Uma coisa interessante aconteceu hoje de manhã. Meu marido iria
voltar ao trabalho depois de três semanas de férias e eu tenho folga segunda de
manhã. Em vez de começar logo a fazer minhas coisas de aula, não resisti à
vontade de fazer um café da manhã gostoso, pra ele e pra mim.
Arrumei numas bandejas pra sentarmos na sacada. Abrimos umas
cadeiras de praia e, assim que ele sentou, sem camisa, já foi dizendo que estava
muito frio. “Que bom”, eu disse, “Menos calor pra hoje”. Ele colocou uma
camiseta (que eu tenho quase certeza de que estava guardada numa garrafa PET) e
fomos comer.
“Isso não é muito confortável pra mim”, disse o homem 30cm
mais alto do que eu com a bandeja no colo. “Que mal agradecido!”, eu pensei.
Mas aí me lembrei que ele tinha dormido SEM TRAVESSEIRO!
Será que ele dormiu mal? Porque podia ter pegado de volta
seu travesseiro favorito de cima da minha cabeça quando foi pra cama, pela 1h30
da manhã, como sempre faz. Eu não precisava de quatro travesseiros e mais o meu
de corpo, compridão, e ele sabe disso.
Será que ele estava inconscientemente tentando
protestar contra minha apropriação indevida de travesseiros e espaço na cama?
Só porque vou dormir sempre antes das 11 da noite? Humm...
E enquanto isso eu falava. Falava da camiseta mal dobrada. E
ele chomp, chomp, glub, glub, inclinado na bandeja, que eu já tinha levantado
com uma almofada. E já tinha colocado
outra nas costas dele. Percebe o movimento em volta da pessoa que recém
acordou?
Aí pedi pra ele olhar pro céu. “Mais alto, amor! E olha a
lâmpada da sacada...é assim que a gente corrige a postura da pessoa”. Ele riu pela primeira vez na manhã e disse que tinha vontade de me
jogar um pedaço de bolo...hehe...aí deixei ele quietinho.
Aliás, tentei.
Meu entusiasmo matinal perseguiu a cheirosa pessoa até o
quarto, onde ele colocava o cinto e pegava a carteira e chaves.
- Muito obrigada pelo café, Mozudinha!
- De nada, amor! Adoro fazer café pra ti. E quando não
estiver a fim de falar de manhã, só me diz, “Eu quero ficar quieto”.
Pausa dramática (literalmente).
- Eu gosto de ficar quieto de manhã.
Assim, na cara. Depois de TRÊS ANOS juntos e eu cantando,
rindo, dançando, derrubando os móveis que nem uma labradora A CADA MANHÃ! E sempre dizendo que não sabia
como ele aguentava meu entusiasmo matinal.
Pois então: ele não aguenta.
Ninguém aguenta. Até porque acordo umas duas horas antes de
qualquer pessoa.
Percebi que meu marido não era como eu pensava que ele era. Houve
uns 5 segundos em que me senti meio traída. Mas logo notei que ele apenas estava
sendo amoroso e simpático por tempo demais e, assim que recobrava a consciência
de manhã, começava a interagir porque adora meu entusiasmo.
Meu primeiro pensamento agora seria: por que esperar três
anos pra dizer que prefere ficar mais quieto pela manhã? Meu filho era bem mais
direto e lascava isso na minha cara, de modo que convivemos sem maiores
problemas.
Meu filho, por outro lado, sabe que não tenho como me divorciar
dele. E que a gente é meio que obrigado a se amar, como ele mesmo disso uma vez.
Sábio esse guri.
E sábio esse homem.
Se tivesse me dito há uma semana que precisava ficar mais
quieto, eu provavelmente teria ficado muito triste e chateada. Muito mesmo. E
faz três dias que eu puxei uma D.R. pra dizer que a gente precisa se abrir mais
um com o outro, falar as coisas que nos desagradam e mudar alguns
comportamentos pro nosso casamento continuar nessa parceria que sempre tivemos.
Sou pró-discussões, mas tudo requer
sensibilidade e o momento certo para não magoar o outro. E esse cuidado com os
sentimentos do outro é justamente a base do nosso relacionamento. Reclamar
disso seria como reclamar da paciência dele, que é o que mais admiro.
Pra completar o início do dia, me despedi do meu companheiro
matinal falando umas besteiras:
- Esse dia é uma RE-VE-LA-ÇÃO no nosso casamento! Vou ter
que comprar um labrador pra me acompanhar nessa casa!
- E quando ele ficar grande, tu dá o cachorro?
- Claro que não. Eu vendo! Por mais do que comprei. Tu tá
investindo teu dinheiro? Pois eu serei uma investidora de cachorros. Vou fazer
o trading enquanto ainda são filhotes e fofos. Vou botar meu dinheiro pra
trabalhar pra mim, oras.
Que nada!
Vou continuar tomando café às 5 da manhã, quando acordo. E
vou confiar nos estudos que dizem que os homens (e os humanos em geral)
costumam acordar mais quietos.
Vou continuar encorajando o “Desembucha o que tá te
incomodando!” e acolher o feedback como uma adulta saudável.
Quem sabe eu faça uma caminhada antes das 6h pra gastar
minhas energias...
Ah, esse último e o trading de cachorros é primeiro de
abril.
Mas no resto, pode confiar.
Investe na parceria, senão o amor vai morrendo, bem devagarinho.
Coloca o seu relacionamento pra trabalhar pra você.
E investe a longo prazo, que se a cotação cair por um tempo,
não tem porque se preocupar.
Casamento bom sempre acaba gerando lucro.
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| ...prefiro seu silêncio. Mas só se for possível. E com muito love, baby. |
PS: Ontem houve uma longa conversa entre meu filho e meu
marido sobre investimentos financeiros, da qual participei apenas como ouvinte, daí os termos acima. Hoje “investi” R$ 1,17 na poupança... Não dava pra comprar nenhuma ação com esse
único dinheiro que eu tinha. Desculpa, rapazes!
