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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

QUANDO NÃO HAVIA MAIS SETEMBROS

Neste setembro amarelo, de conscientização sobre o suicídio, decidi falar sobre as oportunidade que tenho de reconhecer e conversar com pessoas que estão passando por momentos críticos e com a vida das quais me preocupo muitíssimo.

Depois de ouvir o que têm para contar - alguas até não reveladas a outras pessoas, às vezes faço meu relato, de sobrevivente de depressão gravíssima.

As pessoas se surpreendem, dada a maneira feliz e otimista com que vivo. E aí lhes digo claramente, "Me preocupo muito que você possa cometer um ato contra sua vida".

Já me procuraram agradecendo e dizendo que conseguiam buscar ajuda.

Houve casos em que os adolescentes foram melhorando até voltar a sorrir, mesmo que com dificuldade.

Houve pessoas que superaram essa fase "impossível" e entenderam o que sempre digo, "Depressão tem tratamento e isso vai passar. Olha pra mim! Já fui desenganada por médicos e aqui estou, na melhor fase da minha vida. Depressão só não tem jeito se a gente comete suicídio".

A palavra suicídio não deveria ser um tabu. E justamente por eu não fazer dela um tabu, discutindo o assunto através de textos, debates sobre seriados e filmes e falar abertamente com meus alunos, tantos me procuram com confissões inesperadas e pedidos de ajuda.

Sei que não sou profissional da saúde, mesmo lendo tanto sobre saúde mental e tendo sido tratada por psiquiatras e psicológos. Mas acho que um relato de quem já esteve naquele fundo de poço cheio de excrementos e consegue, já em terra firme dar as coordenadas do terreno, sempre ajuda. Dá indícios de que o abismo é transponível.

E aí entra outra questão: os abismos e "apocalipses" de ser adolescente.

Há que nos lembrarmos, adultos, dos dramas que impregnam a mente cheia de hormônios desses seres humanos em formação.

Me lembro do fim de mundo que era ficar AQUELE sábado em casa. E se justo no local tal encontraríamos o amor da nossa vida, naquele dia?

E um rompimento amoroso? Não havia quem me convencesse que eu ia sobreviver àquilo.

Ou o divórcio dos pais, depois de anos de brigas, a depressão da mãe, reprovar na escola...me custou "quase morrer" tantas vezes até compreender que a gente sobrevive.

Agora some essa intensidade emocional a casos complicados de família.

A descobrir-se homossexual e achar que não será aceito pelos próprios PAIS!

A uma depressão ou transtorno bipolar.

A dificuldades de relacionamento.

A cyberbullying.

A baixa autoestima.

Dá para entender o quanto isso é complicado para os adolescentes, se para nós, adultos já é difícil?

Então, algumas sugestões para quem quer ajudar e para quem precisa de ajuda para superar essas dificuldades:

1) Tem sempre alguém que pode ajudar. Se você não se sente confortável de falar com os pais, peça conselhos para alguém que lhe auxilie a fazer isso.

2) Troque de psiquiatra ou psicólogo se tentou e não há empatia ou confiança. Assim como professor não é perfeito para todos, o profissional da saúde também não.

3) Ir ao psiquiatra ou psicólogo não é negociável! Não é seu filho escolher se quer tomar banho antes ou depois da janta, entendem?

4) Tome o bendito remédio! Você não está em condições de fazer o trabalho supermegaextra que seu cérebro debilitado necessita no momento. E não, isso não significa precisar de remédio a vida toda, vai por mim (em casos de necessidade de medicação permanente, agradeça por viver num tempo em que não se morre mais por pneumonia e aceite a ajuda).

5) Quem está deprimido nível hardcore não quer morrer. Suicidas não querem morrer. E não são, na maioria das vezes, pessoas egoístas, que não se preocupam com a dor que vão causar. Estão em tal DESESPERO e falta de clareza que não suportam mais o sofrimento. Se lhes oferecessem cinco meses de coma induzido e a promessa de que os problemas estariam resolvidos ao acordar, pode ter certeza de que aceitariam.

6) Pessoas deprimidas querem ajuda. Elas só não conseguem se ajudar, e se acham um peso tão grande que nem conseguem, às vezes, aceitar ajuda. Sabe quando a pessoa está INCAPAZ de levantar da cama para tomar um banho por uns três dias? Não espere que ela vá buscar amigos ou tirar boas notas. Entende a prioridade aqui?

Bem, o que pretendo com esse texto, talvez você, se teve paciência de ler até aqui, esteja se perguntando.

Pretendo que a gente fique vigilante aos pedidos mudos de ajuda.

Pretendo que as pessoas tenham um pinguinho de esperança, que seja, para permanecerem vivas até passar a "tempestade".

Pretendo que pais leiam isso, olhem BEM para os filhos e lhes demonstrem que estão abertos a ouvir e apoiar qualquer coisa.

Pretendo que uma pessoa sequer pense um pouco diferente sobre o suicídio.

Pretendo que haja mais setembros amarelos.

Pretendo que haja mais meses, mais anos, da cor que forem, para aqueles que sobreviverem quando parece que não há mais setembros.

Falo isso com muitos aniversários de vantagem do que eu achava que iria viver.

Falo isso com empatia e amor.

Falo isso porque SEI que tem jeito. E porque estou aqui, caso você precise de ajuda.


Mal consigo acreditar no que a vida me reservou nesta "prorrogação". Só digo que vale a pena!