- Primeiro: Formigas. Segundo: o homem. Terceiro: lagarta.
- Lagarta.
- Erradoooo!”
Eram 5 da tarde. As profes do turno integral estavam no
intervalo, cada uma “desmaiada” em uma cadeira. Terminadas minhas aulas, eu elaborava
uma prova na sala dos professores e escutava as crianças pela janela, brincando
de verdade ou desafio.
Minhas risadas acordaram as colegas e prestamos atenção a
outras perguntas, como quem inventou o esgoto e o ar condicionado. As respostas
variavam entre os homens, a própria natureza, a lagarta as formigas e o
presidente. Quando as colegas acertavam, a Ana falava com entusiasmo, meio
cantando, “Issoooo!!!”
A maquininha de inventar dessa menina de 7 anos emendava uma
pergunta na outra sem titubear. Criança tem dessas coisas, e como é bom quando
nos lembramos disso.
Escuto coisas do tipo, “Teacher, Jesus é maior que a porta?”
O outro coleguinha responde por mim, “Jesus é o cara pequeno e Deus é o cara
grande”. E essa maquininha de filosofar de 8 anos me pergunta, “A vida é muito
comprida...assim, para as pessoas velhinhas?” Respondo que até agora não me cansei.
“Mas quando eu ficar mais velhinha, Mariana, te conto.”
Tem perguntas que me divertem e presentes que me comovem.
Tem beijo melecado de chocolate, grão de uva no recreio e nacos de bolo que me
colocam na mão com orgulho. Tem dentadura de vampiro para eu usar em casa e convites
para chá com xícaras novas, cor de rosa.
Nessas horas como o pedaço de bolo e a uva com a mão suja de
giz. Abraço bem apertado e limpo o chocolate da bochecha só mais tarde. Agora
tenho 5 anos de novo, sentada no chão com minha xícara imaginária. Peço mais
açúcar para mexer com minha colherzinha de vento e digo à Kyara que o bule rosa
é mesmo lindo.
Essa semana, saindo da escola à tardinha, um pequeno me
abraça todo feliz e me diz, “Teacher! Todo mundo gosta de ti, né?” Quem dera,
penso comigo, mas primeiro sorrio com a mesma ingenuidade dele. Voltando dali a
15 minutos para a reunião da noite, me pergunta ele de novo, “Tu mora aqui?”
Não digo que sim, nem que não.
“Tenho uma cama na minha casa,
Arthur”.
Mas moro onde o coração está. No meu prédio e ali também, em
lugares com janelas para o que vai além de mim.
Em um deles, mais alto, vejo o
horizonte, as nuvens e o céu que está adiante. No outro, na altura do chão de
agora, as crianças me lembram de como a vida é deliciosa e simples.
E assim, em uma sexta de tarde, cansada e contente, fecho os
olhos e agradeço:
“Obrigada, formigas, por terem inventado a janela!”
| Quem inventou os girinos? Aos 4 anos eu nem sabia que eles eram sapinhos. |