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domingo, 18 de janeiro de 2015

A casa do filho: parte II – as chaves

É quinta de noite. Só penso no sábado. 

Sábado é dia de buscar as chaves da casa do filho.

Saímos cedo para Porto Alegre. Carregam a cama aqui em casa, cobertas e travesseiros. Ainda um sofá que estava com o pai. No carro, seus presentes de Natal: livro de receitas do Jamie Oliver, porta retrato, utensílios, louças, cafeteira, grill, liquidificador. Foi bom vê-lo ganhar coisas para seu apartamento. De certa forma, uma preparação para este dia.

O caminhão com as coisas nos segue até o apartamento. Chegando lá, vou de táxi na imobiliária pegar as chaves, para evitar minhas perdidas na capital e poupar tempo. Volto. Subimos. É lindo!
Demora para carregarem as coisas para cima, pois em minha demora na imobiliária, o caminhão aproveita para fazer umas entregas por lá. 

- Vão almoçar e eu espero a chegada dos móveis.
- Tem certeza?
- É para isso que vim, filho. Me tragam qualquer coisa depois.

Eles vão, enquanto aproveito umas almofadas para descansar, olhar em volta e me acostumar com o lugar. Pego no sono. Acordo com o celular avisando que o caminhão tinha chegado. Nisso chegam meu filho e a namorada com meu almoço, do McDonald’s, mais fácil de trazer do que comida. Trouxe Coca Cola normal, que eu nunca bebo. “Não precisa de refri, tenho água”, mas ele não viu o recado. 

Enquanto eu como, roxa de fome, aproveita para apertar meu braço gordinho dizendo “Larga a batatinhaaa!” 

Rio muito e digo que economizo na bebida para comer as batatas de que preciso. E que, pô, logo meus braços gordos, sacanagem!

Sobem com as coisas, colocam no lugar. Fechamos a porta...enfim sós? Bem, pelo menos hoje três não é demais, já que é muito para comprar no super e tanto para limpar. 

O Bourbon é pertinho. Uma televisão e uma geladeira, se tivermos fôlego para catar. Dezenas de produtos de limpeza, baldes, panos, esponjas, vassoura...nossa!

Em duas horas achamos a TV e enchemos o carrinho de material de limpeza, lanche da tarde e provisões para o final de semana, já que as “crianças” voltam no dia seguinte. A geladeira vai ficar para a próxima, estamos exaustos.

De volta à casa, comemos e é aquela função de mudança. Limpa, esfrega, arruma, organiza, lembra que faltou uma antena para a TV, sal e mais água.

- Volto no Bourbon.
- Tem certeza?
- Para isso insisti em vir em vez de deixar vocês virem de ônibus. Já volto.
- Obrigado, mãe!

Está difícil de caminhar. Quem se recupera muito rápido de tudo que é intervenção cirúrgica tem mania de fazer tudo que não devia. Mas hoje não pode ser diferente, amanhã descanso.

Volto com as coisas e os dois estão esfregando tudo de escova e desencardindo cada pedacinho. Não sei se querem que eu vá e lhes dê liberdade ou se mais ajuda é bem vinda. Aceitam ajuda e vamos lá.

São 22h e logo chegam as 23. Estou de banho recém tomado, fiz um lanche e tomei um café da cafeteira nova. Estou pronta para voltar para casa. Eles ainda não jantaram nem tomaram banho. Ficou tarde para delivery, mas tem tudo para cozinhar. 

Fico com peninha do trabalho que vão ter, mas, exaustos no sofá, preferem se virar sozinhos. Me despeço com o coração leve de ver a satisfação dos dois e me imagino naquela idade, já que com um ano a menos fui morar sozinha. Entendo como é bom e isso me deixa feliz.

Viajar de noite, sozinha, sempre foi uma paixão. O sentimento de independência e liberdade se mistura à atmosfera meio irreal da escuridão. No rádio, tocam músicas mais antigas. “Under pressure”, de David Bowie e Freddie Mercury, que adoro. “Up where we belong”, de Joe Cocker, que saudade. Algo do Rod Stewart, The Pretenders e outras tantas. 

Quase chegando em casa, The Cars. “Drive” pergunta “Quem vai te levar para casa esta noite?” Sorrio pensando que sempre sou eu quem me leva de volta para casa, para a minha casa. 

Subo as escadas e abro a porta. Minha cachorrinha, que tinha passado o dia sozinha, pede colo. Aperto a filha que não pode se mudar de casa por longos minutos. Nós duas suspiramos de satisfação.

Me ocorre por um segundo olhar no quarto ao lado o espaço vazio no lugar na cama. Esquece! Acabei de ver a cama em sua casa nova, e seu morador feliz me abraçou agradecendo a ajuda. De nada, meu filho. Vou para a cama e durmo logo. 

Hoje levanto tarde e não me lembro do que sonhei. Antes do café, vou olhar o quarto do meu filho. 

Surpreendentemente, o espaço me agrada e me pego sorrindo. As coisas estão onde deveriam estar, e minha alma se enche de um sentimento gostoso, de gratidão. 

Nem todo vazio é solidão, sabe? Alguns vazios são apenas espaços.

Espaços livres.  

(fim)


"Todo novo começo vem do final de outro começo."

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A casa do filho: parte I - a cama

Nunca me ocorreu não saber como começar um texto. Espero, espero, releio o que havia registrado em minha mente insone e inicio do princípio. 

Meu filho de 17 anos passou no vestibular e está indo morar em Porto Alegre, a 115km. Nenhuma novidade até aí - é apenas o que esperávamos que acontecesse - e que felicidade ver que essa nova etapa se inicia em breve.


Somos muito próximos, embora nada grudentos um com o outro. Nossas conversas, interesses, leituras, filmes e senso de humor comprovam nossa afinidade incomum, apesar de que entre idas e vindas da casa do pai e o apartamento da mãe ele tenha fixado residência com o pai e sua família há dois anos. 


Mas isso não mudou muita coisa, já que moramos no mesmo quarteirão.


Ontem fomos ao cartório assinar os papéis para que ele alugue o apartamento em seu nome. Escrevi com a caligrafia dos meus bilhetinhos de domingo, “assistido pelo pai, o fiador, e pela mãe,...” e assinei diversas vias, assim como o pai. Foi no cartório que me contaram dos planos de buscar as chaves neste sábado, limpar o apartamento e esperar que cheguem a geladeira e a cama. 


Pediram para que eu o levasse, com a companhia da namorada, para fazer esse primeiro “reconhecimento de terreno”, apesar de ele e o pai já terem ido ver o lugar e a vizinhança. A cama que ele vai levar é a daqui de casa, nova e superconfortável, como ele mesmo já tinha me dito. Confirmei com o pai dele se era mesmo essa a cama que seria levada.


“Mãe, por que tu perguntou pro meu pai da cama se já tínhamos combinado isso?”


Foi aí que caiu a ficha.


Enquanto a moça do cartório reconhecia as assinaturas, começou aquele “não precisa de ajuda, nos viramos bem sozinhos, mãe.” E eu não tenho dúvidas disso. Mas é aquela coisa de família, sabe? Daí a insistência do pai e da mãe para que deixasse a gente “entregar ele para o mundo”, que é seu lugar, como sempre soubemos.


Dali em diante, fiquei meio ranzinza. 


Não me dei conta na hora de que discuti amargamente por motivos bobos enquanto voltávamos para casa, onde eu iria cortar seu cabelo. Me deitei, lembrando da cirurgia de uma semana antes. 


Cansei. 


Continuamos a conversar até que consegui, finalmente, chorar.


“O que tu quer que eu faça, mãe?” 


“Nada, filho... só estou triste porque tu vai embora de casa.”


Entendemos nossas implicâncias e mau humor dos últimos dias. Me senti como a namorada boba (complexo de Édipo muito à parte), que inventa briga no domingo para ser mais fácil de dizer o adeus da semana. 


Porto Alegre é perto, minha vida não é vazia e sou uma pessoa alegre e feliz. Mas é a cama, sabe? O berço do ninho de mãe.


Posso comprar outra, e tem colchão sobrando para recebê-lo nos finais de semana, mas vai ficar aquele vazio lá. Talvez seja importante até que fique, como para me conformar de que agora tem a casa do pai e tem a casa da mãe. 


E agora essa é a casa da mãe, porque tem a casa do filho.


A casa do filho.


Estamos sentados no sofá da sala, eu olhando para a rua e tentando me animar para cortar seu cabelo. No meu celular, uma mensagem de outra mãe, minha amiga, a quem admiro demais:


Madelon fiquei sabendo que você cuidou do meu nenê esta noite e ainda por cima levou até sopa no trabalho. Muito obrigada, você é uma pessoa especial. Deus lhe dê tudo em dobro o que você faz pelos outros.


Li e me emocionei. Chorei o outro tanto que estava guardado, e um abraço apertado e diferente me consolou. Abraço de menino maior que a mãe, como que dizendo, “eu vou estar aqui quando precisar de mim.”


Na mensagem de minha amiga, cujo “nenê” agora adulto é como um filho para mim, a lembrança de ter sido útil da maneira mais maternal possível, cuidando quando ele estava doente e ela longe, viajando. 


Em algum cantinho do meu coração deve ter se aberto uma janela que iluminava o ninho vazio como um local de acolhida para os outros, vários filhos emprestados que tenho em volta, assim como os familiares e os amigos.


Respirei fundo, lavei o rosto e fomos cortar o cabelo, ele tomando um café e comendo meu chocolate.

Rimos dos cortes escolhidos na internet e fizemos um diferente dessa vez. Meu backseat driver deu palpite e ficou legal.


Olhei para ele hoje de manhã. Acho que meu guri ficou com uma carinha de mais velho.


Quem sabe em lugar de outra cama compro uma cadeira de barbeiro e mais uns apetrechos?

É de se pensar...


(continua)
Café da manhã temático, com pão de mel e as pimentas da sacada. Agora em que cama? :/