Ela estava chegando em
casa do trabalho. A irmã mais velha foi encontrá-la já no portão e lhe deu a
notícia:
- Adriana, a Bruna morreu.
- Qual Bruna?
- A Bruna, filha da dona Noemi do bazar.
- A Bruna do cartório?
- Isso!
- Que horror, o que houve? A guria não
devia ter nem 25 anos.
- Parece que foi eletrocutada.
- Como assim, Beta?
- Ah, não sei bem. Isso não falam no
rádio, né? Só sei que o velório começa pelas nove da noite.
- Puxa vida, será que a gente tem que
dar uma passada no velório?
- Acho que sim, senão vai ficar chato. A
gente brincava junto de criança, e a mãe e a dona Noemi são colegas no clube de
mães.
Adriana ficou parada na
frente da casa. Os cachorros vieram ao seu encontro, mas ela estava com o olhar
fixo na porta por onde a irmã tinha entrado. Ao lado do marco de madeira, os
fios da campainha estavam meio à mostra. Fechou o portão com o arame que tinham
improvisado porque a tranca estava quebrada e caminhou pelo cascalho que a
grama estava invadindo. Entrou em casa e largou a bolsa.
Sentou um pouco na
poltrona coberta com uma manta desbotada antes de ir ao banheiro lavar as mãos.
Putz, cara! Quem morre eletrocutada com menos de 25 anos?
Ouviu o barulho da irmã
mexendo nos pratos e perguntou.
- Cadê a mãe?
- Foi no super e já volta. Pedi pra
comprar aquelas bolachas de aveia do pacote amarelo.
- Pacote verde, Beta.
- Tá, que seja. Ela vai achar.
- Tu precisa usar o banheiro?
- Não, to pronta já. Falta só escovar os
dentes. Mas vê se não morre naquele banheiro.
Ela entrou no banheiro
e se olhou no espelho. O cabelo ainda estava com aquele coque meio bagunçado
que ela tinha feito na hora de escovar os dentes depois do almoço na loja.
Estava na hora de retocar as luzes e o rímel estava meio borrado. O rímel à prova
d’água estava no finzinho e ela estava guardando para o fim de semana. Quem
sabe um lápis de outra cor nos olhos? Ninguém dá muita bola para olhos
castanhos. Ou batom em vez de gloss, ela tinha uns lábios bonitos. Não. Batom uso
só para sair, concluiu. Tinha mesmo é que comprar umas roupas novas. O salário
chegaria no dia seguinte, se o Seu Milton não atrasasse naquele mês.
O movimento na loja
andava fraco e as comissões do mês não seriam gordas como as de dezembro. Março
era uma droga! O pessoal voltando da praia sem um real, comprando o material
escolar, parece que ninguém compra colchão em março. E ainda tinha que pagar a
faculdade. Mas se desse tudo certo, podia aproveitar a liquidação de jeans.
Qualquer coisa, parcelava. A Tati disse que a primeira é para maio, pensa! Dois
jeans e umas três blusinhas. Uma blusinha verde para usar com sapatilha na sexta
que vem vai ficar show. Deixo o cabelo solto ou faço um rabo?
Tinha que fazer as
unhas, uma coisa diferente. O carinha de óculos da aula de Ética sentava quase sempre
do lado dela e nunca trazia os xerox da aula. Pegava emprestado dela para dar
uma olhada antes do professor entrar. Trabalhava num escritório de
contabilidade, muito movimento, tem tanto papel na minha mesa que não consigo
nem achar meu celular! Na hora de pegar o material emprestado na próxima sexta com
certeza ia notar o capricho das unhas e talvez até achasse que ela era uma
daquelas Patis que faziam direito para trabalhar no escritório dos pais. Deixa
ele pensar. Meu negócio é exatas, mas contábeis acaba fazendo a papelada do
escritório de todo mundo depois.
Adriana entrou no
banho.
E se pelo menos eles
conversassem um pouco, dava para engatar o trabalho em duplas da nota seguinte.
Aí quem sabe, uma coisa leva a outra e nem tudo dá pra fazer por conversa no
face ou e-mail, iam acabar se encontrando fora da aula. Perfume! O Carolina
Herrera estava no finzinho. Perfume aquele mês não dava. Rímel, blusinha e os
jeans. Pegava o perfume da Beta uns dias. Tudo não dava, tinha que escolher o
mais urgente.
A mãe gritou do lado de
fora:
- Adriana, tu quer uma torrada ou só a
batida?
- Pode fazer uma torrada pra mim, mãe.
Coloca tomate?
- Tá bom.
- Já saio do banho.
Saiu do banho e colocou
no cesto de roupa suja o uniforme que tinha deixado no chão do banheiro. O
uniforme da loja era um saco. Camisa polo, não aguentava mais aquilo. Naquelas
lojas finas de móveis planejados é que as mulheres ficavam elegantes com
aqueles vestidos ajustados. Aquilo sim, nem parecia uniforme. Podia até sair
com as gurias direto do trabalho com aquela roupa, era só tirar o crachá da
loja, imagina! Quem sabe antes de me formar eu ainda consigo uma vaga numa loja
dessas. Não sei como alguém reclama de usar salto. Vão trabalhar com esse uniforme
tenebroso aqui, que não combina com sapato legal, que eu quero ver vocês não
sentirem falta de um salto.
Terminou de se secar e
saiu do banheiro. Vestiu a roupa que tinha separado de manhã cedo. Tinha aula
na faculdade de noite. Era quarta e depois ainda tinha o velório! Que horas ia
dormir, e depois amanhã trabalhar, e tudo de novo? Por que as pessoas não
morrem no final de semana? Durante a semana só gente aposentada pra passar a
noite por lá. Quem trabalha, fica difícil.
Saiu do banheiro.
- Adriana, tu soube da Bruna?
- Sim, mãe. Que situação, coitada da
dona Noemi.
- Ai, minha filha, nem me fala! Eu no
lugar dela nem sei o que fazia.
A Roberta bateu no ombro da mãe.
- Triste mesmo, mãezinha. Não é da ordem
natural da vida os filhos morrerem antes dos pais. Com certeza é o luto mais
doloroso.
- Quando o pai de vocês morreu, eu achei
que ia me dar um troço. Vivia que nem um zumbi. Mas tinha vocês duas pra criar,
não dá pra se atirar numa cama com duas crianças.
As três comeram quase
em silêncio. Eram seis e trinta da tarde, a van já ia passar para buscar as
duas irmãs. A universidade era na cidade vizinha, a 20km. Ouviram a buzina e
pegaram as bolsas e cadernos.
- Tchau, mãe. Na volta, vamos no
velório.
- Até mais tarde, mãezinha.
- Vão com Deus. Vou arrumar uma carona
pra gente.
A aula passou devagar, ela
estava meio aérea. Anotou só o mais importante. Estava preocupada com a morte da
Bruna e com a choradeira que ia ser o velório de uma guria tão nova.
Finalmente chegou a hora de ir embora.
Chegando em casa, a mãe já estava saindo
com um casaco para cada uma. Colocaram os livros na mesa da sala e foram até o
vizinho a duas quadras dali.
- O seu Ivo e a dona Gessi também vão e
tem lugar pra gente.
Caminharam em silêncio.
Chegaram à casa dos vizinhos de idade, que estavam na calçada e já foram
abrindo o carro velho. Estavam só esperando as vizinhas para dar carona. Entraram
todos e se foram.
Na entrada da capela
mortuária, um aglomerado de gente. Eram quase onze da noite. A mãe logo
encontrou aquele monte de gente velha que fica nos velórios. Disseram que o
corpo tinha chegado pelas sete. E o choque foi num banquinho molhado, trocando
a temperatura do chuveiro. Os fios estavam desencapados.
Entraram todos e viram
os pais da Bruna abraçados um no outro, com os três irmãos junto, esfregando os
braços deles. Parecia que estavam grogues de tanto chorar. Era uma família de
fantasmas.
Lembrou vagamente do
velório do pai e sentiu um arrepio. Olhou para a mãe e a Roberta. Sentiu o
cheiro dos crisântemos e das velas e ficou meio enjoada, mas tentou disfarçar. Fazia
11 anos. Ela tinha 8 e a irmã tinha 10 quando o pai morreu. Caminharam até perto
do caixão. Os olhos dela se demoraram no rosto da Bruna. Parecia que estava só
dormindo, como pode isso? Não ficou inchada nem com a cara roxa. Ou isso era
quando a pessoa se enforcava? A moça morta tinha uma maquiagem nos olhos que
com certeza nunca teria escolhido, elegante como era naquele cartório. As unhas
também destoavam. Lixadas quadradas, modernas, tinham passado um esmalte
cintilante meio rosinha, quem ainda usa isso? Mas o pior era a roupa, Deus que
me perdoe, mas um terninho azul marinho de tecido barato e desalinhado, com uma
camisa branca um pouco amarrotada por baixo, será que só eu vejo que isso não
cai bem?
Chamou a irmã de canto
depois de rezar uma Ave Maria do lado do corpo.
- Beta, tu viu a roupa que colocaram
nela?
- Credo, Adri! Coitada da guria!
- Vai dizer que tu não achou?
- Nem vi. Mas tu gosta de fazer fofoca,
Deus me livre! A guria ta morta!
- Não é fofoca quando a gente faz um
comentário assim, pra alguém da família.
- Fofoqueiro nunca diz que é fofoca.
- Ta Beta, tanto faz. Mas tu não achou?
- Sei lá. Ela ta com uma expressão tão tranquila.
Parece que nem sofreu antes de morrer. Estranho é a dona Lurdes falando no
ouvido dela, olha ali. Está se despedindo, eu acho. Coisa mais triste.
- É.
A Roberta sempre foi a
irmã mais certinha. Se a mãe escutasse a conversa das duas, é certo que ia
falar, “Adriana, tu só te importa com o que os outros vão pensar!” Ah é? Queria
ver, mãe, se fosse a tua querida Beta ali deitada, com aquele terninho azul
marinho e as unhas com esmalte cintilante. E ainda batom rosa naquela pele mais
moreninha da Beta, aí sim, queria ver se tu não ia te importar. Mas deixa, elas
eram diferentes. Decerto a mãe ia escolher um traje daqueles e ainda falar no
ouvido dela, “minha filhinha, como tu ta linda. Vai pra junto do teu pai e
espera tua irmã. A Adriana ainda tem muito que fazer por aqui.” Elas não tinham
muito gosto mesmo. Aposto que acharam essa tampa do caixão da Bruna um luxo,
com aqueles enfeites de entalhe artificial. Se fosse a vó, tudo bem, era idosa
quando morreu. Gente de idade gosta de coisa dourada. Mas pra uma guria como a
Bruna, caixão de mogno e alças de latão barato? Mas deixa, nem vou falar nada,
que já me acham inconveniente. Só porque não faço psicologia, vai ver.
Foram todas para casa
pela meia-noite.
Ela começou a pensar
como seria se fosse ela, Adriana, naquele caixão. Como será que a mãe e a irmã
iam vesti-la? E que tipo de sapato iam colocar nos seus pés?
Sapato ela lembrou que ficava escondido
embaixo daquelas flores todas. Aí se lembrou de uma história que a vó contou,
da mulher que voltou depois de morta para pedir sapatos porque tinham lhe
enterrado descalça. Teve um calafrio de pavor e ficou pensando se a guria morta
estava de sapato e se eram do jeito daquele terninho cafona. E se ela não ia
voltar e perguntar para a família por que estava desalinhada daquele jeito.
Custou a dormir.
No dia seguinte, quando
acordou, a imagem da morta do terno marinho não lhe saía da cabeça. Pensou em
suas roupas e no que escolheriam para ela. E em como fariam sua maquiagem. Será
que deixam alguém da família dar uma caprichada ou é sempre o pessoal da
funerária? Funerária de cidade do interior, não dá pra esperar muita coisa.
Ficou pensando naqueles
enterros dos Estados Unidos, que esperam uns três dias para enterrar as pessoas
e ainda fazem tipo de uma festinha elegante depois. Ninguém se esgoelando de
chorar, só alguém fazendo um discurso para falar do falecido, que ficava
deitadinho num caixão todo chique, sem aquele monte de coroa com escritos de
letrinhas douradas colados nas fitas. Estados Unidos era outra coisa!
Os dias foram passando,
a liquidação de jeans, blusinha verde na sexta. Carinha de óculos pegando o
material dela, nem aí pras unhas. E ela preocupada em manter um esmalte decente
sempre, vai que me acontece alguma coisa. Refez as luzes do cabelo. Ficaram
boas. Agora o carinha de óculos, Rodrigo, vai notar.
Mais dias, semanas, um
mês. O Rodrigo fez dupla com outra menina, do Direito. Sobrou para ela a menina
da sua cidade, esforçada, mas meio burrinha, para o trabalho. Dane-se! Deve se
achar grande coisa esse babaca.
E outro mês e mais
outro. E ela sempre arrumada, nunca se sabe a hora. Separou as roupas menos
ajeitadas do guarda-roupa e doou. Deixava umas roupas com sapato combinando
meio preparadas na prateleira mais visível do guarda roupa. Quando deitava na
cama de noite pensava em toda a cena do próprio velório, como quem olha do caixão
para fora.
Pesquisava na Internet
cerimoniais de velórios e enterros como quem organiza a festa de quine anos. Um
dia a irmã viu as coisas que ela estava olhando.
- Que é isso, Adriana? Velório?? Cruzes!
- Cruzes o quê? Todo mundo morre, tem
que estar preparado.
- Tu tem medo que te enterrem com uma
roupa que nem a da Bruna, por acaso?
Adriana não respondeu
- Isso deve ser coisa da festa de quinze
que a gente não teve. Toda menina quer ter um dia de princesa, tu sabe. É um
rito social. Mas isso aí de velório é ridículo, Adri! Nem a vó que era velhinha
se preocupava com isso.
- Vai cuidar da tua vida, Roberta. E
leva teu querido Freud contigo, vão os dois se catar!
Adriana foi pro quarto
se arrumar. Era sexta, dia de movimento na faculdade. Sexta ela sempre guardava
um dinheirinho para comprar lanche. E pegou o celular novo, que tinha comprado
em doze prestações, de Páscoa. Hoje ela ia ouvir música no ônibus e no
intervalo.
Foram as duas para a
faculdade meio sem se falar. A Adri daquele jeito esnobe, com aquele celular
novo, como se tivesse dinheiro pra bancar essas coisas todas que ela compra. Se
tivesse mais juízo, ia investir em um consórcio de moto, que nem eu. Gasta tudo
em roupa e agora essa mania de morte e velório, o que tem de errado com essa
guria?
Na volta para a van
depois da aula, a Adriana ia atravessando a avenida. Estava de cabelo solto,
com os fones de ouvido. Vinha toda soberba, como quem desfila. A Beta olhou bem
na hora que um carro prata, na corrida, acertou a irmã em cheio. Parou tudo
naquela hora. Parecia que a cena era em câmera lenta. Viu a irmã sendo jogada contra
um poste mais adiante que nem um boneco de pano, batendo a cabeça e logo em
seguida caída no asfalto. Dali em diante, ficou meio entorpecida. Não era mais
ela que se movia.
Preparou o velório com
o coração pesado de quem guarda um segredo. Sabia da vontade da irmã de deixar
uma boa impressão e cuidou de tudo nos mínimos detalhes. A mãe nem era mais a
mãe. Estava atordoada. Por uma filha só, quem sabe ela nem precise mais sair da
cama.
Na manhã seguinte,
depois de uma noite em claro preparando tudo para o grande dia, a Adriana
chegou na capela mortuária. Já tinha gente esperando. Que menina tão moça,
morrer assim desse jeito? Como iam ficar Dona Lurdes e a Betinha?
A Adriana era o centro
das atenções. Coral da igreja, 8 coroas com dizeres em dourado. O caixão mais
elegante da funerária, com os entalhes e o dourado nas alças, ela gostava de
luxo. O cabelo estava com uns cachos, tinham feito um bom trabalho. A maquiagem
era de festa, assim como o vestido. Vai em paz, maninha. Agora tu tem tua festa
de quinze, que tu tanto queria. A irmã desmoronou.
A mãe chegou carregada
pelas tias. Sentou do lado do caixão e não saiu um minuto. Não bebeu água, não
falou com ninguém. Estava em outro lugar. Olhava para a foto da família, em
cima das mãos da filha morta. O pai e a Adri olhavam com uma cara divertida
para a câmera. A Roberta olhava para a mãe. A mãe sorria com aquele sorriso dos
que ainda não conhecem a morte.
Na hora de fechar o
caixão, a mãe murmurava no ouvido da Adriana:
- Minha filha, vai em paz que o pai e a
vó tão te esperando. A Beta vai cuidar de mim. Ela nunca vai ser boa nas contas
como tu, mas se tu visse o quanto ela insistiu pra te dar do bom e do melhor
hoje, minha filha. Tu vai do jeito que tu gostava, com elegância, filhinha.
- Mãezinha, tá na hora.
- ...Aqueles margaridinhas ali, a Dona
Sandra lembrou que tu gostava quando era criança, mas a gente colocou num
celofane com fita. Quantas coroas, Adri, se tu visse! Tu tá linda, tu sempre
foi a mais linda! Escolhi a música que tu cantava na catequese pro coral e o
salmo que tu leu na crisma pra colocar na pedra.
- Mãezinha, ta na hora. A Adri já tá nos
olhando lá de cima, deixa ela ir, mãe.
Mas a Adri não estava
lá em cima, nem lá embaixo, nem em lugar nenhum. A Adri só um corpo gelado num
caixão, com vestido verde de festa. A Adri era uma foto na parede, vestida que
nem uma noivinha, fita de cetim na cintura e aquelas flores na cabeça, na
primeira comunhão. A Adri era uma foto no mural da loja, com o uniforme de gola
polo e a raiz aparecendo. A Adri era um monte de fotos no computador, que a mãe
e a Beta acabariam por não imprimir.
A Adri ia fazer falta. Que
vida mais sozinha, com uma filha só, Deus, por quê? Por que não me levaram eu,
que sou velha e nem tenho mais gosto de viver mesmo, meu Deus? Quem vai fazer
as contas da casa, ajudar no almoço de domingo?
Não ia ser nada fácil
agora com os 10 mil do enterro para pagar. Teriam que esperar para fazer aquela
pedra de mármore branco a estátua de anjinho pequena. Teriam que vender o
consórcio da moto. A Roberta ia sentir muito, mas era o jeito.
O coral da igreja
estava cantando as últimas músicas quando chegaram a Luiza e a Vanessa, que
faziam faculdade com ela na cidade vizinha, mas moravam ali também. Souberam
pelo rádio. A Luiza olhou para a Vanessa:
- Olha a cara serena dela. Nem parece
que foi atropelada.
- Claro, com aquele monte de base
tapando o rosto. Mas olha que inchada na testa.
- Ela ta bonita, vestida assim de festa.
- Luiza, esse vestido era de aluguel, minha
prima usou do debu faz uns três anos.
- E daí?
- Daí que todo mundo sabe que esse
vestido ta batido.
A Adriana era toda
elegante e um pouco metida. Até com o uniforme da loja parecia que ficava se
achando. E na fila do bar da faculdade, cabelo preso num coque, sempre com roupa
de marca e bem maquiada. Aquela ali no caixão com o vestido verde de paetê não
tinha nada a ver com a guria. O cabelo com a raiz aparecendo, a maquiagem com
sombra cintilante? Ah, se visse o que tinham colocado nela...
A Vanessa saiu do velório
incomodada com a imagem da Adriana no caixão. Imagina se fosse eu ali, vestida
daquele jeito! E a pessoa tá morta, vai fazer o quê? Depois dizem que a primeira
impressão é a que fica. E a última? Deus me livre!
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| A morte - suprema ironia da vida, para a qual nunca estaremos preparados e depois da qual nada mais decidimos. |