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sábado, 29 de novembro de 2014

Gurias do pedal


É isso aí, sou uma delas. Pelo menos é o que diz nos meus grupos do Facebook. E o legal é que te adicionam a um grupo sem perguntar o básico: você sabe pedalar? 

Deixemos essa pergunta para daqui a uns 300 caracteres.


Fato é que, depois dos 40, se te adicionam a qualquer grupo com a palavra “gurias”, não tem como recusar. Qualquer coisa que evoque juventude, beleza, vigor físico ou – melhor ainda – superestime nossa capacidade intelectual, a gente aceita e pronto. 


Ser adicionado a um grupo ao qual eu gostaria de ter a capacidade necessária para pertencer é como ganhar uma calça linda nº 36: não troco nem a pau. O fato de alguém me ver nesses termos de magreza já é suficiente para manter o presente e entrar resignada numa calça beeem maior.


“Química para Balzaquianas”, “Intelectuais com Curvas”, “Musas do rock”, “Coroas do Windsurf”, “Física para Gatas”, “As Belas do Patchwork”, “Mães Maratonistas”, “Chefs Suculentas”. Não recusei nenhum. Danem-se as habilidades e os dotes belezurais-barra-colaginosos. O orgulho fala mais alto.


Mas quanto às gurias do pedal, o negócio é que...bem, acho que pedalar não faz muito bem para minha saúde nem autoestima. 


A penúltima vez que pedalei pode ter sido há 20 anos e não me lembro, mas a última foi inesquecível, conforme os fatos abaixo:


Filho de 16 anos que só faz atividades físicas com o pai convida a mãe para andar de bike.

Mãe aceitaria até se fosse convite para nadar num mar com tubarões. 


Fomos. Eu na bike dele, ele na do pai. 


Primeiros 5 minutos, morro abaixo. Eu era o Leonardo Di Caprio na proa do Titanic, cabelos esvoaçantes, me achando e tal. Mas logo caí na real.


“Vamos voltar?” “Já?” “Pode ser?” “Tá bom.” 


Morro acima. Morro, o substantivo. Morro, o verbo morrer. Caraca! 


“Puff, puff, puff.” “Mãe, tu tá bem?” Aceno de cabeça para indicar que eu estava viva. “Quer ir para casa?” O último fôlego me permitiu emitir um embaraçoso “Siiiiim!"


Chegada em casa. Cambaleio até o sofá. O di Caprio estava agarrado nos destroços, só com a carinha de fora d’água.


“Mãe, tu tá bem?” “Err...acho que eu vou vomitar. Ou morrer.” “Pô, mãe, mas foram só dez minutinhos.” 


Glub, glub, glub. Di Caprio submergiu. Adeus, dignidade.


“Não é para falar, mas só um fumante andaria assim tão pouco de bicicleta. Meu pai vai comigo até o lugar tal, a 20km, e tem dez anos mais que tu.” 


Filho é dose, né? Não basta jogar a autoestima da gente no chão. Tem que tacar um balde de meleca e sapatear em cima. 


Nem me dei ao trabalho de argumentar que sou boa na caminhada, musculação, ginástica ou colocar a culpa na asma. Aparentemente nada é desculpa para uma mãe de 42 anos não andar de bicicleta.


E é por isso que nem argumentei com o “Gurias do Pedal”. Se acham que sou uma delas, quem sou eu para discordar?


Vou alcançar banana antes e água depois. Dirigir o carro-resgate em caso de algum pneu furado, que de pneu eu entendo.


Enfim, sou uma jovem esportista, com planos de adquirir uma bike e fôlego para andar nela.

Não pela minha saúde, não pelo ar puro.


É só por aquela coisinha chamada dignidade. Vou resgatar o Jack, a Rose e o Titanic todo. 


O que, aliás, é mais provável do que eu encarar uma pedalada.