolerância à lactose e faço o maior drama com a comida. Não posso isso, não posso aquilo. Às vezes acabo chutando o balde e me entupindo com tudo que não posso. Aguento a dor de barriga na boa. Se eu tiver câncer de cólon, juro que não vou me queixar."

"Coloquei minhas roupas íntimas na máquina de lavar de qualquer jeito. Retirei dois Carefree bem limpinhos e retorcidos. Mandei foto no whats pra minha amiga perguntando se eu devia reutilizar. Acho que ela ficou na dúvida se eu estava brincando. Acho que mais pessoas que lerem isso também vão ficar na dúvida."

"Tive um período de obesidade quase mórbida. Tem uma foto. Minha melhor amiga tem ela no celular. Quando me queixo da vida, ela me manda a fat picture rindo da minha cara. Rio junto e melhoro na hora. Tenho fotos embaraçosas dela também, em caso de chantagem."

"Semana passada dormi de óculos a noite inteira. Não sabia se me sentia mais trouxa pelo fato ou pela marca na minha cara. Tive que ir trabalhar de óculos. Uma haste está meio comida pela minha cachorra. Dane-se!"

"Tenho problemas em aceitar elogios à minha aparência. Ou me justifico ou me esculhambo. Acho que pensam que é falsa modéstia. Mas tenho uma irmã muito linda, aí não consigo superar. A não ser que ela fique muito feia."

"Sambei na cara do xampu seco porque sou neurótica com cabelo limpo. Cortei uma franja. Lavo o cabelo de manhã, mas de tardinha a franja está uma gosma. Taco xampu seco. Fica uma beleza. O xampu seco sambou na minha franja."

"Minha sobrinha pequena adora se vestir de noiva. Ela jogou o buquê e eu peguei. Mas não houve casamento, nem noivo e eu era a única convidada, então acho que não conta."

"Uma vez coloquei uma foto abraçando um cabritinho no perfil do face. Um conhecido sugeriu churrasco do bicho. Garrei nojo."

"Uma vez falei com um cara no Skype. Ele até que era bonitinho, e eu estava bem arrumada. Ele me olhou e disse: até que tu não é feia. Pra feia tu não serve. Perdeu uma boa oportunidade ter ficado quieto. Trauma de Skype, deletei a conta. Queria é ter deletado a pessoa da face da terra. Mas acho que não tem como."

"Até hoje nunca encontrei outra pessoa que não tenha colado em nenhuma prova nem traído ninguém na vida. As pessoas pensam que é mentira. Me sinto solitária enquanto ser humano. Alguém me abraça!"




Sou a próxima. Faz dois anos.







terça-feira, 2 de junho de 2015

Além do bosque

Em uma manhã como qualquer outra, ela sucumbiu ao peso do dia a dia insípido. Despiu-se de sua pele fria e cinzenta, que deixou jazendo no chão da sala. Saiu deixando a porta aberta, pois nada do que havia lá dentro tinha sido seu.

E muitos foram se aproximando, curiosos. E quem olhava não enxergava tudo. Os que enxergavam não acreditavam. Os que acreditavam não entendiam.

Foi assim que seguiram à sua procura, pelos lugares onde ela nunca estivera. Por cada cômodo da casa, onde ela não fazia falta. No pátio cercado de grades e flores que só ela via. Em seu trabalho, moroso e sempre igual, lamentaram seus silêncios demorados. Nas ruas da cidade, sapatos andavam no mesmo ritmo da a água da chuva caindo das calhas. Nas salas das bibliotecas, os livros mais amarelados se acomodaram para sempre nas estantes.

E a vida voltou às intermináveis segundas e quintas-feiras. Não se sabia das estações.

De uma distância segura, ela os observava, do outro lado do bosque, no alto. Anestesiados, automáticos e tranquilos, transitavam de lá para cá. Ora com guarda-chuvas, ora com óculos escuros e chapéus, o céu nunca os tocava.

Enquanto isso, sua carne se recobria de uma pele rosada e fina. Feria-se fácil agora, e olhava as cicatrizes com longo espanto. Caminhava por entre as árvores, com galhos secos cortando-lhe as pernas e barro gelado recobrindo seus pés. 

Sentia o sol arder no rosto e nos ombros, as frutas ácidas ferirem a boca e o amassar das folhas secas fazer cócegas nos ouvidos. O cheiro do mato molhado não era menos doce que seus antigos e invisíveis jasmins. 

Acordava com o nascente e repousava com o poente. E se houvesse chuva, ela sorria ou chorava. Mas olhava sempre para o outro lado do bosque, os olhos brilhando ao imaginar tudo que poderia não ter sentido se ainda estivesse ali, a centenas de metros apenas, um cadáver de si mesma. E só então ela ria.

E foi assim, do outro lado do bosque, que ela respirou pela primeira vez. E seguiu respirando, transpirando, inspirando. Por muitos outonos ainda, que seguiram quentes verões. 

Por primaveras amarelas que seguiram as fogueiras dos invernos frios, até o exalar do último ar morno dos pulmões.

A terra úmida agora lhe cobre. Raízes de plantas verdes se esticam para alcançá-la. As folhas secas e flores de árvores próximas fazem uma macia cama sobre sua cama.

Mas ela não está mais lá, no barro escuro de onde veio. 

E dessa vida, além do bosque, não se arrepende. Da pele cinzenta, jogada no chão da casa, nem mais se recorda.

Só se recorda do que viveu.

Bem, é apenas o que ouço falar. Mas quem sou eu, afinal, se os sonhos me confundem?

 
Da fabulosa jovem fotógrafa Gina Vasquez, para ilustrar meus devaneios oníricos.