Há tempo escrevi um texto divertido sobre tipos de homens, até o
momento lido por quase quatrocentas(!) pessoas. Um amigo próximo leu e se
identificou com uma descrição, feita realmente baseada nele. Nela constava Bukowski. Me diz ele que se
eu escrevesse sobre Bukowski, teria que escrever sobre sexo.
Bem, sou mulher. Sou mulher e mãe. Sou mulher, mãe,
solteira há tantos anos e professora. Sei que alunos me leem e inclusive
comentam isso comigo.
É verdade também não sinto necessidade de escrever sobre
sexo. Só tenho imensa dificuldade em driblar os palavrões, que até agora não escrevi
nem no Facebook nem no blog, o que para mim é uma façanha.
Meu amigo, tão culto e entendido de literatura, elogia meu
texto e confessa que não conhecia algumas referências (pop, de filmes muito
específicos ou da minha geração). E me diz que acha que o texto não é sobre os
homens.
Eu quase pergunto se é sobre as pessoas em geral, mas ele
me interrompe e diz, “É sobre ti.”
Fico um instante perplexa com minha idiotice. Afinal, eu
mesmo sempre digo que todos os textos são sobre quem os escreve. Apenas em
alguns é mais fácil disfarçar do que em outros. Mas para quem nos conhece ou é
perspicaz e conhece a psique humana, nos expomos em maior grau.
Sei que escrevo textos que no formato beiram a
infantilidade dos 15 anos. Como alguém que entende de literatura muito mais do
que eu pode gostar de ler besteirol?
Bem, com a idade que tenho, acabei aprendendo a dizer
brincando algumas coisas bem mais profundas. Para bom entendedor, está expresso
o quanto acho preocupante, por exemplo, as mães incentivarem a dependência dos
filhos homens para consigo. O quanto acho deselegantes pessoas narcisistas ou
seu oposto, alguém que não cuida o mínimo de si. O quanto acho patética a falta
de um mínimo de cultura.
Está escrito na introdução que meus amigos estão entre os
vinte e poucos e os trinta anos, e que abaixo disso vejo como se fosse meu
filho. Está escrito também o quanto sou uma Bridget Jones em termos de lidar
com o sexo oposto, bem como o que acho imprescindível e raríssimo em uma
pessoa. E quem sabe alguém tenha notado minha indecisão entre querer que alguém
invada minha vida e “grude” em mim, tolhendo minha liberdade, ou buscar o
inalcançável: alguém com “vida própria” e que consiga ser fiel.
Me dou conta de que, sem ter falado no tema obrigatório de
Bukowski ou usado qualquer palavrão, me desnudei em um texto sobre as
futilidades femininas e em outro sobre tipos de homens. E em todos os outros, reflexivos
ou não.
Na conversa com meu amigo, me senti como naquele sonho, de
estamos em um local público e de uma hora para outra nos damos conta de
estarmos nus, sabe?
Escrevendo, nos expomos. E em fotos bobas, com roupas. Em
gestos e naquilo que não falamos.
Tirando a roupa, despimos apenas o invólucro; em palavras,
nosso pensar e nosso julgamento sobre o que nos circunda.
E nos silêncios, nos gestos e no que transcende as
palavras, despimos mais do que tudo isso. Aos olhos atentos, estamos todos nus, de alguma forma.
Preciso ler Bukowski.
Preciso ler.
Preciso nem sem bem do quê.
Cobrir as palavras com roupas?
E a pele com sol e vento?
preciso escrever.
Dane-se minha ingênua nudez!
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| Para o brilhante fotógrafo Spencer Tunick, os corpos são a matéria prima para compor suas fotos. |


