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domingo, 8 de junho de 2014

Uma cadeira vazia na formatura

Não aquela de alguém que não passou de ano, mas de quem partiu muito cedo, há quatro anos. 

Faz quatro anos que recebi uma ligação, de um menino de 13 dizendo, “mãe, a Duda morreu”.

“Como assim?” Demorei para conseguir falar algo depois disso. Demorei até para chorar. Não podia ser verdade. Todos estavam em choque e a notícia não pôde ser enfeitada na forma de nos comunicar.

Ninguém deveria, na 7ª série, sofrer um estúpido acidente de trânsito e ter a vida arrancada, como a do irmão, deixando uma família sem filhos. Nenhuma mãe ou pai deveria ter que encontrar forças para sobreviver a isso. E este é o momento de lembrar, ainda mais do que os outros, que essa turma sai do colégio com uma menina faltando.

Este é tão aguardado momento em que nossos adolescentes, que na maioria se conhecem desde os 3 anos de idade, se despedem da escola. Nas gavetas, fotos de aniversários e atividades do colégio, festas de São João, caras lambuzadas de chocolate, chão coberto de brinquedos e eles juntos. No facebook o Terceiróvski é uma turma unida e cheia de ideias e opiniões. Até dezembro. 

Em dezembro não mais serei a mãe de um aluno da escola frequentada por 14 anos, mas uma mãe que espera e tem saudade do filho, que entre tantos outros, vai morar longe para cursar a universidade. 

A casa, mesmo que agora só minha, ficará vazia de possibilidades. No mesmo quarteirão onde moro, meu filho mora há dois anos com o pai, mas não poderei mais dar o abraço diário, ver seu sorriso sempre que me faz falta ou ajudar quando as coisas se complicam. Não poderei mais sentir o cheiro da roupa e do cabelo, ou sua barba na minha bochecha quando me dá um beijo. Saberei que não basta mais ligar para nos vemos em 5 minutos. A felicidade de estar perto vai ter que esperar intervalos de dias ou semanas.

Não só eu, mas tantas outras mães e pais passarão por isso, como sempre foi e como sempre será. 

E na certeza de que podemos ser solidários à dor alheia, não cabe sentir o que sente uma mãe que nunca mais vai poder fazer tudo isso que lamentamos temporariamente. Não importa o quanto choremos pela Duda, não sabemos como é nos despedirmos para sempre. Pelo menos ainda não.

E aí nos assombra aquele medo da morte e do adeus sem o abraço. A dúvida aperta o coração, como se estivéssemos em uma fila de espera para um amanhã sombrio, já que não entendemos a quem a morte escolhe e o porquê de ter nos poupado. 

Ninguém deveria ter que partir antes de terminar a escola. Nenhuma turma deveria se formar com um amigo faltando, que não encontrarão nas próximas férias. Nenhuma mãe, pai, família, deveria ter que passar por isso. 

E o futuro é incerto não só no final do ano. O futuro é incerto daqui a 5 minutos. Por quanto tempo a vida, o destino, Deus, enfim, permitirá que eu abrace meu filho? 

Fecho os olhos e peço que a alegria não seja interrompida por eu não ter reconhecido a importância de tudo que tenho hoje.

A cada dia quando acordo, peço a tudo em que acredito que nossa jornada por aqui ainda tenha que percorrer longas distâncias. 

E que os abraços e não só as preces nos aproximem os corações ainda por longos anos. 
Com imenso respeito, carinho e saudade de mãe.

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