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sábado, 5 de julho de 2014

Os tubarões do Havaí

Saída da escola, hora do almoço, sexta-feira. Um grupo de alunos de uns 12 anos parado na calçada.

- Tchau sora.
-Tchau. Vocês têm aula de tarde?
- Aham.
- Cansados?
-Sim!


Me abracei na galerinha pra desacomodar umas mentes:


- Pra que a gente estuda tanto, né?


Pensaram uns segundos e um deles me respondeu:


- Ah, pra ser alguém na vida (mesmas palavras que meu pai usava, ainda colam!)
- Mas e pra que ser alguém na vida?


Mais um tempinho se olhando, tentando ver se eu estava falando sério:


- Ah, pra ter uma vida boa.
- Ah, mas se a gente trabalha taaanto pra ter uma vida boa, de onde vai ter tempo de gastar o dinheiro?


Ficaram me olhando com umas caras meio divertidas e de surpresa.


- Acho que a gente devia largar tudo e ir pro Havaí, viver só pescando. Que tal?
- No Havaí tem muito tubarão, sora.
- Sério? Não é na Austrália?
- Na Austrália também.
- Putz! 


Murchei. O que as crianças ganham estragando o sonho da gente? 


- Melhor não, então. Ficamos por aqui pra ser alguém na vida, mesmo. Vou almoçar. Beijos!


E em vinte minutos já tinha comido meio quilo de comida e carregava três sacolas de livros. O trabalho da tarde me esperava, outros adolescentes que precisam ser alguém na vida. 


Fiquei pensando se vai chegar um comunicado pelo correio quando eu for alguém na vida. Assim, tipo uma carta de dispensa dessa missão urbana.


Queria ir pra algum lugar verde da cor do meu brócoli hidropônico ou azul da cor da minha bombinha pra asma. Queria banho frio, pô! Me encher de picada de mosquito e encardir as unhas dos pés.
 

Pescar (não resolvi a parte do nojo da minhoca) uns peixes que eu iria limpar e comer, com o traseiro cheio de areia, e depois entrar no mar cristalino, de barriga cheia, como minha mãe não deixava. Avisto uma barbatana...

Nisso atravesso a rua distraída e quase sou atropelada por um carro dirigido por alguém na vida. Fim do sonho - essa foi por pouco! 


Me recomponho e passo um gloss, pronta pra mais uma tarde de trabalho.
E me dou conta da minha sorte...


Nada como estar a salvo dos tubarões do Havaí!

Exatamente o que eu faria antes de pescar no Havaí. Ai, ai...