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sábado, 29 de março de 2014

“Quem inventou a janela?...



- Primeiro: Formigas. Segundo: o homem. Terceiro: lagarta.
- Lagarta.
- Erradoooo!”

Eram 5 da tarde. As profes do turno integral estavam no intervalo, cada uma “desmaiada” em uma cadeira. Terminadas minhas aulas, eu elaborava uma prova na sala dos professores e escutava as crianças pela janela, brincando de verdade ou desafio. 

Minhas risadas acordaram as colegas e prestamos atenção a outras perguntas, como quem inventou o esgoto e o ar condicionado. As respostas variavam entre os homens, a própria natureza, a lagarta as formigas e o presidente. Quando as colegas acertavam, a Ana falava com entusiasmo, meio cantando, “Issoooo!!!” 

A maquininha de inventar dessa menina de 7 anos emendava uma pergunta na outra sem titubear. Criança tem dessas coisas, e como é bom quando nos lembramos disso.

Escuto coisas do tipo, “Teacher, Jesus é maior que a porta?” O outro coleguinha responde por mim, “Jesus é o cara pequeno e Deus é o cara grande”. E essa maquininha de filosofar de 8 anos me pergunta, “A vida é muito comprida...assim, para as pessoas velhinhas?” Respondo que até agora não me cansei. “Mas quando eu ficar mais velhinha, Mariana, te conto.”

Tem perguntas que me divertem e presentes que me comovem. Tem beijo melecado de chocolate, grão de uva no recreio e nacos de bolo que me colocam na mão com orgulho. Tem dentadura de vampiro para eu usar em casa e convites para chá com xícaras novas, cor de rosa. 

Nessas horas como o pedaço de bolo e a uva com a mão suja de giz. Abraço bem apertado e limpo o chocolate da bochecha só mais tarde. Agora tenho 5 anos de novo, sentada no chão com minha xícara imaginária. Peço mais açúcar para mexer com minha colherzinha de vento e digo à Kyara que o bule rosa é mesmo lindo.

Essa semana, saindo da escola à tardinha, um pequeno me abraça todo feliz e me diz, “Teacher! Todo mundo gosta de ti, né?” Quem dera, penso comigo, mas primeiro sorrio com a mesma ingenuidade dele. Voltando dali a 15 minutos para a reunião da noite, me pergunta ele de novo, “Tu mora aqui?”

Não digo que sim, nem que não. 

“Tenho uma cama na minha casa, Arthur”. 

Mas moro onde o coração está. No meu prédio e ali também, em lugares com janelas para o que vai além de mim. 

Em um deles, mais alto, vejo o horizonte, as nuvens e o céu que está adiante. No outro, na altura do chão de agora, as crianças me lembram de como a vida é deliciosa e simples.

E assim, em uma sexta de tarde, cansada e contente, fecho os olhos e agradeço: 

“Obrigada, formigas, por terem inventado a janela!”
Quem inventou os girinos? Aos 4 anos eu nem sabia que eles eram sapinhos.