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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Todo mundo nu


Há tempo escrevi um texto divertido sobre tipos de homens, até o momento lido por quase quatrocentas(!) pessoas. Um amigo próximo leu e se identificou com uma descrição, feita realmente baseada nele. Nela constava Bukowski. Me diz ele que se eu escrevesse sobre Bukowski, teria que escrever sobre sexo.

Bem, sou mulher. Sou mulher e mãe. Sou mulher, mãe, solteira há tantos anos e professora. Sei que alunos me leem e inclusive comentam isso comigo.

É verdade também não sinto necessidade de escrever sobre sexo. Só tenho imensa dificuldade em driblar os palavrões, que até agora não escrevi nem no Facebook nem no blog, o que para mim é uma façanha.

Meu amigo, tão culto e entendido de literatura, elogia meu texto e confessa que não conhecia algumas referências (pop, de filmes muito específicos ou da minha geração). E me diz que acha que o texto não é sobre os homens.

Eu quase pergunto se é sobre as pessoas em geral, mas ele me interrompe e diz, “É sobre ti.”

Fico um instante perplexa com minha idiotice. Afinal, eu mesmo sempre digo que todos os textos são sobre quem os escreve. Apenas em alguns é mais fácil disfarçar do que em outros. Mas para quem nos conhece ou é perspicaz e conhece a psique humana, nos expomos em maior grau.

Sei que escrevo textos que no formato beiram a infantilidade dos 15 anos. Como alguém que entende de literatura muito mais do que eu pode gostar de ler besteirol?

Bem, com a idade que tenho, acabei aprendendo a dizer brincando algumas coisas bem mais profundas. Para bom entendedor, está expresso o quanto acho preocupante, por exemplo, as mães incentivarem a dependência dos filhos homens para consigo. O quanto acho deselegantes pessoas narcisistas ou seu oposto, alguém que não cuida o mínimo de si. O quanto acho patética a falta de um mínimo de cultura.

Está escrito na introdução que meus amigos estão entre os vinte e poucos e os trinta anos, e que abaixo disso vejo como se fosse meu filho. Está escrito também o quanto sou uma Bridget Jones em termos de lidar com o sexo oposto, bem como o que acho imprescindível e raríssimo em uma pessoa. E quem sabe alguém tenha notado minha indecisão entre querer que alguém invada minha vida e “grude” em mim, tolhendo minha liberdade, ou buscar o inalcançável: alguém com “vida própria” e que consiga ser fiel.

Me dou conta de que, sem ter falado no tema obrigatório de Bukowski ou usado qualquer palavrão, me desnudei em um texto sobre as futilidades femininas e em outro sobre tipos de homens. E em todos os outros, reflexivos ou não.

Na conversa com meu amigo, me senti como naquele sonho, de estamos em um local público e de uma hora para outra nos damos conta de estarmos nus, sabe?

Escrevendo, nos expomos. E em fotos bobas, com roupas. Em gestos e naquilo que não falamos.


Tirando a roupa, despimos apenas o invólucro; em palavras, nosso pensar e nosso julgamento sobre o que nos circunda.

E nos silêncios, nos gestos e no que transcende as palavras, despimos mais do que tudo isso. Aos olhos atentos, estamos todos nus, de alguma forma.

Preciso ler Bukowski.

Preciso ler.

Preciso nem sem bem do quê.

Cobrir as palavras com roupas?

E a pele com sol e vento?

preciso escrever.


Dane-se minha ingênua nudez!


Para o brilhante fotógrafo Spencer Tunick, os corpos são a matéria prima para compor suas fotos.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O pálido ponto azul e o som de um beijo

Nada é relevante quando enxergamos a Terra assim, de um longe tão inimaginável quanto registrado pela Voyager ao atingir o limite do sistema solar, levando consigo registros da espécie humana para outras possíveis formas de vida.

Sobre um filme. Relações virtuais. Uma sonda espacial e seu conteúdo, que o físico Carl Sagan ajudou a selecionar para representar a nós. 

Sobre a Terra e o que nela está contido, assim inicio:

É sábado. Vou à locadora em busca de algo denso e significativo para iniciar a maratona de filmes das férias. Diante de mim, um título dirigido por Jason Reitman, o mesmo do brilhante indie movie Juno, de 2007. O título, Homens, Mulheres e Crianças, traduzido literalmente do inglês, não é nada atraente, mas leio a sinopse e vou pelo elenco e diretor.

Que agradável surpresa!

O filme trata das relações humanas em tempos virtuais, de maneira sensível e visualmente inovadora, com a interface do que os personagens visualizam em seus computadores, celulares e afins na tela, ao lado deles.

É como se tivéssemos uma visão sobre seus pensamentos: a mãe superprotetora que controla cada acesso da filha a cada recurso. O pai que não consegue lidar sozinho com o filho após ambos serem abandonados por sua esposa. A mãe que explora a beleza da filha e quase sabota o futuro de ambas. O casal que usa de subterfúgios para evitar um ao outro e que acaba justamente se reencontrando dessa forma. O menino popular que descobre que a primeira vez com uma garota é bem diferente dos vídeos que costuma assistir online. 

E por fim, o garoto que encara o abandono deixando de lado o esporte, os amigos e a si mesmo, em um avatar em jogo de RPG. Segundo ele, sua existência é irrelevante para o universo, o que sustenta com as afirmações de Carl Sagan sobre os registros de nosso planeta feitos pela sonda Voyager no limite do sistema solar, apontando a Terra como um pálido e minúsculo ponto azul.

Sem maiores detalhes, recomendo o filme aos seres pensantes em geral, adolescentes ou adultos de qualquer idade. Os extras são imperdíveis, com o diretor discutindo algumas metáforas que tinham me passado despercebidas e com comentários de todo o elenco, de variadas idades e opiniões sobre essa nova era em que vivemos.

De todos os comentários, o da atriz Jennifer Garner resumiu o que buscamos, ainda que às vezes de equivocadamente, com equipamentos que nos distanciam de quem está a centímetros de distância: buscamos contato.

No encerramento do filme, narrado pela atriz Emma Thompson, o texto de Carl Sagan é esclarecedor para os leigos, como eu, permitindo uma visão mais ampla do que a mostrada pelo personagem Tim.

Resumindo (com meus sentimentos), Sagan diz que a Terra, de longe um pálido ponto azul, é nosso lar, o único que tivemos e teremos, desafiando nosso delírio de posição privilegiada no universo. Para ele, no entanto, nossa pequenez no universo e nosso “confinamento” a apenas este espaço habitável enfatizam nossa necessidade de tratá-lo com mais respeito e de sermos mais gentis uns com os outros.

Mais gentis uns com os outros. 

Relacionamentos. 

Proximidade. 

O filme.

Contato. 

...

Dentre os registros de nosso planeta, levados ao espaço interestelar pela Voyager, estão compiladas em um disco revestido de ouro 115 imagens, sons da natureza e animais, saudações em 55 línguas, uma seleção de músicas que inclui Mozart, e mais alguns ícones, conforme o site da NASA.

De todos os registros do golden record, como é chamado, o que mais representa nossa busca, em minha ínfima e singela opinião, é bastante simples:

O som de um beijo.

"Para criaturas pequenas como nós, a imensidão só é suportável através do amor" Carl Sagan (1934 - 1996)

terça-feira, 14 de julho de 2015

Beleza americana?

Sem spoilers nem resenha do filme, apenas uma frase dita pela personagem de Annete Bening no filme de 1999, que ressoa em minha cabeça há uns dias: “Para ser bem sucedido, deve-se projetar uma imagem de sucesso em todos os momentos”.

Assim a personagem, à beira de um colapso, lidava com a frustração e preocupava-se demasiadamente com sua aparência e seu jardim, onde cultivava as rosas que dão nome ao filme.

Foi um post no facebook, sobre um dos meus malsucedidos consertos caseiros (com a devida documentação fotográfica), que gerou o comentário de uma amiga, me fazendo lembrar dessa frase. 

Dentre os comentários sobre a situação patética, ela escreveu que uma coisa é certa – na minha vida não tem monotonia.

Sério? Me surpreendi com isso.

Guardei isso dentro, bem no fundinho, remoendo cá comigo. Você pode não ter o mínimo interesse na minha vida, mas sugiro que remoa, lá consigo, se um pouco de autoconhecimento for do seu interesse. A pergunta é a seguinte:

Somos o que parecemos ser, mesmo quando tentamos realmente nos expor de uma maneira autêntica e o menos plastificada possível?

Vejamos (eu aqui, e você aí)...

Vida real: desastrada, quase sempre de bom humor mesmo nos abundantes perrengues diários. Marcas em volta da boca, de sorrir bastante (até lavando louça!), e não na testa, já que não perco o sono em vão e procuro me desculpar pelos dias de mau humor. 

Enfim, ser humano normal (eu acho), às vezes mais gordinha, às vezes mais magrinha, às vezes arrumada, quase sempre com a mesma calça e sem maquiagem. Quatro décadas e mais uns anos, irreverente, inconveniente, que adora ajudar e fazer os outros rirem. Cozinheira e comilona.

Facebook: fotos de tudo isso aí, por incrível que pareça. Música com pedaços de letra falando por mim. Textos engraçados, outros irônicos, alguns reflexivos. Comentários bobos, outros mais “evoluídos”. Nada de posts quando estou doente, no casulo, sem companhia. Fotos artísticas compartilhadas, com composições inusitadas. Pensei que isso me representasse.

Até o comentário da Luciane.

Cadê a monotonia solitária de domingo? A clausura que me imponho para fazer as coisas que eu poderia fazer durante a semana se me organizasse melhor? Pensei que as fotos de cachorro e comida falassem por si, mas quem sabe não. Tem o bom dia com café cedinho e a paz genuína daquele momento, mas deixo por isso mesmo. Quem sabe a monotonia não me represente, assim como as fotos arrumadinhas fazendo pose.

Penso mais um pouco.

Talvez a vida dessa humilde habitante do planeta terra não seja, de fato, monótona.

Quando tem algum problema, haja criatividade para ver com outros olhos e relatar aos amigos de forma engraçada.

Quando está tudo maravilhoso, haja superego para não sair virando estrelinha na rua e dançando com as pessoas que passam.

E quando tem assuntos internos desacomodando a massa cinzenta, haja caracteres para descrever o filme que se passa em minha mente com um simples comentário de duas linhas.

Haja beleza, enfim, para enfeitar as coisas mundanas mais feinhas, para a gente expor nas janelas da nossa vida.

Respondendo à pergunta do início:
É, acho que tento colocar umas florzinhas. Coisa simples, que apanho na estrada. Se elas são de plástico ou não, bem...

...nem eu mesma descobri ainda.


E as suas, são de quê mesmo?

Trilha do post, do Radiohead https://www.youtube.com/watch?v=m6GzWvMrWTA