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terça-feira, 10 de novembro de 2015

O segundo frasco de xampu e o beijo do Homem Aranha

Começou pelo Facebook, faz três meses. Foi indicação de uma amiga, combinava comigo e tal. Era para experimentar.

Mas então foi um “Tudo bem?” e um “Tudo ótimo!” logo de cara. Assuntos intelectuais enquanto eu passeava na rua com a filha que nunca vai sair de casa.

Devia ser sexta, dia 7. Saímos no sábado. Isso depois de falarmos umas três horas pelo telefone.

Eu não pretendia muita coisa, acho. Porque não estava mais muito focada em achar o super-herói que, se combinasse comigo, seria bom demais para mim, como eu sempre dizia para todo mundo. Sabe, tenho uma lista de umas coisas indispensáveis. E olha que não sou nenhuma diva para merecer tudinho isso, aí você imagina a probabilidade de isso se concretizar? 

Eu não imaginava quando escrevi a lista. E aqui está, do jeito que era, com adjetivos e substantivos, para não perder a espontaneidade.

Honesto
Fiel
Inteligente e culto
Companheiro
Senso de humor
Satisfeito profissionalmente
Esforçado
Afinidade física
Boa aparência
Generoso com os demais

Pois bem, quem sabe estava na hora de acrescentar o terceiro verbo ao comer e rezar, mesmo sem sair de casa. Pelo que constatamos, se fosse um mês antes, talvez não tivesse sido a hora. Com certeza não seria antes do livro do Natal passado, que ao invés de me deixar uma mulher menos exigente, me tornou mais prática e me fez depurar os dramas e as bobagens para buscar o essencial.

Só sei que as coisas boas começam com alguém abrindo a porta de sua “humilde carruagem”. E seguem com sushi. E continuam com um beijo de boa noite na porta de casa. E não têm nenhuma dúvida quanto a ligar para agradecer o encontro ou medir as palavras ou ficar com as pernas tremendo ou ter o coração saindo pela boca.

As coisas boas são tranquilas. Certas. E chegam a ser surreais a ponto de se pensar, “será que isso está mesmo acontecendo?” várias vezes em um final de semana.

Sempre pensei que seria impossível alguém gostar de mim 100%, sem querer que eu parasse de subir em árvore e assobiar que nem um moleque de 12 anos. Impossível alguém gostar de mim lendo tudo o que escrevo aqui. Impossível, eu pensava. Não acreditava.

Agora acredito em Papai Noel trabalhando de Crocs na fábrica de ovos de chocolate sem lactose do Coelhinho da Páscoa.  Acredito em super-heróis e videogame. Na Mulher Maravilha. No Witcher.

Na Penny e no Leonard e no Sheldon e na Amy. Em alguém cantando Soft Kitty quando a gente tem asma. Acredito que a sintonia está em tudo e é tranquila e espontânea.

Acredito que tem mais uma pessoa no mundo que não quer de jeito nenhum ganhar na Mega Sena. E que quando a gente faz a oração de mãos dadas coisas mágicas acontecem.

E acredito no segundo frasco de xampu que levei na casa dele.

Parece que já faz tanto tempo e parece que o tempo é menos real. Acredito que cada um fala “eu te amo” quando é a hora certa. E abre espaço no armário quando está pronto.

Acredito nas profecias que estão nas coisas mais bobas do mundo, como lembrar das mesmas coisas na mesma hora. Como naquele dia de assistir TV no colo dele e olhar para cima. Um beijo de cabeça para baixo e os dois falando ao mesmo tempo: “O beijo do Homem Aranha!”

Ah, o beijo do Homem Aranha...

Pode ser tudo pura coincidência. Pode ser que a lista de mil coisas em comum tenha alguma falha e que não chegue o terceiro frasco de xampu ou no vigésimo bolo ou no trigésimo quarto aniversário.

Pode ser que as letras aqui na frente sejam só uma ilusão de ótica, que não formem as palavras que aprendi ou que ninguém me entenda.

Pode ser que o sol vermelho ali na frente não vá dormir hoje no horizonte. Pode ser que eu acorde amanhã sendo só uma, aquela de uns 100 dias atrás, afinal tudo é possível?

Mas acho – só acho – que seria mais provável a gente ganhar aquele prêmio que os outros desejam na loteria. Sem apostar nunca.

Quem sabe?

Eu é que não sei mais de nada. 

Agora só acredito.


E chamo isso de amor.

Abre espaço pro meu xampu, Peter