“O único sentimento que me permite antecipação é a alegria.
Não sofro na véspera.” Mãe do Ian.
Ontem foi o dia do abraço final, de até logo. Mas uma tarde
de percalços veio antes disso, porque é mais fácil se despedir de alguém com quem se está
zangado.
Há duas semanas, meu filho e a namorada foram passar o final
de semana em Porto Alegre, no apartamento que está pronto desde janeiro
esperando que ele se mude para estudar na PUC. Fui buscá-los na rodoviária na
segunda, quando perceberam que a chave tinha sido perdida.
Procura daqui, vasculha dali, todos os lugares possíveis
foram examinados e nada de encontrarmos as chaves. O que fazer?
Sugeri algumas coisas, mas não fui eu até lá resolver o
assunto, que afinal, era dele. Ontem é que ele me ligou, de tarde, para dizer que seria complicado
chegar cedo ao prédio para pegar a chave do síndico e fazer cópia antes que ele saísse em viagem. Estava combinado de o pai levá-lo cedo para isso, mas
caso a greve dos motoristas de caminhão interferisse...
Parei o trabalho, liguei para vários lugares, tentando
resolver o problema. Fui tomada de uma raiva imensa, já que tinha sugerido
fazer cópia das chaves. Só resolvi que deixaria que ele se arranjasse e iria
para minha aula na universidade à noite.
Em casa por uma hora, a raiva foi sendo elaborada: fico
brava quando sou necessária, fico triste quando não sou. Quero o filho embaixo
da asa, quero que seja feliz e livre desse sentimento de dívida. A ambiguidade
me oprime e aperta o peito, mas as lágrimas não vêm para trazer alívio. Com um
nó na garganta, ligo para ele e peço que espere na frente da casa do pai para
eu passar e lhe dar um abraço antes que vá. Nunca me despeço sem acertar as
contas, para nada.
Desce a entrada da garagem aquele moço, que na inclinação é
ainda mais alto que eu. Digo que o amo e que desejo um bom começo de aula. Ele
me abraça e diz o mesmo, baixinho. Olho para o rosto tão diferente de 17 anos
atrás e meus olhos se enchem de lágrimas, mas e ele me pede para não chorar.
Sei o quanto é doído nessa idade morar longe da namorada, e é essa a
minha dor, por ele.
Mudo de assunto, “Estou indo para a faculdade ter aula de português
com tua profe do colégio”. Ele tenta sorrir e me deseja boa sorte. Saio com o
cheiro da sua camiseta e o “Te amo muito” colados em mim.
Chegando à aula, a professora Clarice pergunta meu nome, que ainda
não consta na chamada. “Madelon”, eu digo. “Ah, a mãe do Ian!” E se desdobra em
elogios, os quais tento igualar durante a aula anotando tudo e resolvendo os
exercícios - não é sempre o contrário?
Escrevo e me dou conta do paradoxo: criamos os filhos para
sair ao mundo levando um pouco de nós, mas nós é que somos transformamos por eles, ainda que ocupando o mesmo espaço. Até os 25 anos eu era a
Madelon. Hoje, mais do que nunca, sou a mãe do Ian. E essa é uma alegria que não
se muda para longe, fica como um prêmio escondido em um lugar só nosso.
E em dias como hoje, um sábado de aula, rodeada de alunos a
quem tanto amo, essa plenitude emerge e afoga a tristeza de ontem.
Sou mãe, sabe? Mãe é um ser que mais sorri do que
chora.
Acho que a mãe do Ian recebeu o dom da alegria, para guardar para sempre.
| Amor da minha vida, daqui até a eternidade. Nossos destinos foram traçados na maternidade |