Mães e pais, esposas e esposos,
filhos, familiares e amigos, a única coisa que sabemos ao certo é que nossos dias estão contados, mesmo sem sabermos de antemão o número.
No que quer que acreditemos, seja
que a vida continua na eternidade, seja que ela finda por completo no momento
da morte física, sempre que alguém se vai de repente, penso na dor de quem
fica.
Hoje o Brasil, com seus milhões
de aficionados por futebol, deixou de lado as rixas e picuinhas de Grenais e
outras disputas polarizadas para dar lugar ao luto pelo time de Chapecó, Santa
Catarina. Amanhecemos e aos poucos nos inteiramos da tragédia da queda do
avião fretado pelo time.
Sequer acompanho futebol, mas
tive que voltar a atenção às notícias. E soube que era um time que estava
vivendo seu momento de glória e cativando admiradores por sua garra e
determinação. E assim, juntos e com a companhia de toda a equipe que acompanha uma
viagem dessas, foram levados, exceto por poucos sobreviventes, de sua jornada
aqui.
Do nada, sem aviso prévio,
viraram recordação.
Creio que aquilo que mais nos
estarrece é que parecemos nos sentir mais a salvo quando viajamos como grupo. E
às vezes estamos enganados. Talvez eu seja pessimista ou ciente demais da
fragilidade da matéria, mas não há deslocamento por meio terrestre ou aéreo que
não me faça pensar que talvez aqueles que amo possam não retornar. E quem pensa
que, do nada, a equipe tal, a turma tal, o grupo tal encontrará assim, todos
juntos, seu destino final?
Não me atrevo a cogitar o tamanho
da dor dos familiares e amigos que ficam. E muito menos comparar dor com dor, daqueles
que recebem um telefonema trágico ou dos que têm tempo de se preparar para uma
partida dolorida e certa, que dilacera mas permite o adeus.
Mas sei que nenhuma mãe espera
que sua despedida de um filho que “logo volta” seja definitiva. Não diminuo,
diante disso, a dor das esposas, esposos, filhos e filhas, irmãos, amigos. De
certa forma todos temos muitos papéis na vida, e meu temor não se resume ao de
mãe. Porém, sei que o de mãe é único, que vai do início ao fim, de acalentar uma
vida que começa quase invisível, de acolher um espírito no ventre e no coração,
nas horas boas e, principalmente, nas difíceis.
E assim me compadeço, em uma
dor sem medidas, das mães.
Não gosto muito de manifestar
minhas crenças espirituais, mas para mim, cada um tem sua jornada, por mais
dolorida que seja ou por mais dor que cause, e faz algum sentido quando
buscamos esclarecimento. E creio que é necessário crer. Porque do contrário, é impossível
sobreviver a certas perdas.
Me ocorreu pela primeira vez o
quanto a morte é palpável há uns 7 anos, quando uma colega de aula de meu filho
partiu cedo demais. Vi crianças de luto e o que restou aos pais. E se a morte vem
para alguns, por que somos nós os escolhidos para sermos poupados? Não sei de
onde viemos ou para onde vamos, só sei que me doem as partidas até de
desconhecidos. “E as mães?”, eu penso. Como se pode suportar algo assim?
O enorme aperto no peito
de hoje se transfere àquele que tem nome, cheiro, idade e endereço, longe do meu. E a cada abraço de
reencontro ou de despedida nos finais de semana, meu pensamento se volta a Deus
e peço que a viagem seja segura. Peço que nossa trajetória seja longa e nossos
abraços, incontáveis e infinitos.
Preciso crer que esse
infinito dura o tempo necessário.
E que Deus protege os que ficam e
ajuda a dar sentido e conforto nos momentos de desespero e dor.
Do contrário, a vida não seria um
sopro - seria um acaso entre dois nadas.
E acasos e nadas não bastam às mães.
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| Procurando a linha de chegada nas jornadas que parecem não concluídas. |

