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domingo, 6 de maio de 2018

Diário de uma batata de sofá: corrida matinal – uma experiência de quase morte


...Foi então que resolvi, de pura raiva mesmo, fazer algo a respeito. Obviamente que eu não queria ser a única habitante da Loserlândia, depois de minha sobrinha partir para o Lado Negro da Força. 

Eram 7h30 da madruga, num sábado. Pensei: vou fazer uma loucura. Vou correr. Corrrreeeer!! 

Fui logo colocando um short e tênis antes que mudasse de ideia. Deixei uma mensagem no Whats do adormecido marido, dizendo: 

“Saí pra correr (!) sem celular, identidade, água nem carteira da Unimed. Minha meta: 800m. Se eu não voltar até 9h é porque tô caída numa valeta, com o pé quebrado. Me deixa lá.” 

Pensei em encarar a vizinhança mesmo, mas já era hora de muitos vizinhos acordados, então fui a uma área mais remota, mas com vários conhecidos, em caso de acidente. 

Fui de carro até lá, já que até os grandes atletas às vezes precisam se descolocar até seu local de treino, então não me julguem – cada gordinho com seus pobrema! 

Saí do carro e coloquei a chave dentro da bermuda. Dobrei a esquina e fui bem contente, tudo trepidando no meu corpo, ninguém na rua. 

Sentimento de “não acredito que consigo correr” durou 50 metros e logo deu lugar a “não acredito que vou morrer de forma tão estúpida”. Nisso eu estava passando pela lateral da casa da namorada do meu filho, e lá estava pai dela, tomando chimarrão – pô, Jorge! – de modo que fiz que não vi e mantive o passo de corrida até umas moitas me encobrirem. 

Estava tão mal que achei que se eu parasse, poderia ter um treco que variaria entre vômito e ataque cardíaco, então segui caminhando morro acima. 

À minha esquerda, o cemitério. À direita, mandioca. Cemitério, mandioca. Cemitério, cana de açúcar. Capela mortuária, florzinhas. Bosque, bosque. Descida. Comecei a correr de novo. E assim fui, nesse ritmo de corre, quase empacota, caminha, corre, caminha, por 2.200m. Ao todo, devo ter caminhado um terço, mas vamos deixar por 600m. 

Confissões do percurso: 

1) Uma senhora bem velhinha, carregadíssima de sacolas, me olha com pena ao me ver correndo morro acima. Não consegui cumprimentá-la. Escolhi respirar. 

2) Passei por um campinho com um sofá xexelento abandonado, com duas lâmpadas fluorescentes em cima, e me senti tentada a deitar ali mesmo, agarrada nas lâmpadas. 

3) Eu deveria ter usado uns três sutiãs, mas não queria passar vergonha, sabe como é. 

4) Passei por uma clínica de massoterapia e pensei no que doeria dali a algumas horas. As palavras “nervo ciático” e glúteos” piscavam em neon no meu cérebro. 

5) Durante todo o percurso eu tive medo de pisar em falso e quebrar meu pé de novo. Esse pensamento era uma promessa de alegria, cama e Netflix por um mês. 

6) Fiz uma volta tremenda para evitar a casa do Jorge e da Loraci, na volta, mas acabei passando na casa da mãe de uma amiga. Ela me cumprimentou. A casa dos tios do meu marido estava fechada, felizmente! 

7) Só não parei em um bar com propaganda de “cerveja” porque 

a) era muito cedo 

b) eu não tinha levado dinheiro 

c) ele tava fechado. 

8) Ao contrário do Rexona, seus glúteos não te abandonam. Concluí que eles fazem um esforço tão grande para ficarem presos ao corpo que chegam a dar uma leve endurecida, tipo de uma gelatina para um pudim. 

9) Estado do cabelo na ida: não olhei. Estado do cabelo na volta: frizz nível Simba. Quase lamentei que não tinha sol pra eu estrear meu boné novo. 

10) Hoje acordei com um dilema: correr ou fazer pudim de laranja. Era muito tarde pra correr despercebida e muito cedo pra acordar os vizinhos com o liquidificador. Prevaleceu o bom senso: farei o pudim em outro momento. 

Bem, vocês devem estar se perguntando porque resolvi publicar esse embaraçoso registro pseudo-esportivo em modo aberto no Google. 

É simples. Todo mundo sabe que quando a gente anuncia que está fazendo uma coisa desafiadora, ela tende a não durar. Assim, não me sinto moralmente obrigada a repetir a experiência, o que pode até funcionar como um boost pra eu criar o hábito de quase morrer umas três vezes por semana. 

Quanto ao pudim, tá na hora de fazer barulho. Estou indecisa entre ele, uma “aipiêi” bem geladinha ou dar banho na cachorra. 

Gente, torçam por mim! 

Voltarei a relatar minhas sábias escolhas em breve. 

Xoxo 

Couch Potato 

A pessoa que causou tudo isso. A da direita, no caso, que comeu demais.

Diário de uma batata de sofá: como tudo começou e a crisálida superalimentada


Bem, eu nasci. Num belo dia de outubro, nos anos 70. Fui uma criança magra por pura falta de dinheiro e excesso de irmãos (dois a mais do que eu desejava), pois se dependesse da minha gula, eu teria sido acometida por obesidade mórbida antes dos 10 anos. 


A Coca-Cola de domingo tinha um litro e era dividida entre 5 pessoas. Bolacha recheada eu só conheci lá pela 4ª série, mas só apareceu na minha casa pela 8ª. Chocolate era um evento; só não tinha Save The Date porque ninguém sabia quando meu pai teria dinheiro para um pedaço de chocolate de 40g na Bomboniére depois do colégio. 

Doces, não havia. Tinha arroz e feijão todo dia, de modo que eu enjoei, mas não tinha alternativa. 

Na adolescência, percebo hoje que fui magra, embora achasse que era excessivamente “suculenta”. 

No final da gravidez, eu pesava o que seria minha atual meta - uns 62kg, mas sem um ser humano na minha barriga. 

Pulamos (metaforicamente, que eu não estou podendo) 21 anos e aqui estou hoje, acima do peso pela segunda vez. 

Da primeira vez, depois dos 30, dei uma encorpada master, de uns 30kg. Criei vergonha na cara e, ao longo de 3 anos, fui perdendo todo o peso por conta própria, com muita paciência, reeducação alimentar e academia nos últimos 10kg. Fiquei uns 10 anos assim. Até que... 

...Dizem que os homens engordam quando entram em um relacionamento. E todo mundo sabe que tenho um cérebro masculino, com um Homer Simpson na cabine de comando me dizendo, “você já está livre do ritual do acasalamento, agora pode liberar geral na Duff & donuts”. O resto você deduz ao perceber que estou uns 15kg acima do peso aceitável. 

Então, vou concluir com um uma crônica familiar: 

Minha sobrinha de 21 anos, minha co-habitante da Loserlândia, é uma criatura excêntrica, criativa, excessivamente inteligente, apaixonante, magra e, principalmente, SEDENTÁRIA. Até eu descobrir, ontem, que ela TRAIU A CAUSA. 

Leio no Facebook dela que começou a jogar vôlei, correr e ter vida social. WHAT? E nosso pacto silencioso de desenvolver diabetes tipo 2 até 2020? 

Tá, vida social e menos crises existenciais eu entendo. Entendo também que ela mora em um condomínio gigante e plano, a uma quadra da praça, com quadras de esportes. Mas ficasse numa caminhada, né? E num esporte solitário e não competitivo. 

Eis minha resposta ao post: 

“Correndo, jogando vôlei, vida social? Só queria dizer que não encerro a amizade aqui mesmo porque teria que te apagar das minhas melhores fotos, e até pra isso tenho preguiça! ‘ Achou que eu ia curtir teus esporte? Achou errado, otário!’” 

Largo o celular e constato que, apesar de fazer um monte de coisa, inclusive ter um casamento bem-sucedido, que dá um trabalho danado, estou na zona de conforto. 

E a zona de conforto está um casulo bem apertado para uma crisálida-superalimentada-de-meia-idade. 

É o caso de fazer um puxadinho no casulo. Ou comer menos. Ou praticar esportes. Ou virar uma eremita solteira e solitária. 

Foi então que resolvi, de pura raiva mesmo... 

...TO BE CONTINUED (after a snack)

Lê o próximo post que você descobre. 


*Batata de sofá é a tradução literal da expressão em inglês couch potato, usada para designar pessoas sedentárias e que assistem muita TV. 

Na foto do antes eu já tava mais "encorpadinha". Na foto do depois, eu tô melhor que agora. Nas duas eu tô FELIZ :)