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sábado, 31 de maio de 2014

Dar ou não dar Kafka?



O escritor Franz Kafka é de provocar estranheza - mal estar até em alguns - e “dar um nó nas ideias”. Havia lido apenas A Metamorfose. Gosto de obras densas e existencialistas, que desacomodam o pensamento.

Comprei dois livros do autor tcheco para incluir no presente de aniversário de 17 anos de meu filho, ávido leitor dos clássicos. E hoje abri o pacote e fui ler O Veredito. Uau!


As notas do tradutor ajudaram a situar a obra em relação à vida do autor e a entender o significado mais profundo de várias metáforas. Demorei para digerir o todo do conto e fiquei desconfortável e perplexa, ainda mais com o fato de ter sido escrito há mais de cem anos – os sentimentos humanos são tão universais quanto atemporais, mas só uma mente genial e perturbada poderia conceber algo desse tipo.


Fiquei pensando se deveria presentear meu filho com uma literatura tão, digamos assim, pesada.  Claro que é até ridículo tentar "proteger" um adolescente que pode ler o que bem entende.


Na hora do almoço, comentei com ele meu dilema. “Quando é que eu posso pegar os livros?”, me perguntou. Acabei fazendo uma propaganda do autor, mesmo sem nenhum spoiler


Vou dar a ele os livros. E ainda A Vida nos Bosques, de Thoreau, que me encomendou há tempos, esperando que não decida se mudar para uma cabana às margens de algum lago. Mesmo sabendo o quanto um livro pode mudar e moldar ideias e ideais, acho que quem leu Jack Kerouac, Bukowski, Salinger, Steinbeck, Einstein e Stephen Hawking pode dar conta.


Fiquei pensando o quanto é bom acompanhar as leituras dos filhos para tentar entender a evolução do pensamento deles nessa idade. Preciso de uns empréstimos dessa biblioteca. Preciso também da paciência e do tempo que tinha, com essa idade, para ler mais.


Bom mesmo seria passar um tempo alheia à sociedade, em uma cabana à beira do lago Walden. 

Melhor evitar Thoreau pelos próximos 20 anos. Até lá fico como o trapezista de Kafka, que vivia somente no trapézio. 

Deixemos as ideias de mudança para os 17 anos, a quem a vida tudo permite.



sábado, 10 de maio de 2014

Mas e tu está feliz?



Foi depois de uns vinte minutos de conversa com meu irmão pelo telefone. Ele me contava umas novidades ótimas e a gente falava dos planos para o futuro mais próximo e de como estava nossa vida. 

Perguntou como estava o trabalho, com tantas coisas, e a faculdade. 

- Estou muito ocupada, nem sei como estou dando conta. Mas está tudo bem. 


- Mesmo?


- Sim. Por incrível que pareça estou mais produtiva do que nunca e com as coisas em dia. Não tenho escolha, sabe como é.


- Que bom! Tá, mas e tu está feliz?


Pensei por dois segundos na profundidade daquela pergunta antes de responder. Não costumo titubear quando me perguntam se estou feliz, mas meu irmão conhece bem minha alma e sabe como estou só pelo meu “oi”.


- Sim, estou feliz. Como vou dizer que não sou feliz com tudo que eu tenho? Oportunidade de trabalho não me falta e faço o que eu amo. Tenho um lugar meu para morar e um carro que me leva aonde preciso. E preciso terminar a graduação, então...nem me sobra tempo para pensar que estou sozinha. Desocupei a mente disso. Sem falar que tenho saúde e não tenho diabetes, né?


- Hahaha...é verdade.


- E nem câncer que nem a mãe teve, apesar das várias suspeitas sempre. Vou driblando...hehe.


Rimos um pouco quando falamos que as doenças da família ainda não me atingiram. 


“Ainda”, disse o Rafa, com o humor de sempre, que eu adoro.


Só depois é que fico pensando nas conversas desse tipo. 


“Como vou dizer que não sou feliz?” é algo mais profundo do que a pergunta que meu irmão me fez. 

Como a gente pode admitir a infelicidade sem tapar o sol com a peneira quando ela existe? Não que exista para mim, mas supondo-se que com tudo isso eu fosse infeliz, como confessar?


Ser infeliz diante de tantas dádivas da vida seria no mínimo falta de gratidão, quando tantos gostariam de estar em nossa situação.


Ser infeliz diante de todas as conquistas e progressos que se faz seria admitir o fracasso pessoal em se reconhecer como merecedor de crédito. Porque cada um sabe onde lhe aperta o sapato, e cada pessoa tem uma história nem sempre tão feliz por trás do agora.
 

Admitir infelicidade, descontentamento ou falta de plenitude talvez fosse atrair coisas ruins para só aí perceber o quanto a vida era boa antes. Algo do tipo Feliz Ano Velho, livro em Marcelo Rubens Paiva reflete como sua vida era boa antes de ficar paraplégico por conta de um mergulho imprudente.  
  

Quem sabe eu seja algumas vezes supersticiosa em valorizar muito tudo o que tenho por medo de perder essas preciosidades da vida.


Mas creio que para o meu irmão vou sempre falar o que está bem no fundo da alma.


Não que a vida não possa melhorar, mas sim, sou feliz. 


Pelo menos, agora, com tanto trabalho e estudo em vez de quimioterapia.


Com doces e abraços para os dias menos ensolarados.


E hoje tem sol. 

Do amanhã, quem pode saber?
Pequenas alegrias, momentos inesquecíveis. A vida tem disso.