Faz quatro anos que recebi uma ligação, de um menino de 13 dizendo, “mãe, a Duda morreu”.
“Como assim?” Demorei para conseguir falar algo depois
disso. Demorei até para chorar. Não podia ser verdade. Todos estavam em choque e a notícia não pôde ser enfeitada na forma de
nos comunicar.
Ninguém deveria, na 7ª série, sofrer um estúpido acidente de
trânsito e ter a vida arrancada, como a do irmão, deixando uma família sem
filhos. Nenhuma mãe ou pai deveria ter que encontrar forças para sobreviver a
isso. E este é o momento de lembrar, ainda mais do que os outros, que essa
turma sai do colégio com uma menina faltando.
Este é tão aguardado momento em que nossos adolescentes, que na maioria
se conhecem desde os 3 anos de idade, se despedem da escola. Nas gavetas, fotos de aniversários e atividades do colégio, festas de São João, caras lambuzadas de chocolate, chão coberto de brinquedos e eles juntos. No facebook o Terceiróvski é uma turma unida e cheia de ideias e opiniões. Até dezembro.
Em dezembro não mais serei a mãe de um aluno da escola frequentada por 14 anos, mas uma mãe que espera e tem saudade do filho, que entre tantos outros, vai morar longe para cursar a universidade.
Em dezembro não mais serei a mãe de um aluno da escola frequentada por 14 anos, mas uma mãe que espera e tem saudade do filho, que entre tantos outros, vai morar longe para cursar a universidade.
A casa, mesmo que agora só minha, ficará vazia de
possibilidades. No mesmo quarteirão onde moro, meu filho mora há dois anos com o
pai, mas não poderei mais dar o abraço diário, ver seu sorriso sempre que me faz falta ou ajudar quando as coisas
se complicam. Não poderei mais sentir o cheiro da roupa e do cabelo, ou sua
barba na minha bochecha quando me dá um beijo. Saberei que não basta mais ligar para nos
vemos em 5 minutos. A felicidade de estar perto vai ter que esperar intervalos de dias ou semanas.
Não só eu, mas tantas outras mães e pais passarão por isso,
como sempre foi e como sempre será.
E na certeza de que podemos ser solidários à dor alheia,
não cabe sentir o que sente uma mãe que nunca mais vai poder fazer tudo isso
que lamentamos temporariamente. Não importa o quanto choremos pela Duda, não
sabemos como é nos despedirmos para sempre. Pelo menos ainda não.
E aí nos assombra aquele medo da morte e do adeus sem o
abraço. A dúvida aperta o coração, como se estivéssemos em uma fila de espera
para um amanhã sombrio, já que não entendemos a quem a morte escolhe e o porquê
de ter nos poupado.
Ninguém deveria ter que partir antes de terminar a escola.
Nenhuma turma deveria se formar com um amigo faltando, que não encontrarão nas
próximas férias. Nenhuma mãe, pai, família, deveria ter que passar por isso.
E o futuro é incerto não só no final do ano. O futuro é
incerto daqui a 5 minutos. Por quanto tempo a vida, o destino, Deus, enfim,
permitirá que eu abrace meu filho?
Fecho os olhos e peço que a alegria não seja interrompida
por eu não ter reconhecido a importância de tudo que tenho hoje.
A cada dia quando acordo, peço a tudo em que acredito que
nossa jornada por aqui ainda tenha que percorrer longas distâncias.
E que os abraços
e não só as preces nos aproximem os corações ainda por longos anos.
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| Com imenso respeito, carinho e saudade de mãe. |

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