Nove da noite. Quase tudo pronto para amanhã.
Arrumando a
bolsa, retiro a trufa que um aluninho me deu de Páscoa hoje. Não teve “oi”, só
aquele bombom enorme e delicioso estendido na minha direção, com orgulho, antes
de entrar na sala para a aula da tarde. O abracei com minha cara pintada de coelhinho e
lhe disse o quanto amo chocolate.
Resolvo comê-la agora enquanto espero as roupas para
estendê-las. O ruído da máquina de lavar com meus uniformes é necessário. Sento
na área de serviço, apoiada na enorme janela de onde vejo a cidade vizinha e
mais outra. Na avenida com suas luzes enfileiradas os poucos carros
transitam devagar.
Desejo silêncio, mas agora não o tenho.
Olho para o céu estrelado e acho que é Vênus aquele ponto
mais brilhante que foi subindo no globo de vidro do céu, respingado de luzes.
Sempre serão as estrelas e os planetas que se mexem, mesmo que aquele seja
Mercúrio e que eu saiba que estou errada.
Abro a trufa e sinto seu cheiro delicioso. Olho para um
pontinho piscando e desejo que fosse uma estrela cadente para fazer um pedido
de mãe para mãe. Mas é só um satélite que se move lento e intermitente, observando
talvez o que cada um está fazendo agora. Penso se sabe que nem todas as
palavras que saem de nossa boca são doces como o que sinto em minha boca. Meu coração aperta.
Tenho um jeito especial de lidar com crianças. Geralmente
consigo entender o que estão sentindo ou deixá-las à vontade para me contarem o
que as aflige.
Mas hoje não foi assim com todos. Tentei tanto e não consegui
decifrar um menino, o que me presenteou. Só no final da aula me confidencia que
chamei o colega de The Flash e não a ele. E que se enganou ao pintar o egg que
era brown de yellow, o que consertamos juntos, mas que o deixou triste. E que
seu presente, que eu amei, não é tão grande quanto os outros.
Tento novamente convencê-lo do quanto é especial, e há tanto
tempo, para mim. Lhe pergunto se quer que pinte seu rosto de coelhinho também.
Ele ainda chora e não se decide. Só quando acaba a aula e os maiores entram na
sala é que diz que sim, mas que agora não dá mais tempo.
“Dá tempo sim! Vem aqui.”
Pego o lápis aquarelável e desenho um nariz vermelho naquele
rostinho pequeno e triste. Seco as lágrimas, e com o lápis preto, faço os
bigodes com capricho, ele meio que reclamando de quantos são em meio aos
soluços. Acabo, e antes de ir ele me abraça, inesperadamente. Meu coelhinho
volta para junto dos colegas com os olhos vermelhos e vai brincar no pátio.
O resto da tarde passa, chega a noite. E só agora, que o
satélite que não é estrela cadente me questiona, é que admito minha culpa. Não
tive as palavras certas na hora exata ou a percepção necessária para uma
criança hoje. Penso no que ele sente e nos seus porquês, pois até aos sete anos
temos nossos motivos.
Desejo, olhando o céu infinito, ter o poder de parar o tempo
para cada criança que chegasse a mim ao longo do dia.
Nenhuma delas deveria ter
um olhar apressado quando mostra que o dente está frouxo, quando diz que ralou
o joelho e o pai fez curativo, quando conta que o maninho vai fazer um ano, ou
que vai viajar com a família no final de semana.
Cada criança devia ter a mesma calma com que contemplo agora
o Cinturão de Órion, que para sempre vou chamar de Três Marias. Cada criança
deveria ter da gente, o tempo todo, a doçura que merece, mesmo quando chegasse a nós um pouco mais amarga.
Cada criança merecia ter o nosso agora, independente do que
nos rodeia no momento ou dali a pouco, nem que para isso precisássemos desligar os relógios que
giram as estrelas no céu de noite.
Quem sabe conversando com calma, algum deles me
ensina como fazer isso.
O satélite se foi, a roupa está pronta.
Um dois, três...
...o silêncio de fez.
Hora de sonhar com os anjinhos.
Amanhã tento de novo.
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| Pare o relógio que gira as estrelas do céu. Quero crianças sempre por perto. |
