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domingo, 19 de novembro de 2017

Os flamingos do México

O seguinte post provavelmente não contém absolutamente nada para acrescentar à sua vida, mas me senti compelida a escrevê-lo.

A não ser que você não saiba o que é “compelida” que é tipo “obrigada”. Nesse caso, “de nada!”

Então, vou relatar uns diálogos que andam acontecendo na nossa casa. Pelo número de visualizações, pretendo confirmar minha hipótese de que realmente são incomuns nas casas das outras pessoas (adultas).

TEM BIAATCH NOVA NO OVERWATCH:

Fazendo massagem nas costas do marido, e pensando num filme, sushi, Just Dance, ou terminar Life is Strange, pergunto:

- Vamos fazer alguma coisa diferente hoje?
- Tem personagem novo no Overwatch!
- Xiii...deixa pra lá.

Não adianta, sexta é noite de games cos boy. E não dá pra competir com uma personagem que tem poder de ataque E de cura. Versátil essa Moira...eu, hein? Fui ver Netflix com o gato filho. 

Se tivesse carvão, eu tinha feito um churrasco.

Não de gato.

Acho que ficou confuso.

Deixa assim.

 PÁSSAROS DANÇANTES:

- Olha que eu me superei hoje com esse penteado que eu acordei, né? O coque tá caído e tem esses negócios levantados.
- Nossa, tu tá que nem um rouxinol!
- Quem me dera! Rouxinol canta, e eu não sei cantar.
- Então tu tem que ser um pássaro que dança.
- Que pássaro que dança?
- Um flamingo!
- Tá, pode ser.

Eu satisfeita, porque dançar também não sei. Mas faço umas evoluções na pista de dança que as pessoas contemplam com espanto e não tô nem aí. Aliás, nunca tô nem aí.

E assim o flamingo continuou o café da manhã, sem pentear o cabelo. 

WATSON DESTEMIDO:

Sempre perco meus óculos e meu celular. Dentro do apartamento. Várias vezes por dia.

Aí, só pergunto onde tá um ou outro e o Janio dá as coordenadas sem nem precisar se levantar!

Ontem que quis ser mais adulta e independente, aí me escapou, “Cadê meus óculos?” E fui toda cegueta procurando. Ele só esperando eu perguntar onde tavam os malditos.

- Acho que tão no banheiro, lembro de ter deixado na segunda prateleira quando fui buscar o pente.

Fui lá e não tavam. Ele quase rindo de mim.

- Ah, acho que deixei na sala quando fui pegar o colírio da Zoey.

Não tavam.

- Mas tu tá te achando o Sherlock Holmes hoje, hein?...hahaha...

Que desaforo! Aí mesmo que não perguntei. Porque é lógico que achei os óculos num lugar bem plausível: área de serviço, atrás do sabão em pó.  Por algum motivo, me lembrei que tinha colocado lá.

Não tenho poderes paranormais pra me lembrar porque.

FRICÇÃO CIENTÍFICA:

Ouvimos num podcast, dia desses, a tosca expressão “friccionar os corpos”.

Aí eu tava alcançando chocolate pro bofe, que tava dobrando a roupa que tinha recolhido. Eu tinha terminado minhas mil tarefas, aí fiquei deitada, de boas, só dando palpite. Fiz aquela pose séquici que tá na foto do post e mandei:

- E aê? Vamos friccionar os corpos?
- Eu sei que tu tá blefando!

Inteligente esse homem. Por isso casei com ele.
Agora, por que ele casou comigo (depois de ler esse blog), nem me arrisco a perguntar.

REGIME SEMI-ABERTO:

Domingo de noite me dou conta de que estou há dias sem sequer colocar o pé na rua.

- Sabe há quanto tempo eu tô sem sair de casa?
- Quanto?
- Desde sexta de manhã, quando saí pro trabalho!
- Tu tá em cativeiro?
- Sim. E por vontade própria, ainda! Nem fui passear com a cachorra... Acho que é síndrome de Estocolmo. 

Aí sim, dei uma piscadinha bem legal.
Mas ele não tava olhando. Pena, eu nem tava blefando.
Acho que vou dar um rolé, pra chamar a atenção.
Colocar aquela echarpe, saída triunfal.

- ¡Me voy a Mexico!
Aí bato a porta.

Será que no México tem flamingos?
E como vou ver os flamingos sem óculos??
E minha bolsa, cadê?

Ah, melhor eu piscar de novo pro meu sequestrador. 
Tô sem autonomia pra sair sozinha mesmo.

Imitando a cara de zoeira da minha irmã enquanto abro um espumante, que tinham pedido para um HOMEM abrir. Ah, mas que nojo!...hahaha





sábado, 4 de novembro de 2017

Instruções pro pós-vida

Há uns dias, eu estava lendo no site Bored Panda um post sobre lápides bem-humoradas. 

Eu sei que para muitos a morte é um assunto triste ou um tabu. A estes, peço que me desculpem a naturalidade com que trato desse futuro acontecimento da nossa existência. Porque é só uma questão de tempo para todo mundo, e eu não poupo umas piadas e conjecturas, que é basicamente como eu vejo e vivo a vida.

No site, em inglês, tinha coisas como “Um veterano gay. Recebeu uma medalha por matar dois homens e uma dispensa por amar um”. 

Tinha também, em letras miúdas em uma lápide, “Se você consegue ler isso, está pisando nos meus peitos”. 

E uma com foto de uma senhorinha atendendo ao telefone, dizia “Jesus ligou (chamou, é o mesmo verbo em inglês) e a fulana atendeu”. 

Ri de todas, então acho que cumpriram a função pretendida.

Eu sempre dizia que queria que escrevessem “Eu disse que não estava me sentindo bem”. Mas passei a uma certeza absoluta de que vou partir dessa pra algum lugar (ou pro nada) de câncer (tem câncer de mama na família e desde os 20 anos eu tenho uns nódulos suspeitos, já retirei um) ou em acidente de carro (sempre na estrada com uns caminhões malucos colados na traseira). Mas enfim, são meus palpites, por favor não me julgue.

Digo pra todo mundo que, depois de doarem meus órgãos (até o cabelo pra fazer pincel), eu gostaria de ser cremada e minhas cinzas espalhadas em algum matinho aleatório. 

Não suporto aquele peso que as pessoas têm de visitar túmulo, capinar, lavar, limpar e tal. Mas minha sobrinha, que tem o mesmo humor ácido do meu, é da opinião de que dá pra fazer uma placa simbólica, com o nome e uns dizeres.

Aí tô entre duas possibilidades. Ficam mais legais em inglês, então se for pelas causas que eu acho que serão, fica:

“I told you so!” (Eu avisei).

Se for de um outro motivo, pode ser “I didn’t see this one coming!” (Por essa eu não esperava!).

Claro, fiquei na dúvida de onde seria a placa e tal. Podia ser virtual, que não enferruja e é grátis, acho que seria prático.

Mas enfim, por enquanto ainda tô aqui, escrevendo besteiras nas interuébi sem ser contida e correndo o risco de ser mal interpretada. Depois disso, tanto faz. Só queria que aproveitassem se sobrar algo da carcaça.


Não queria era dar trabalho de visitação. Porque seria tipo tocar a campainha, eu não estar em casa e a pessoa ainda lavar meu tapete e tirar o inço da minha grama. 

Estranho, né?

Eu acho.

"I'm so surprised!" Tô com uma cara felizinha de quem ganhou algum prêmio, parece. 


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

QUANDO NÃO HAVIA MAIS SETEMBROS

Neste setembro amarelo, de conscientização sobre o suicídio, decidi falar sobre as oportunidade que tenho de reconhecer e conversar com pessoas que estão passando por momentos críticos e com a vida das quais me preocupo muitíssimo.

Depois de ouvir o que têm para contar - alguas até não reveladas a outras pessoas, às vezes faço meu relato, de sobrevivente de depressão gravíssima.

As pessoas se surpreendem, dada a maneira feliz e otimista com que vivo. E aí lhes digo claramente, "Me preocupo muito que você possa cometer um ato contra sua vida".

Já me procuraram agradecendo e dizendo que conseguiam buscar ajuda.

Houve casos em que os adolescentes foram melhorando até voltar a sorrir, mesmo que com dificuldade.

Houve pessoas que superaram essa fase "impossível" e entenderam o que sempre digo, "Depressão tem tratamento e isso vai passar. Olha pra mim! Já fui desenganada por médicos e aqui estou, na melhor fase da minha vida. Depressão só não tem jeito se a gente comete suicídio".

A palavra suicídio não deveria ser um tabu. E justamente por eu não fazer dela um tabu, discutindo o assunto através de textos, debates sobre seriados e filmes e falar abertamente com meus alunos, tantos me procuram com confissões inesperadas e pedidos de ajuda.

Sei que não sou profissional da saúde, mesmo lendo tanto sobre saúde mental e tendo sido tratada por psiquiatras e psicológos. Mas acho que um relato de quem já esteve naquele fundo de poço cheio de excrementos e consegue, já em terra firme dar as coordenadas do terreno, sempre ajuda. Dá indícios de que o abismo é transponível.

E aí entra outra questão: os abismos e "apocalipses" de ser adolescente.

Há que nos lembrarmos, adultos, dos dramas que impregnam a mente cheia de hormônios desses seres humanos em formação.

Me lembro do fim de mundo que era ficar AQUELE sábado em casa. E se justo no local tal encontraríamos o amor da nossa vida, naquele dia?

E um rompimento amoroso? Não havia quem me convencesse que eu ia sobreviver àquilo.

Ou o divórcio dos pais, depois de anos de brigas, a depressão da mãe, reprovar na escola...me custou "quase morrer" tantas vezes até compreender que a gente sobrevive.

Agora some essa intensidade emocional a casos complicados de família.

A descobrir-se homossexual e achar que não será aceito pelos próprios PAIS!

A uma depressão ou transtorno bipolar.

A dificuldades de relacionamento.

A cyberbullying.

A baixa autoestima.

Dá para entender o quanto isso é complicado para os adolescentes, se para nós, adultos já é difícil?

Então, algumas sugestões para quem quer ajudar e para quem precisa de ajuda para superar essas dificuldades:

1) Tem sempre alguém que pode ajudar. Se você não se sente confortável de falar com os pais, peça conselhos para alguém que lhe auxilie a fazer isso.

2) Troque de psiquiatra ou psicólogo se tentou e não há empatia ou confiança. Assim como professor não é perfeito para todos, o profissional da saúde também não.

3) Ir ao psiquiatra ou psicólogo não é negociável! Não é seu filho escolher se quer tomar banho antes ou depois da janta, entendem?

4) Tome o bendito remédio! Você não está em condições de fazer o trabalho supermegaextra que seu cérebro debilitado necessita no momento. E não, isso não significa precisar de remédio a vida toda, vai por mim (em casos de necessidade de medicação permanente, agradeça por viver num tempo em que não se morre mais por pneumonia e aceite a ajuda).

5) Quem está deprimido nível hardcore não quer morrer. Suicidas não querem morrer. E não são, na maioria das vezes, pessoas egoístas, que não se preocupam com a dor que vão causar. Estão em tal DESESPERO e falta de clareza que não suportam mais o sofrimento. Se lhes oferecessem cinco meses de coma induzido e a promessa de que os problemas estariam resolvidos ao acordar, pode ter certeza de que aceitariam.

6) Pessoas deprimidas querem ajuda. Elas só não conseguem se ajudar, e se acham um peso tão grande que nem conseguem, às vezes, aceitar ajuda. Sabe quando a pessoa está INCAPAZ de levantar da cama para tomar um banho por uns três dias? Não espere que ela vá buscar amigos ou tirar boas notas. Entende a prioridade aqui?

Bem, o que pretendo com esse texto, talvez você, se teve paciência de ler até aqui, esteja se perguntando.

Pretendo que a gente fique vigilante aos pedidos mudos de ajuda.

Pretendo que as pessoas tenham um pinguinho de esperança, que seja, para permanecerem vivas até passar a "tempestade".

Pretendo que pais leiam isso, olhem BEM para os filhos e lhes demonstrem que estão abertos a ouvir e apoiar qualquer coisa.

Pretendo que uma pessoa sequer pense um pouco diferente sobre o suicídio.

Pretendo que haja mais setembros amarelos.

Pretendo que haja mais meses, mais anos, da cor que forem, para aqueles que sobreviverem quando parece que não há mais setembros.

Falo isso com muitos aniversários de vantagem do que eu achava que iria viver.

Falo isso com empatia e amor.

Falo isso porque SEI que tem jeito. E porque estou aqui, caso você precise de ajuda.


Mal consigo acreditar no que a vida me reservou nesta "prorrogação". Só digo que vale a pena!


sexta-feira, 28 de julho de 2017

HABILIDADES CIRCENSES-FLORAIS-ADESTRATIVAS

Dentre os meus 5 favoritos do canal Jout Jout (clica ali!), que acompanho desde o começo, há mais de três anos. Saindo da "linha de produção" escola-universidade-colapso-desculpa para fazer o que realmente se desejava desde o começo.
Assisti e já propus aqui em casa de fugir com o circo.
"E nós?", meu marido perguntou, referindo-se a ele, à cachorra e ao gato (já que o filho "hominal" tem vida própria e mora longe).
Respondi que eles podem me acompanhar em uma plug-in house, de cidade em cidade, ele trabalhando remotamente em locais com boa internet. Logo foi proposto um trailer para acompanhar o circo e a ideia de virarmos nômades digitais, olha que prático!
Só depois me dei conta - como era quando eu arrumava a trouxa para fugir de casa aos 5 anos e no portão me dava conta de que não tinha para onde ir - de que não tenho habilidades circenses.
No máximo, faço as pessoas muito próximas rirem com umas coreografiazinhas bem animadas e rebolativas preparando o café da manhã, mas creio que seria o caso de pagarem pra NÃO me verem dançando. Nem cantando.
Não tenho habilidades especiais. Aliás, até tenho várias, mas não do tipo que entretém as pessoas em um picadeiro, entende? Minhas habilidades não se coloca em currículo.
Só que isso foi secundário na nossa conversa boba.
A ideia central foi: EM UM MUNDO DE POSSIBILIDADES, IREMOS JUNTOS AONDE FOR EM BUSCA DE PLENITUDE, olha que fofo!
E só aí me dei conta de que, de certa forma, já "fugi com o circo" quando larguei o tormento da faculdade de arquitetura (e tantos anos investidos nela) lá na metade, sem saber o que queria da vida, com uns 30 anos.
Fiz fotografia por um tempo, até ter a ideia de que poderia ser professora de algo que tinha aprendido sozinha, o inglês. E até encontrar alguém que acreditasse em mim e me auxiliasse em minha formação pedagógica.
Fugi com o circo quando divergi daquilo que esperavam de mim.
Abri uma floricultura quando plantei sementes que não tinha a menor garantia de que germinariam.
E ainda sou adestradora das minhas próprias emoções, que são as únicas que posso controlar, na tentativa de ajudar os outros a encontrarem seu caminho.
Enfim, sou eu mesma com amor e orgulho. E também sou mãe, esposa, professora, cozinheira, churrasqueira, barbeira, manicure, cuidadora de enfermos, aquarelista amadora, consertadora de instalações elétricas, mediadora de conflitos, aconselhadora e aprendiz por natureza.
Mas se tem uma habilidade que desempenho com maestria, é olhar para o futuro sem o mínimo temor e de peito aberto para experimentar.
Se for como professora até o fim dos meus dias, estarei preparada e serei grata além do que posso expressar.
A única certeza absoluta que tenho além da minha finitude é de que estarei onde for necessário para o meu crescimento e evolução espiritual e para ajudar aos que me cercam.
Essa certeza, além dos divertidos rebolamentos matinais, me basta <3






domingo, 18 de junho de 2017

OS 20 ANOS DO FILHO, PARTE I: A OBSOLESCÊNCIA MATERNA

Ofereço carona pra levar na rodoviária, às 5h40. Não precisa, o pai da Betina leva...de novo! 


Tá certo, estou com um negócio que não sei se é ou não é pneumonia e tá úmido de monte, mas eu poderia. 

E eles fizeram comidinhas tão nutritivas e lindas pra semana, embaladas e etiquetadas. Enquanto mãe, só colaborei com os pães de alho pro churras dos boys no sábado. E foram só 6 pães!

Comento com a norinha, que é a filha que sempre atende ao telefone, que estou mais obsoleta que um apêndice. Que umas amídalas. 

Penso na minha finada vesícula. E nos sisos, que nunca nasceram e não existem na minha boca. 

Sou prescindível, obsoleta, desnecessária. 

Diz meu marido que é legal que eu tenho um filho tão independente. E eu sei disso.
Mas até as verdades boas são meio inconvenientes quando respingam no nosso olho, será que todo mundo não sabe disso?

Concluo, pensando um pouco mais, que sou um aparelho de videocassete. 

Ridículo? Aposentado?

Desnecessário, mas que já teve sua utilidade. E sabe, vão precisar de mim pra assistir àquelas fitas dos 3 anos de idade. Vão precisar de mim pra dar uma espiadinha na infância. 

E aí me lembro do hoje. E de que também tricoto toucas, para repor aquelas perdidas nas universidades da vida. 

E isso me agrada - que as toucas, assim como os filhos, não sejam de um apego que incomoda.

Assim, sorrio escrevendo isso. 

Sorrio com um orgulho secreto, de máquina de escrever ultrapassada, que ajudou a compor as páginas do livro do que é o hoje.

Sei que amanhã acordarei antes das 6. E pedirei notícias, antes de sair pro trabalho, dos dois adultos que moram tão juntinhos de mim.
E que crescem tão rápido que sempre me ultrapassam. 

Antes de dormir, aceno contente.

Sou uma mãe no retrovisor.

Sou uma mãe de um cara de quase 20 anos!

Uma mãe que acena feliz.


 
Lembro da hora em que tirei essa foto, com a Nikon analógica. Bons tempos!...mas não melhores do que agora.

sábado, 1 de abril de 2017

Querido diário..."Oi vóóóó!"

Querido diário,

Estou com um pequeno problema de ordem cronológico-anatômica, digamos. Resumo assim: como reencontrar a vó do marido, dez anos mais novo, que agora tá enxergando bem depois da cirurgia da catarata?

Faz mais de um ano e meio que começamos a namorar e estamos há quase um ano casados. Desde o primeiro encontro com os sogros e a vó dele, o pessoal simpatizou comigo, até porque é evidente pra eles o quanto o Mozudo tá mais feliz desde que a gente se conheceu. 

Na primeira ida à casa da vó, ela (que estava em um estágio superavançado de catarata) me abraçou e disse que estava muito feliz que o neto tinha encontrado a "tampinha da panela dele". Já gostei da metáfora culinária e reconheço que sou mesmo uma pessoa agradável quando me esforço. E evito visitar as pessoas naqueles dias em que nem eu me aguento.

O negócio é que além de uns quilinhos a mais (se bem que agora tem mais de mim para gostar), minha cara tá cansada pra caramba. Acabada. Diário, a vó será definitivamente surpreendida!

Tá certo que sempre faço umas piadas com a minha idade porque adoro meus 45. Tipo ser convidada pra jogar alguma coisa e dar as opções jogo da velha, cara ou coroa. Também me refiro às minhas quinquilharias como "as joias da coroa" e largo uns "tu ainda não era nascido" de vez em quando.

E aí, esses dias, no meio dessas besteiras, me lembrei de que a vó agora enxerga! E me ocorreu que ela pode ficar meio chocada assim, logo de cara, literalmente.

Treinei no café da manhã apoiar os cotovelos na mesa e dar uma puxada na face assim, ó. E dizer, com a cara esticada, "Oi, vóóó!!". O problema seria, numa visita, eu ficar numa mesa todo o tempo, segurando minha cabeça, sempre no melhor ângulo. Aí meio que abandonei a ideia e estou em busca de algo melhor.

Estou considerando uns quilos de base, roupa infanto-juvenil (tenho!), arrancar os 5 fios brancos que ainda não consegui isolar. Talvez usar uns brincos chamativos, um penteado "Padmérico Starwarsístico", muita informação ao redor da face. 

E ir me aproximando, de frente, lentamente. Não aquele negócio de encarar de repente, sabe? Talvez levar nosso novo filho felino e já ir soltando no apê e levar algum presentinho vistoso, pra distrair o olhar. 

Ah, e barba. Não em mim, mas no marido. Tem uns adoráveis fios brancos que dão uma equilibrada no look do casal.

Enfim, diário, era isso que eu tinha pra compartilhar nesse sábado, primeiro dia depois de um mês de cinquenta e nove dias de mais saúde do que reais.

E que tô bem feliz também, com a cara cansada e tudo. 

E quer saber? Acho que a vó até há de se conformar com isso e com aquelas minhas risadas que ela bem conhece, né? 

E se ela focar no sorriso do neto, nunca vou ter com o que me preocupar.
O esticamento facial teria que ser num dia de mais horas de sono do que nessa foto. 



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Disfunções cronológicas e a lista de Murtaugh

A quem interessar possa, este ano completarei, se viva estiver no Dia da Criança, a quantia de quarenta e seis anos, muitíssimo bem vividos. 

Já inicio o texto com essa dica, de que faço aniversário na adorável data de 12 de outubro.

Coincidência?

Não posso afirmar, mas vou jogar os fatos e você tira suas próprias conclusões.

Então, com a barrinha de tempo do meu vídeo game na metade do que é possível sobreviver (estou sendo otimista para uma pessoa sedentária) e inspirada por um episódio de How I Met Your Mother, me dispus a fazer a “lista de Murtaugh”, das coisas para as quais estou muito velha.

No entanto, já constatei alguns problemas, já que até o momento apenas escrevi o total de dois (02) itens:

- Usar franja (usei até 14 meses atrás)

- Fazer duas trancinhas ou sardas para a festa de São João.

Só isso.

Sinto que deveria ter algo relacionado a gírias. Com certeza meus alunos seriam ótimos colaboradores nesse quesito.

E tenho quase certeza de que eu deveria incluir camisetas de bandas, seriados, Star Wars ou qualquer coisa da Nerd Store.

Tenho a impressão de que a sociedade espera que eu evite leggings e tênis no trabalho. Ou tranças. Ou que eu pare de virar estrelinha, especialmente com um braço só. E pare de assoviar mais alto do que os meninos.

Sinto um eco social, um sussurro nos meus ouvidos, um lembrete do Código De Conduta Para Adultos Acima De Quarenta Anos, me dizendo como eu deveria me portar. Tenho me feito de surda até o momento. Mas observando ex-colegas da minha idade, senhoras como eu, noto uma certa discrepância.

E me lembro do que minha mãe usava quando tinha a minha idade e de como eu achava ela uma senhora – se bem que ela já era avó com a minha idade, não por minha culpa ou que o fato de ser avó impeça alguma coisa, mas acho que você entendeu.

Pois como eu ia dizendo, o tal sussurro me diz que quando a pessoa atinge essa idade ela deve usar roupas de senhora. E cada vez que eu vou a uma loja (odeio comprar roupas com todos os poderes de Greyskull), vejo a arara de como eu deveria me vestir e a arara de como eu gostaria de me vestir. E acabo optando, conforme o estado de espírito, por algo “de velha”, que vai ficar estacionado no quarda-roupas, ou por algo que só visto quando estou cheia da coragem.

As calças de suplex e camisetas habitam o limbo do conforto-para-o-trabalho, o que me deixa desconfortável, já que não tenho roupa adequada para sair. E o fato de ser casada com um homem dez anos mais jovem não ajuda muito no quesito fashion, tenho que admitir. Até porque ele usa sempre jeans, tênis e camiseta, o que eu adoro, mas não quero ser a mãe-do-meu-marido, deuzolivre, help me, Freud!

Quanto aos requisitos de reboco facial, sinto que deveria usar pelo menos um pó na cara, um rimelzinho, um lápis de sobrancelha, um gloss. Inclusive porque, quando apareço assim no trabalho, as pessoas se espantam com a diferença, o que me deixa espantada.

O mesmo ocorre quando tiro o tempo de secar a juba e deixá-la solta, o que é raro. Esmalte, aquele amiguinho que já foi bff, anda meio escasso. Gosto de mexer na terra sem preocupações nem luvas.

Mas retomado a lista de Murtaugh, decidi que vou deixar ela assim, inacabada e só com esses dois itens. Vou escrevendo conforme a vida for acontecendo, né?

Vamos vendo, neste percurso morro abaixo da curva da vida, as coisas para as quais estou muito velha no melhor estilo, “Vida, surpreenda-me!”

Pode ser que em breve eu sofra (verbo escolhido de propósito) uma ascensão nas condições físicas e coloque “correr apenas 6 dias por semana” ou “usar biquíni só na praia”. Pode ser que eu recorra a um discreto lifting facial e liste “levar sempre a identidade para ingressar em casas noturnas”.

Pode ser que a moda favoreça as pessoas que gostam de conforto, com modelos tipo macacão de astronauta ou traje (masculino) da Enterprise, ocasião na qual listarei “usar jeans ou salto alto” na lista do que não fazer – o que seria um sonho comparável a comer sem engordar.

Pode ser que a medicina avance a ponto de disponibilizar transplantes de coluna, daí eu escrevo que estou muito velha para algumas atividades da ginástica artística e retomo as outras.

Pode ser que, num futuro próximo, se transplantem também cérebros. E que meu plano de saúde cubra a cirurgia. E que haja um corpo que suporte esse entusiasmo meio patético para a minha idade. Fico só imaginando essa maravilha!

E tá certo, pode até ser, na pior das hipóteses, que realmente exista o tal Código De Conduta Para Adultos Acima De Quarenta Anos.

Mas EU é que não vou assinar!

Nem.

Se pá eu faço até greve de fome. 

Ou prendo a respiração até ficar roxinha. Assim, ó.

Duvida?


Ah, mas então você não me conhece mesmo!

Quando se trata da Baddie Winkle, é difícil escolher a melhor foto <3 

PS: ilustrando com uma foto da diva que acompanho há três anos, Baddie Winkle. Se um dia eu for uma velhinha assim é porque tudo deu certo.



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Um olhar sobre a mente inquieta

É um dia atarefado. Muitas coisas para fazer antes do almoço, para a tarde render.

A casa está bagunçada. Ela conseguiu esse estado de desarrumação em apenas duas horas no dia anterior. Brinca sempre, “Quer saber se eu usei uma coisa? É só ver se está sem tampa ou fora do lugar”. Mas fica com uma pontinha de frustração por esse seu comportamento. 

Não faz isso deliberadamente, é apenas distração. Distração ao extremo e uma agitação que confunde sua mente. Vontade de fazer tudo ao mesmo tempo e pouco foco no momento. E tem dias em que a vigilância constante sobre ela mesma a deixa exausta, desanimada.

As pessoas não entendem como é ser assim. É difícil imaginar, ela sabe, que uma pessoa não consiga escovar os dentes na frente da pia; apenas caminhando pela casa e fazendo alguma coisa junto. Ela sabe que seria mais produtivo fazer uma coisa de cada vez, mas simplesmente não consegue.

Hoje é um dia típico em casa, com tarefas variadas, e é mais ou menos assim que as coisas acontecem:

Acorda, vai até o banheiro. Enquanto escova os dentes, vai até a cozinha fazer um café. Coloca uma xícara de água com café solúvel no micro-ondas e pega o pote de frios. Volta ao banheiro para terminar de escovar os dentes. Volta pra cozinha para fazer um sanduíche. Lembra de antes colocar uma toalha e um prato na mesa da sala. Volta para a cozinha. Pega o pão e a faca para fazer o sanduíche. Lembra de colocar talheres na mesa, vai para a sala. Volta para cozinha e lembra da margarina para o sanduíche. Olha na geladeira, pega a margarina e vê o mamão. Coloca a margarina em cima do forno elétrico, descasca o mamão e o corta em cubinhos. O micro-ondas dá sinal. Abre e pega o café. Procura a margarina para fazer o sanduíche e não acha. Olha o mamão no prato grande e pega um potinho para ele. Pegando o pote, olha em volta e acha a margarina. Faz o sanduíche. Vai para a sala com o mamão. Busca o café e o sanduíche. Senta para comer. Esqueceu o adoçante e o guardanapo. Busca essas coisas. Senta novamente para comer. Se sente inquieta e busca o celular para ir olhando alguma paisagem bonita e comendo mais devagar. Tudo pronto, enfim toma seu café, com calma.

Se passaram oito minutos desde ela que levantou até sentar para o café. E lendo as coisas assim, escritas como acontecem, parecem cansativas até para ela. E se parecem cansativas de fora, viver dentro de uma mente assim, tão ativa, não é diferente. 

Tudo poderia ter sido feito numa sequência de “começa isso, termina e só depois começa aquilo”. Ela sabe que precisa viver cada “agora”. Mas é tão difícil viver o agora com a cabeça no “a seguir”.

E ela sabe disso, então se sente estranha, se repreende. Tem quase certeza do seu déficit de atenção. E estudou bastante sobre isso. Sabe que tem o componente da desatenção, o da hiperatividade e o da impulsividade, e que nem sempre alguém tem os três. Sabe como é o tratamento, à base de medicamentos aliados à terapia. Com receio de que digam que não é nada, acaba não buscando um diagnóstico.

Conhece muitas estratégias para lidar com sua desatenção. E as usa, caso contrário não seria uma adulta funcional.

Ela entra e chaveia o apartamento sempre, deixando as chaves (um molho com todas) sempre na porta. Isso é um ritual nunca quebrado, pois sabe que, em caso de emergência, jamais encontraria as chaves.

Anota as compras do supermercado sempre em um bloquinho e o coloca no bolso de fora da bolsa. As chaves, quando sai, também ficam sempre ali.

Quando está no trabalho, que absorve toda a sua concentração, ela sabe que precisa falar com essa ou aquela pessoa em momentos curtos do dia. Agenda não funciona para isso, então ela anota na mão. Não dentro da mão, pois pode não olhar. Anota na parte de cima, com caneta permanente, para não sair ao lavar, uma lista de coisas urgentes além daquelas da agenda.

Os óculos, em casa, são uma brincadeira de esconde-esconde. Os extravia o tempo todo e, míope, precisa encontrá-los.

O celular é outro problema, pois está sempre no silencioso. Quando o perde, já nem se dá mais ao trabalho de procurar. Deixa para depois - vai dar de cara com ele dentro do cesto de prendedores de roupa, por exemplo. Ou na mureta da sacada, onde estão as orquídeas e bromélias. E hoje à tarde vê que as bromélias estão se multiplicando demais, tão lindas.

Precisa comprar mais uns vasos e transplantar algumas. E precisa de mais terra, uns 20kg. Puxa, como é difícil carregar um saco desse peso até o segundo andar! Parece tão mais pesado do que os pesos que vão no leg press na academia.

E há quanto tempo não vai à academia? Precisa voltar a fazer exercício, ganhou peso. Mas a tireoide, que ela trata há tantos anos, está sem medicação agora, talvez precise voltar a tomar o remédio.
Resolve marcar a consulta com o endocrinologista. 

Vai até o quarto procurar o celular. Não está. Banheiro, escritório. Não. Cozinha. Não. Área de serviço. Não. Vê o regador. Resolve molhar as plantas. Vai até a sacada e molha cada vaso, com muito interesse nos brotos e flores. No meio das bromélias, acha o celular. Relembra de marcar a consulta. Vai pegar sua agenda no escritório. O regador fica na sacada, as plantas molhadas pela metade.

Olhando a agenda, vê que precisa elaborar um material para o dia seguinte. Senta ao computador, tem três horas para enviá-lo por e-mail. Foca ao máximo e faz isso em duas horas. Responde e-mails. Encontra textos interessantes para outra turma. Produz mais material. Já são 18h30, e ela se lembra de marcar a consulta. Mas o consultório já fechou. Anota na agenda para o dia seguinte.

Mas ela sabe que, no dia seguinte, vai precisar escrever na mão. E vai precisar olhar para a mão no horário do almoço. Melhor colocar um alarme no celular com nome “médico”. Talvez ela esteja por perto quando ele tocar. Terá que ligar de tarde.

De tarde, alguém lhe pedirá ajuda para arrumar o mural. E ela usará o intervalo para ir à padaria. Cada agora será engolido por outro, a seguir. E mais um dia passará tão rápido!

Os dias passam rápido o suficiente para a vida ir seguindo, com essa distração tão incômoda. Mas passam devagar para quem vive nessa inquietude, com o cérebro que resolve criar um monte de coisas na hora em que ela deita para dormir.

Os dias passam rápido demais para ela terminar os seis livros começados. E passam muito devagar quando ela se dá conta de que não tem concentração para terminar um, sequer.

Os dias passam devagar quando ela se lembra de que não tem como fugir de si e habitar outra mente. Os dias passam...ah, os dias...

...e já se distraiu de novo, completando esse texto, pensando em como o dia está bonito hoje. O olhar escapa para a janela, para o sol de agora.

O dia está lindo hoje. O texto está pronto. Faz sol agora.

Faz sol hoje.

Aqui, agora.


E dos dias de sol, ela tem consciência. 

Sempre.