Somos um casal normal. Aparentemente. Porque se alguém
ouvisse as conversas que registrarei a seguir, tenho quase certeza de que
surgiriam dúvidas.
- Bom dia, amor. Dormiu bem?
- Sim, mas tive uns sonhos estranhos.
- Que sonhos?
- Sonhei que estava casando.
- Comigo, né?
- Eu achava. Mas quando estava quase casada, olhei pro lado,
e era com um bode.
- Um bode?
- Pois é.
- Será que era aquele bode que teu aluninho disse que foi no
banco pra pegar dinheiro pra adotar uma criança?
- Pode ser. Aquele bode era um bom partido.
- Aham.
- E também o bode viria logo morar no apê de Estrela sem se
preocupar com a velocidade na internet. O bode não tá nem aí pra internet.
- Verdade.
- E ele ia comer os inços das minhas plantas, mas não as
plantas. Eu treinaria ele pra ser um bode seletivo.
- Claro. Porque toda mulher sonha em mudar seu bode.
- Bah, amor, isso foi épico. E profundo. Mas não te
preocupa. Enquanto bode, digamos que não quero mudar nadinha em ti.
Essa foi nossa primeira conversa daquele domingo. E nos
domingos que se seguiram, teve conversa do tipo:
- Meu cabelo tá muito comprido pra secar com secador...que
trabalheira!
- É verdade.
- Tu começou a namorar a Branca de Neve e agora tá com uma
Rapunzel descabelada.
- Hehehe...
- E isso que eu detesto esse negócio de princesas da Disney.
- Olha, contanto que não seja a Ariel...
- Por quê?
- Ué, porque ela é sereia.
- E daí?
- Daí que ela é metade peixe.
- Humm...ah, sim. Tu tá pensando se ela tem...
- Pois é. Deve ter de peixe.
- Mas e peixe tem um orifício pra tudo, assim, que nem ave?
Peixe tem, tipo, uma cloaca?
Bom, quando chegamos na palavra “cloaca’ a gente nem
lembrava mais qual tinha sido o início do diálogo, apenas as ridículas
proporções tomadas. E rimos muito.
Essas conversas foram antes do casamento, que ocorreu, com
toda a pompa (luvas de borracha) e circunstância (caixas de papelão) que o
momento requeria, faz um mês.
Desde então, acho que amadurecemos apenas no quesito sabedoria
da anatomia princesal/animal, conforme segue:
- Olha aqui a marca da mordida que a Zoey (nossa cachorra) me
deu ontem! Tá roxo e com dois furinhos.
- Xi, Mozuda...será que ela te mordeu com os caninos?
- Mozudo, acho que todos os dentes dela são caninos!
E aí os dois quase rolam de rir, o que se repete quando a
gente lembra do ocorrido. E a esse, podemos acrescentar o extravio do referido
animal (canino, no caso), num domingo de tarde, quando meu filho e a namorada
nos visitaram:
- Amor, onde tá a Zoey?
E três pessoas me olharam espantadas, especialmente pra
debaixo do meu braço, onde estava a interrogativa cachorra que eu estava
procurando.
A vida por aqui tem dessas coisas, já previstas no acordo
pré-nupcial, que diz que vale rir um do outro e tem que levar de boa.
Como no dia em que eu acordei com aquele horrendo coque de
dormir e fui direto tomar café, com uma bolota de cabelo no meio da testa:
- Nossa, amor. Tu parece um Oompa Loompa gigante!
Quase me engasguei de rir. A retribuição, vários dias
depois, até que foi meiga, mas não agradou:
- Puxa vida, é engraçado saber que tu é livre, e mesmo assim
escolhe ficar comigo. Tu sempre volta. Assim...se tu fosse uma ave, tu seria,
tipo, como uma calopcita.
- Calopcita? Eu não quero ser uma calopcita!
- Tá. Um falcão?
Rimos de novo.
E se nossos sobrinhos nos vissem desse jeito, iam repetir
aquela pergunta:
- Do que vocês estão brincando?
Pois é.
Acho que a gente tá mesmo só brincando, de casinha. Porque
onde já se viu adulto ser assim, tão livre?
E se toda mulher sonha em mudar seu bode, e se os
homens preferem sereias a ajudantes da fábrica de chocolate, a gente escolhe ser
a Rapunzel descabelada e o falcão que sempre volta pra casa.
Coisa de criança.
Mas sabe, precisa crescer bastante pra não levar a vida tão a sério. E pra fazer essa viagem com malas invisíveis, leves, cheinhas de vento.
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| Do dia em que saí de uma das escolas para ficar mais tempo com a família. Maquiagem pra quê? |
