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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Resoluções de ano novo: um guia prático

Se você é daquelas pessoas que resolvem iniciar as dietas na segunda-feira, aconselho a encarar o TOC afundando a cara no seu último brigadeiro de panela, que esse post não é pra você.

Se além de adiador de dietas ainda for curioso, um aviso: você vai ler dicas de resoluções de ano novo pra agorinha mesmo, entrando janeiro com “check” na metade da lista. Assim, tipo começar a dieta na sexta de noite comendo a metade da sobremesa - o que muitos diriam que não-é dieta-coisa-nenhuma, enquanto eu chamo de economia sensata ou “just do it”, ou “já comecei...coma minha poeira!”

Se os dietéticos planejados ainda estiverem lendo, pois que sejam bem-vindos, juntamente com nós, gordinhos e pessoas mais práticas, a essa aventura de autopromoção do bem estar psicológico (eu acho).

Bem, pegue na minha mão e vamos às origens.

Tenho um costume muito do bom, aprendido com uma amiga, que é o de anotar as metas do ano seguinte bem especificadas. Diz ela e dizem as outras pessoas de mais sucesso (e menos preguiça que eu) que precisamos ser específicos. 

Por exemplo, não dá pra escrever “ganhar mais”. Pode ser que você ganhe 15 reais a mais por mês, e aí, era isso mesmo que você queria? Tem que escrever “ganhar 5 mil reais por mês até novembro de 2016”, por exemplo. Entendeu?

Não sei direito se isso é por causas religiosas, tipo a contabilidade do andar de cima precisa de números, ou se nosso inconsciente é meio lerdinho no processamento. Mas funciona. Vou dar um exemplo, que é quando eu coloquei na lista de 2011 “encontrar um amor”.

Bom, foi um ano de estiagem romântica total, do tipo seca daquelas de pingar colírio pras lentes de contato não colarem nas córneas. Aí no final de dezembro percebi que estava muito em forma e que tinha aprendido a me amar – não é lindo isso?

Até que sim, mas pô, percebe a sacanagem? Eu tava até com o biquinho pronto pro primeiro beijo e nada! Foi então que comecei a elaborar melhor o negócio, com as dicas da minha amiga.

Nos próximos anos, "escrevi encontrar um homem", porque vai que JC ou meu cérebro cismem que eu me apaixone por um mamute, por exemplo, e do sexo feminino (uma mamuta?), ferra geral comigo. 

Pedi na faixa etária tal e que me amasse. Não rolou, já que com certeza EU não amei ninguém naquele ano, viu a ironia? Burocracia celestial, vai ver.

De modo que fui refinando a busca, com os termos “conhecer”, “amar e ser amada”, “signo do elemento ar”, “circunferência abdominal”, “preferências cinematográficas”, “grau de miopia”, “profissão”, “idade mínima”, “tolerância com TPM”, “QI”, “QE”, “talentos para consertos e requisitos que agregam valor”, “intolerância a baladas e sertanejo universitário”.

Adivinha? Bingo!!

Consegui o namo, mas demorou pra caramba com tanto item opcional. Agora é agilizar um pedido de casamento, apresentar pro meu pai (depois do casamento...hehe) e ser adorável até que ele seja totalmente dependente do meu love e incapaz de me dar um pé no traseiro. Isso eu espero que não leve mais do que um ano, que já estou louca pra colocar as manguinhas de fora, sugerir umas tatoos maneiras e dar um rodo com meu nome.

Mas voltando à lista, caaaara! Ainda falta um monte de coisa. E já passei dos vintemaisvinte, de modo que não tenho muito tempo de vida e é melhor ir colocando “check” logo em janeiro pra me sentir realizada, o que dará um boost na minha autoconfiança e o resto, seja o que o destino quiser e o reumatismo deixar...ufa!

Então, vamos ao ponto.

Aqui a minha, a sua, a nossa...lista. Inspire-se!

- Não beber refri - check fácil. Não sou fã.

- Não fumar – CHECK! Nunca fumei na minha vida, e não vai ser nessa idade e asmática que vou cometer essa idiotice.

- Perder peso – dou o check amanhã, prometo, que hoje comi mamão e é tiro e queda. Quem sabe um diurético, que meu anel de dedos inchados tá servindo bem.

- Arrumar a cama todos os dias – CHECK porque antes de dormir tem que tirar os farelos e arrumar igual, né? Se bem que tenho arrumado de manhã mesmo, pra colocar a toalha molhada em cima.

- Ser mais organizada – CHECKzão de cama arrumada!

- Passear mais com a minha cachorra.

- Levar um nerd para passear.

- Fazer mais atividade física – CHECK, CHECK, CHECK, esses três num só...Rá!

- Ganhar mais dinheiro – CHECK! Tenho pedido mais dinheiro, ou pedido pro meu namo e meu filho pagarem algumas coisas pra mim, portanto ganho mais. E é pedindo que se ganha, ué. Simples assim.

- Gastar menos dinheiro – CHECK, almoçando em casa, já que adoro cozinhar. Ou sábado tem sempre almoço na sogrinha do S 2. Não fiz bem a conta ainda, mas isso deve fazer uma gorda (palavra apropriada) diferença nas minhas Dilmas.

- Ler mais livros (pra não me sentir culpada que só leio artigos) – CHECK. Comecei mais dois este ano e não coloquei prazo pra terminar. Ainda bem, porque a biografia do Dave Grohl é uma tradução ridícula e eu talvez nunca termine. Mas tem mais quatro livros esperando pra serem começados. Então janeiro e Aurélio que me aguardem!

- Desperdiçar menos tempo escrevendo coisas inúteis – CHECK, que estou usando meu tempo da soneca pós almoço, que não contabiliza. E pode ser que esse texto ajude alguma pessoa a mover algum músculo facial ou trapacear, digo, agilizar as metas de fim de ano, o que o tornará muito útil.

- Ser uma pessoa melhor – aí é um CHECK de terceiros. Mas suponho que se em quatro meses fui convivível, já entro 2016 praticamente beatificada. E olha que coloquei a culpa na TPM só seis vezes até agora. E chorei só duas. Uma foi de alegria e com Ed Sheeran no fundo, bem fofa.

Bem, gente, era essa minha dica, tipo DIY. Adaptem aí e já vão colocando “check” nos itens ontem mesmo.

Saio de 2015 loguinho, espero que viva, e entro em 2016 pela porta de serviço, ocupadésima e cheia de metas cumpridas. Pode até que eu tenha que inventar outras, de puro tédio, tipo fazer dieta ou voltar pra academia. Só não uso a palavras “continuar”, que isso é um plus que vai depender da minha organização e - putz, “esqueci” de colocar isto na lista - vontade nesse corpo.

Agora vou lá tirar o pó de algum móvel ou colocar roupa na máquina. É só achar o chinelo e meus óculos, que podem estar embaixo da panela de brigadeiro ou no meio dos lençóis, vai saber. Torce por mim, tá?

Tô torcendo por você também. Perca o fumo e ache um nerd para passear.

Seja menos pesado, ganhe menos culpa e peça mais livros. Arrume mais dinheiro e atividade física.

Seja um amor.

E leia mais qualquer coisa no ano novo. Ah, parabéns por ter começado. 

Beijo de 2016 adiantado, sem hora certa pra você aí! 

Feito!!!




terça-feira, 10 de novembro de 2015

O segundo frasco de xampu e o beijo do Homem Aranha

Começou pelo Facebook, faz três meses. Foi indicação de uma amiga, combinava comigo e tal. Era para experimentar.

Mas então foi um “Tudo bem?” e um “Tudo ótimo!” logo de cara. Assuntos intelectuais enquanto eu passeava na rua com a filha que nunca vai sair de casa.

Devia ser sexta, dia 7. Saímos no sábado. Isso depois de falarmos umas três horas pelo telefone.

Eu não pretendia muita coisa, acho. Porque não estava mais muito focada em achar o super-herói que, se combinasse comigo, seria bom demais para mim, como eu sempre dizia para todo mundo. Sabe, tenho uma lista de umas coisas indispensáveis. E olha que não sou nenhuma diva para merecer tudinho isso, aí você imagina a probabilidade de isso se concretizar? 

Eu não imaginava quando escrevi a lista. E aqui está, do jeito que era, com adjetivos e substantivos, para não perder a espontaneidade.

Honesto
Fiel
Inteligente e culto
Companheiro
Senso de humor
Satisfeito profissionalmente
Esforçado
Afinidade física
Boa aparência
Generoso com os demais

Pois bem, quem sabe estava na hora de acrescentar o terceiro verbo ao comer e rezar, mesmo sem sair de casa. Pelo que constatamos, se fosse um mês antes, talvez não tivesse sido a hora. Com certeza não seria antes do livro do Natal passado, que ao invés de me deixar uma mulher menos exigente, me tornou mais prática e me fez depurar os dramas e as bobagens para buscar o essencial.

Só sei que as coisas boas começam com alguém abrindo a porta de sua “humilde carruagem”. E seguem com sushi. E continuam com um beijo de boa noite na porta de casa. E não têm nenhuma dúvida quanto a ligar para agradecer o encontro ou medir as palavras ou ficar com as pernas tremendo ou ter o coração saindo pela boca.

As coisas boas são tranquilas. Certas. E chegam a ser surreais a ponto de se pensar, “será que isso está mesmo acontecendo?” várias vezes em um final de semana.

Sempre pensei que seria impossível alguém gostar de mim 100%, sem querer que eu parasse de subir em árvore e assobiar que nem um moleque de 12 anos. Impossível alguém gostar de mim lendo tudo o que escrevo aqui. Impossível, eu pensava. Não acreditava.

Agora acredito em Papai Noel trabalhando de Crocs na fábrica de ovos de chocolate sem lactose do Coelhinho da Páscoa.  Acredito em super-heróis e videogame. Na Mulher Maravilha. No Witcher.

Na Penny e no Leonard e no Sheldon e na Amy. Em alguém cantando Soft Kitty quando a gente tem asma. Acredito que a sintonia está em tudo e é tranquila e espontânea.

Acredito que tem mais uma pessoa no mundo que não quer de jeito nenhum ganhar na Mega Sena. E que quando a gente faz a oração de mãos dadas coisas mágicas acontecem.

E acredito no segundo frasco de xampu que levei na casa dele.

Parece que já faz tanto tempo e parece que o tempo é menos real. Acredito que cada um fala “eu te amo” quando é a hora certa. E abre espaço no armário quando está pronto.

Acredito nas profecias que estão nas coisas mais bobas do mundo, como lembrar das mesmas coisas na mesma hora. Como naquele dia de assistir TV no colo dele e olhar para cima. Um beijo de cabeça para baixo e os dois falando ao mesmo tempo: “O beijo do Homem Aranha!”

Ah, o beijo do Homem Aranha...

Pode ser tudo pura coincidência. Pode ser que a lista de mil coisas em comum tenha alguma falha e que não chegue o terceiro frasco de xampu ou no vigésimo bolo ou no trigésimo quarto aniversário.

Pode ser que as letras aqui na frente sejam só uma ilusão de ótica, que não formem as palavras que aprendi ou que ninguém me entenda.

Pode ser que o sol vermelho ali na frente não vá dormir hoje no horizonte. Pode ser que eu acorde amanhã sendo só uma, aquela de uns 100 dias atrás, afinal tudo é possível?

Mas acho – só acho – que seria mais provável a gente ganhar aquele prêmio que os outros desejam na loteria. Sem apostar nunca.

Quem sabe?

Eu é que não sei mais de nada. 

Agora só acredito.


E chamo isso de amor.

Abre espaço pro meu xampu, Peter 



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Humans Of New York e os do pálido ponto azul

Dentre todas as coisas que a internet e a o Facebook nos proporcionam, nada é de tão fundamental importância para mim quanto a página Humans Of New York (HONY).

Brandon Stanton é o fotógrafo/repórter por trás das imagens de nova-iorquinos que contam alguma história, curta ou longa, ou de fotos com alguma legenda breve e significativa. O que há de especial na página não é que as pessoas sejam ou contem coisas extraordinárias, mas talvez o contrário: o quanto podemos nos identificar com esses humanos de aparências e histórias tão diversas. 

Particularmente, me sinto tocada tanto pelas histórias tristes quanto por alguma legenda divertida. Diria que a página é uma janela para a diversidade humana. Mas isso até cerca de dois meses.

Foi quando Stanton aventurou-se em uma viagem ao Paquistão e fotografou uma série de pessoas que deram seu depoimento sobre as dificuldades e as alegrias de viver nesse território, que até então eu enxergava por uma janelinha miúda e estereotipada na mídia.

Humans Of New York colocou na vitrine, sem interesses políticos ou econômicos, a vida de pessoas até então muito mais distantes, ao menos para mim, do que os de Nova Iorque. E assim ele fez também em uma tocante viagem ao Irã.

Documentados os humanos do Irã, surgiu uma nova “missão” para a página, talvez despertada pela repercussão no mundo todo da foto do menino sírio de bruços na praia da Turquia, vítima de uma tentativa desesperada de sua família de fugir em condições precárias de uma situação que ameaça o direito mais básico do ser humano: o direito à vida.

Humans of New York esteve na Grécia e em outros países europeus por cerca de duas semanas, documentando as histórias mais inimagináveis de sobreviventes da emigração da guerra civil da Síria para a Europa, cruzando o mar em botes de plástico superlotados no meio da noite para evitar a vigilância.

Para pagar aos smugglers (contrabandistas de pessoas, nesse caso), alguns chegam a trabalhar quinze horas por dia por mais de um ano, ou vender tudo que possuem. Outros não têm a chance de se despedir dos familiares. E a maioria, ao deparar-se com a embarcação rudimentar e superlotada que os levaria à liberdade, entram em desespero. Mas diante da recusa dos smugglers em devolverem seu dinheiro, acabam partindo, muitas vezes rumo à morte por afogamento na escuridão do mar noturno.

Muitas histórias têm um final esperançoso e de alívio. Outras, nem tanto. Mas todas valem a leitura.

Talvez quem já tenha lido este blog esteja se perguntando o porquê de eu recomendar Humans Of New York justamente agora, com essas histórias de partir o coração, já que geralmente publico textos mais leves ou engraçados.

Bem, digamos que não só criamos novas maneiras de enxergar nossos próprios sofrimentos quando nos deparamos com outras realidades como reafirmamos nossa fé nas milhares de pessoas empenhadas em ajudar os imigrantes em sua busca por uma vida melhor. Esses também estão retratados no projeto de Brandon Stanton, que a meu ver, ainda receberá vários prêmios por sua contribuição a nível mundial.

E caso você se interesse pelo projeto e seu inglês não esteja tão afiado, sugiro pedir ajuda a algum conhecido ou mesmo usar recursos de tradução, pois vale a pena.

Ainda, é reconfortante ler os milhões (literalmente) de comentários de solidariedade de pessoas do mundo todo para com a situação, especialmente de gregos que mudaram seu ponto de vista ao saberem das histórias de alguns rostos nas multidões que "brotam" em suas praias.

Para encerrar com uma ideia do que o projeto ilustra, um comentário em um post diz que ninguém coloca o filho em um barco a menos que seja mais seguro do que a vida que deixam em terra.

Que possamos, nós humanos de bem, agradecer por estarmos em terras seguras, com alimento e um teto sobre nossas cabeças. Ou navegar em direção a terras seguras. Ou estender a mão àqueles que não contam com isso.


Mas sobretudo que, diante de tanta violência imposta pelo homem sobre o próprio homem, ainda possamos enxergar a solidariedade, a esperança e a resiliência como os maiores triunfos dos humanos do pálido ponto azul, nosso único planeta Terra.

A história de Muhammad, com um desfecho de aquecer o coração: a solidariedade de um desconhecido e o recomeço na Áustria


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Todo mundo nu


Há tempo escrevi um texto divertido sobre tipos de homens, até o momento lido por quase quatrocentas(!) pessoas. Um amigo próximo leu e se identificou com uma descrição, feita realmente baseada nele. Nela constava Bukowski. Me diz ele que se eu escrevesse sobre Bukowski, teria que escrever sobre sexo.

Bem, sou mulher. Sou mulher e mãe. Sou mulher, mãe, solteira há tantos anos e professora. Sei que alunos me leem e inclusive comentam isso comigo.

É verdade também não sinto necessidade de escrever sobre sexo. Só tenho imensa dificuldade em driblar os palavrões, que até agora não escrevi nem no Facebook nem no blog, o que para mim é uma façanha.

Meu amigo, tão culto e entendido de literatura, elogia meu texto e confessa que não conhecia algumas referências (pop, de filmes muito específicos ou da minha geração). E me diz que acha que o texto não é sobre os homens.

Eu quase pergunto se é sobre as pessoas em geral, mas ele me interrompe e diz, “É sobre ti.”

Fico um instante perplexa com minha idiotice. Afinal, eu mesmo sempre digo que todos os textos são sobre quem os escreve. Apenas em alguns é mais fácil disfarçar do que em outros. Mas para quem nos conhece ou é perspicaz e conhece a psique humana, nos expomos em maior grau.

Sei que escrevo textos que no formato beiram a infantilidade dos 15 anos. Como alguém que entende de literatura muito mais do que eu pode gostar de ler besteirol?

Bem, com a idade que tenho, acabei aprendendo a dizer brincando algumas coisas bem mais profundas. Para bom entendedor, está expresso o quanto acho preocupante, por exemplo, as mães incentivarem a dependência dos filhos homens para consigo. O quanto acho deselegantes pessoas narcisistas ou seu oposto, alguém que não cuida o mínimo de si. O quanto acho patética a falta de um mínimo de cultura.

Está escrito na introdução que meus amigos estão entre os vinte e poucos e os trinta anos, e que abaixo disso vejo como se fosse meu filho. Está escrito também o quanto sou uma Bridget Jones em termos de lidar com o sexo oposto, bem como o que acho imprescindível e raríssimo em uma pessoa. E quem sabe alguém tenha notado minha indecisão entre querer que alguém invada minha vida e “grude” em mim, tolhendo minha liberdade, ou buscar o inalcançável: alguém com “vida própria” e que consiga ser fiel.

Me dou conta de que, sem ter falado no tema obrigatório de Bukowski ou usado qualquer palavrão, me desnudei em um texto sobre as futilidades femininas e em outro sobre tipos de homens. E em todos os outros, reflexivos ou não.

Na conversa com meu amigo, me senti como naquele sonho, de estamos em um local público e de uma hora para outra nos damos conta de estarmos nus, sabe?

Escrevendo, nos expomos. E em fotos bobas, com roupas. Em gestos e naquilo que não falamos.


Tirando a roupa, despimos apenas o invólucro; em palavras, nosso pensar e nosso julgamento sobre o que nos circunda.

E nos silêncios, nos gestos e no que transcende as palavras, despimos mais do que tudo isso. Aos olhos atentos, estamos todos nus, de alguma forma.

Preciso ler Bukowski.

Preciso ler.

Preciso nem sem bem do quê.

Cobrir as palavras com roupas?

E a pele com sol e vento?

preciso escrever.


Dane-se minha ingênua nudez!


Para o brilhante fotógrafo Spencer Tunick, os corpos são a matéria prima para compor suas fotos.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O pálido ponto azul e o som de um beijo

Nada é relevante quando enxergamos a Terra assim, de um longe tão inimaginável quanto registrado pela Voyager ao atingir o limite do sistema solar, levando consigo registros da espécie humana para outras possíveis formas de vida.

Sobre um filme. Relações virtuais. Uma sonda espacial e seu conteúdo, que o físico Carl Sagan ajudou a selecionar para representar a nós. 

Sobre a Terra e o que nela está contido, assim inicio:

É sábado. Vou à locadora em busca de algo denso e significativo para iniciar a maratona de filmes das férias. Diante de mim, um título dirigido por Jason Reitman, o mesmo do brilhante indie movie Juno, de 2007. O título, Homens, Mulheres e Crianças, traduzido literalmente do inglês, não é nada atraente, mas leio a sinopse e vou pelo elenco e diretor.

Que agradável surpresa!

O filme trata das relações humanas em tempos virtuais, de maneira sensível e visualmente inovadora, com a interface do que os personagens visualizam em seus computadores, celulares e afins na tela, ao lado deles.

É como se tivéssemos uma visão sobre seus pensamentos: a mãe superprotetora que controla cada acesso da filha a cada recurso. O pai que não consegue lidar sozinho com o filho após ambos serem abandonados por sua esposa. A mãe que explora a beleza da filha e quase sabota o futuro de ambas. O casal que usa de subterfúgios para evitar um ao outro e que acaba justamente se reencontrando dessa forma. O menino popular que descobre que a primeira vez com uma garota é bem diferente dos vídeos que costuma assistir online. 

E por fim, o garoto que encara o abandono deixando de lado o esporte, os amigos e a si mesmo, em um avatar em jogo de RPG. Segundo ele, sua existência é irrelevante para o universo, o que sustenta com as afirmações de Carl Sagan sobre os registros de nosso planeta feitos pela sonda Voyager no limite do sistema solar, apontando a Terra como um pálido e minúsculo ponto azul.

Sem maiores detalhes, recomendo o filme aos seres pensantes em geral, adolescentes ou adultos de qualquer idade. Os extras são imperdíveis, com o diretor discutindo algumas metáforas que tinham me passado despercebidas e com comentários de todo o elenco, de variadas idades e opiniões sobre essa nova era em que vivemos.

De todos os comentários, o da atriz Jennifer Garner resumiu o que buscamos, ainda que às vezes de equivocadamente, com equipamentos que nos distanciam de quem está a centímetros de distância: buscamos contato.

No encerramento do filme, narrado pela atriz Emma Thompson, o texto de Carl Sagan é esclarecedor para os leigos, como eu, permitindo uma visão mais ampla do que a mostrada pelo personagem Tim.

Resumindo (com meus sentimentos), Sagan diz que a Terra, de longe um pálido ponto azul, é nosso lar, o único que tivemos e teremos, desafiando nosso delírio de posição privilegiada no universo. Para ele, no entanto, nossa pequenez no universo e nosso “confinamento” a apenas este espaço habitável enfatizam nossa necessidade de tratá-lo com mais respeito e de sermos mais gentis uns com os outros.

Mais gentis uns com os outros. 

Relacionamentos. 

Proximidade. 

O filme.

Contato. 

...

Dentre os registros de nosso planeta, levados ao espaço interestelar pela Voyager, estão compiladas em um disco revestido de ouro 115 imagens, sons da natureza e animais, saudações em 55 línguas, uma seleção de músicas que inclui Mozart, e mais alguns ícones, conforme o site da NASA.

De todos os registros do golden record, como é chamado, o que mais representa nossa busca, em minha ínfima e singela opinião, é bastante simples:

O som de um beijo.

"Para criaturas pequenas como nós, a imensidão só é suportável através do amor" Carl Sagan (1934 - 1996)

terça-feira, 14 de julho de 2015

Beleza americana?

Sem spoilers nem resenha do filme, apenas uma frase dita pela personagem de Annete Bening no filme de 1999, que ressoa em minha cabeça há uns dias: “Para ser bem sucedido, deve-se projetar uma imagem de sucesso em todos os momentos”.

Assim a personagem, à beira de um colapso, lidava com a frustração e preocupava-se demasiadamente com sua aparência e seu jardim, onde cultivava as rosas que dão nome ao filme.

Foi um post no facebook, sobre um dos meus malsucedidos consertos caseiros (com a devida documentação fotográfica), que gerou o comentário de uma amiga, me fazendo lembrar dessa frase. 

Dentre os comentários sobre a situação patética, ela escreveu que uma coisa é certa – na minha vida não tem monotonia.

Sério? Me surpreendi com isso.

Guardei isso dentro, bem no fundinho, remoendo cá comigo. Você pode não ter o mínimo interesse na minha vida, mas sugiro que remoa, lá consigo, se um pouco de autoconhecimento for do seu interesse. A pergunta é a seguinte:

Somos o que parecemos ser, mesmo quando tentamos realmente nos expor de uma maneira autêntica e o menos plastificada possível?

Vejamos (eu aqui, e você aí)...

Vida real: desastrada, quase sempre de bom humor mesmo nos abundantes perrengues diários. Marcas em volta da boca, de sorrir bastante (até lavando louça!), e não na testa, já que não perco o sono em vão e procuro me desculpar pelos dias de mau humor. 

Enfim, ser humano normal (eu acho), às vezes mais gordinha, às vezes mais magrinha, às vezes arrumada, quase sempre com a mesma calça e sem maquiagem. Quatro décadas e mais uns anos, irreverente, inconveniente, que adora ajudar e fazer os outros rirem. Cozinheira e comilona.

Facebook: fotos de tudo isso aí, por incrível que pareça. Música com pedaços de letra falando por mim. Textos engraçados, outros irônicos, alguns reflexivos. Comentários bobos, outros mais “evoluídos”. Nada de posts quando estou doente, no casulo, sem companhia. Fotos artísticas compartilhadas, com composições inusitadas. Pensei que isso me representasse.

Até o comentário da Luciane.

Cadê a monotonia solitária de domingo? A clausura que me imponho para fazer as coisas que eu poderia fazer durante a semana se me organizasse melhor? Pensei que as fotos de cachorro e comida falassem por si, mas quem sabe não. Tem o bom dia com café cedinho e a paz genuína daquele momento, mas deixo por isso mesmo. Quem sabe a monotonia não me represente, assim como as fotos arrumadinhas fazendo pose.

Penso mais um pouco.

Talvez a vida dessa humilde habitante do planeta terra não seja, de fato, monótona.

Quando tem algum problema, haja criatividade para ver com outros olhos e relatar aos amigos de forma engraçada.

Quando está tudo maravilhoso, haja superego para não sair virando estrelinha na rua e dançando com as pessoas que passam.

E quando tem assuntos internos desacomodando a massa cinzenta, haja caracteres para descrever o filme que se passa em minha mente com um simples comentário de duas linhas.

Haja beleza, enfim, para enfeitar as coisas mundanas mais feinhas, para a gente expor nas janelas da nossa vida.

Respondendo à pergunta do início:
É, acho que tento colocar umas florzinhas. Coisa simples, que apanho na estrada. Se elas são de plástico ou não, bem...

...nem eu mesma descobri ainda.


E as suas, são de quê mesmo?

Trilha do post, do Radiohead https://www.youtube.com/watch?v=m6GzWvMrWTA



domingo, 28 de junho de 2015

Histórias sem graça

Inspirada por este vídeo da incrível Jout Jout https://www.youtube.com/watch?v=tT0D6RsYfLk, fui conhecer esta página  do Tumblr http://historiasemgraca.com.br/


Tiro um tempinho para ler as pérolas, como esta "estou com preguiça de comprar desodorante… há duas semanas. ninguém reclamou, até agora." e dar umas risadas. 

Enviei várias, pois é bem rapidinho, mas não sei se serão publicadas. Então aproveito para deixar meus momentos sem graça aqui, para quem quiser compartilhar da beleza dos acontecimentos nada interessantes do nosso cotidiano.

"Acho que as pessoas que colocam o papel higiênico virado para a parede são muito menos inteligentes que as outras. Mas aí tem aqueles que nunca trocam o rolo. Desses eu não sei."

"Estava passeando com minha cachorra e notei que tinha esquecido a sacolinha pra recolher o cocô. Quando ela desceu da calçada e se agachou pra dar uma aliviada, fingi que estava olhando o whats. Na verdade tirei uma foto do local e do cocô pra recolher depois. Hoje fui lá. O cocô tinha sumido. Estou intrigada."

"Essa semana me informaram que eu tinha namorado um cara que nunca namorei. Há uns meses soube que fiquei com um cara com quem nunca fiquei. É muita torcida pela minha vida romântica. Acho legal pensarem que sou popular."

"Tenho uma crush no Jamie Oliver. Queria ter três filhos com ele. Não posso mais ter filhos desde os 36. Sinto muito pelo Jamie. Sou uma boa mãe e tenho muito apetite."

"Tenho um affair com o Rodrigo Hilbert, mas o Jamie Oliver não sabe disso. Nem o Rodrigo. Nem a mulher dele."

"Estou escrevendo essa história sem graça no banheiro. Se ela for publicada, provavelmente estarei no banheiro quando ler. Aposto que quem está lendo isso também está no banheiro. Pelo menos sou sincera."

"Tenho cabelo comprido e lavo a cada banho. Se tomo um banho por dia, lavo 1x. Dois banhos, 2x. Três banhos, 3x. E assim sucessivamente. Será que ficou claro ou preciso explicar melhor? Acho que tenho TOC. Mas sou bem limpinha."

"Quando faltava papel higiênico, eu usava guardanapos. Quando acabavam os guardanapos, usava papel toalha. Quando acabava tudo, eu ia ao mercado comprar muito de cada um. Me recuperei desse problema. Me sinto vitoriosa."

"Estava de férias e achei 300 reais em uma gaveta(!!!)...pensei em largar o emprego e seguir a vida procurando dinheiro nas minhas gavetas. A essas alturas, posso estar rica. Ou não."

"Uma vez derrubei a chave de uma sala do trabalho no vaso. Recolhi, lavei suuuper bem e ela está em uso até hoje. Sorrio sabendo que tem meu DNA no chaveirinho de madeira. Contei pros meus superiores. Eles riram ao invés de me demitir."

"Tenho intolerância à lactose e faço o maior drama com a comida. Não posso isso, não posso aquilo. Às vezes acabo chutando o balde e me entupindo com tudo que não posso. Aguento a dor de barriga na boa. Se eu tiver câncer de cólon, juro que não vou me queixar."

"Coloquei minhas roupas íntimas na máquina de lavar de qualquer jeito. Retirei dois Carefree bem limpinhos e retorcidos. Mandei foto no whats pra minha amiga perguntando se eu devia reutilizar. Acho que ela ficou na dúvida se eu estava brincando. Acho que mais pessoas que lerem isso também vão ficar na dúvida."

"Tive um período de obesidade quase mórbida. Tem uma foto. Minha melhor amiga tem ela no celular. Quando me queixo da vida, ela me manda a fat picture rindo da minha cara. Rio junto e melhoro na hora. Tenho fotos embaraçosas dela também, em caso de chantagem."

"Semana passada dormi de óculos a noite inteira. Não sabia se me sentia mais trouxa pelo fato ou pela marca na minha cara. Tive que ir trabalhar de óculos. Uma haste está meio comida pela minha cachorra. Dane-se!"

"Tenho problemas em aceitar elogios à minha aparência. Ou me justifico ou me esculhambo. Acho que pensam que é falsa modéstia. Mas tenho uma irmã muito linda, aí não consigo superar. A não ser que ela fique muito feia."

"Sambei na cara do xampu seco porque sou neurótica com cabelo limpo. Cortei uma franja. Lavo o cabelo de manhã, mas de tardinha a franja está uma gosma. Taco xampu seco. Fica uma beleza. O xampu seco sambou na minha franja."

"Minha sobrinha pequena adora se vestir de noiva. Ela jogou o buquê e eu peguei. Mas não houve casamento, nem noivo e eu era a única convidada, então acho que não conta."

"Uma vez coloquei uma foto abraçando um cabritinho no perfil do face. Um conhecido sugeriu churrasco do bicho. Garrei nojo."

"Uma vez falei com um cara no Skype. Ele até que era bonitinho, e eu estava bem arrumada. Ele me olhou e disse: até que tu não é feia. Pra feia tu não serve. Perdeu uma boa oportunidade ter ficado quieto. Trauma de Skype, deletei a conta. Queria é ter deletado a pessoa da face da terra. Mas acho que não tem como."

"Até hoje nunca encontrei outra pessoa que não tenha colado em nenhuma prova nem traído ninguém na vida. As pessoas pensam que é mentira. Me sinto solitária enquanto ser humano. Alguém me abraça!"




Sou a próxima. Faz dois anos.







terça-feira, 2 de junho de 2015

Além do bosque

Em uma manhã como qualquer outra, ela sucumbiu ao peso do dia a dia insípido. Despiu-se de sua pele fria e cinzenta, que deixou jazendo no chão da sala. Saiu deixando a porta aberta, pois nada do que havia lá dentro tinha sido seu.

E muitos foram se aproximando, curiosos. E quem olhava não enxergava tudo. Os que enxergavam não acreditavam. Os que acreditavam não entendiam.

Foi assim que seguiram à sua procura, pelos lugares onde ela nunca estivera. Por cada cômodo da casa, onde ela não fazia falta. No pátio cercado de grades e flores que só ela via. Em seu trabalho, moroso e sempre igual, lamentaram seus silêncios demorados. Nas ruas da cidade, sapatos andavam no mesmo ritmo da a água da chuva caindo das calhas. Nas salas das bibliotecas, os livros mais amarelados se acomodaram para sempre nas estantes.

E a vida voltou às intermináveis segundas e quintas-feiras. Não se sabia das estações.

De uma distância segura, ela os observava, do outro lado do bosque, no alto. Anestesiados, automáticos e tranquilos, transitavam de lá para cá. Ora com guarda-chuvas, ora com óculos escuros e chapéus, o céu nunca os tocava.

Enquanto isso, sua carne se recobria de uma pele rosada e fina. Feria-se fácil agora, e olhava as cicatrizes com longo espanto. Caminhava por entre as árvores, com galhos secos cortando-lhe as pernas e barro gelado recobrindo seus pés. 

Sentia o sol arder no rosto e nos ombros, as frutas ácidas ferirem a boca e o amassar das folhas secas fazer cócegas nos ouvidos. O cheiro do mato molhado não era menos doce que seus antigos e invisíveis jasmins. 

Acordava com o nascente e repousava com o poente. E se houvesse chuva, ela sorria ou chorava. Mas olhava sempre para o outro lado do bosque, os olhos brilhando ao imaginar tudo que poderia não ter sentido se ainda estivesse ali, a centenas de metros apenas, um cadáver de si mesma. E só então ela ria.

E foi assim, do outro lado do bosque, que ela respirou pela primeira vez. E seguiu respirando, transpirando, inspirando. Por muitos outonos ainda, que seguiram quentes verões. 

Por primaveras amarelas que seguiram as fogueiras dos invernos frios, até o exalar do último ar morno dos pulmões.

A terra úmida agora lhe cobre. Raízes de plantas verdes se esticam para alcançá-la. As folhas secas e flores de árvores próximas fazem uma macia cama sobre sua cama.

Mas ela não está mais lá, no barro escuro de onde veio. 

E dessa vida, além do bosque, não se arrepende. Da pele cinzenta, jogada no chão da casa, nem mais se recorda.

Só se recorda do que viveu.

Bem, é apenas o que ouço falar. Mas quem sou eu, afinal, se os sonhos me confundem?

 
Da fabulosa jovem fotógrafa Gina Vasquez, para ilustrar meus devaneios oníricos.





quarta-feira, 1 de abril de 2015

Para cada criança do meu dia



Nove da noite. Quase tudo pronto para amanhã. 

Arrumando a bolsa, retiro a trufa que um aluninho me deu de Páscoa hoje. Não teve “oi”, só aquele bombom enorme e delicioso estendido na minha direção, com orgulho, antes de entrar na sala para a aula da tarde. O abracei com minha cara pintada de coelhinho e lhe disse o quanto amo chocolate. 

Resolvo comê-la agora enquanto espero as roupas para estendê-las. O ruído da máquina de lavar com meus uniformes é necessário. Sento na área de serviço, apoiada na enorme janela de onde vejo a cidade vizinha e mais outra. Na avenida com suas luzes enfileiradas os poucos carros transitam devagar.  

Desejo silêncio, mas agora não o tenho.

Olho para o céu estrelado e acho que é Vênus aquele ponto mais brilhante que foi subindo no globo de vidro do céu, respingado de luzes. Sempre serão as estrelas e os planetas que se mexem, mesmo que aquele seja Mercúrio e que eu saiba que estou errada. 

Abro a trufa e sinto seu cheiro delicioso. Olho para um pontinho piscando e desejo que fosse uma estrela cadente para fazer um pedido de mãe para mãe. Mas é só um satélite que se move lento e intermitente, observando talvez o que cada um está fazendo agora. Penso se sabe que nem todas as palavras que saem de nossa boca são doces como o que sinto em minha boca. Meu coração aperta.

Tenho um jeito especial de lidar com crianças. Geralmente consigo entender o que estão sentindo ou deixá-las à vontade para me contarem o que as aflige. 

Mas hoje não foi assim com todos. Tentei tanto e não consegui decifrar um menino, o que me presenteou. Só no final da aula me confidencia que chamei o colega de The Flash e não a ele. E que se enganou ao pintar o egg que era brown de yellow, o que consertamos juntos, mas que o deixou triste. E que seu presente, que eu amei, não é tão grande quanto os outros. 

Tento novamente convencê-lo do quanto é especial, e há tanto tempo, para mim. Lhe pergunto se quer que pinte seu rosto de coelhinho também. Ele ainda chora e não se decide. Só quando acaba a aula e os maiores entram na sala é que diz que sim, mas que agora não dá mais tempo.

“Dá tempo sim! Vem aqui.” 

Pego o lápis aquarelável e desenho um nariz vermelho naquele rostinho pequeno e triste. Seco as lágrimas, e com o lápis preto, faço os bigodes com capricho, ele meio que reclamando de quantos são em meio aos soluços. Acabo, e antes de ir ele me abraça, inesperadamente. Meu coelhinho volta para junto dos colegas com os olhos vermelhos e vai brincar no pátio.

O resto da tarde passa, chega a noite. E só agora, que o satélite que não é estrela cadente me questiona, é que admito minha culpa. Não tive as palavras certas na hora exata ou a percepção necessária para uma criança hoje. Penso no que ele sente e nos seus porquês, pois até aos sete anos temos nossos motivos.

Desejo, olhando o céu infinito, ter o poder de parar o tempo para cada criança que chegasse a mim ao longo do dia. 

Nenhuma delas deveria ter um olhar apressado quando mostra que o dente está frouxo, quando diz que ralou o joelho e o pai fez curativo, quando conta que o maninho vai fazer um ano, ou que vai viajar com a família no final de semana. 

Cada criança devia ter a mesma calma com que contemplo agora o Cinturão de Órion, que para sempre vou chamar de Três Marias. Cada criança deveria ter da gente, o tempo todo, a doçura que merece, mesmo quando chegasse a nós um pouco mais amarga.

Cada criança merecia ter o nosso agora, independente do que nos rodeia no momento ou dali a pouco, nem que para isso precisássemos desligar os relógios que giram as estrelas no céu de noite.

Quem sabe conversando com calma, algum deles me ensina como fazer isso.

O satélite se foi, a roupa está pronta.

Um dois, três...

...o silêncio de fez. 

Hora de sonhar com os anjinhos.

Amanhã tento de novo. 

Pare o relógio que gira as estrelas do céu. Quero crianças sempre por perto.