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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

"Vou morrer hoje"

Era um poema profundo. Não chegava a ser mórbido, mas estava longe dos escritos bem-humorados da minha sobrinha.

- Adorei! Posta isso.

- Melhor não. Tá meio deprê. Aí vão achar que eu sou depressiva. E sabe, eu não sou.

- Entendo. Esses tempos escrevi um texto sobre estar triste. Aí fui subir no telhado do prédio pra ver o pôr do sol e pensei que se eu caísse, iam pensar que era suicídio. Já pensou?

- Pois é! Como tu ia explicar que não foi, né?

- Complicado.

- As pessoas querem encontrar vestígios depois que acontecem os incidentes.

- Pensa deixar uma carta "Vou morrer hoje". E aí depois tu morre mesmo?

- É. Escrever cada dia uma. E né, um dia a gente acerta.

- Hehe...pois é. Carta e foto do jornal do dia.

- Mas um jornal legal, pra ter estilo.

- Aham. New York Times.

- Meia hora do dia catando essas coisas.

- Desperdiçar vida com a morte. Irônico, né?

- Irônico é um dia sair atrasada e não dar tempo de escrever a nota. E no azar, naquele dia ser atingida por um caminhão.

- Caminhão do gás.

- Imagina a ironia de perder tanto tempo zoando a morte e morrer assim, desprevenida.

- Sacanagem.

- Mas sabe, quando eu morrer, quero ser cremada.

- Me too. E doem os órgãos antes do churrasco final.

- Sim. E vê se não me guarda num potinho! Quero ser livre!

- Podexá. Espalho o que sobrar no mar ou num matinho à sua escolha.

- Tá bom.

- O mesmo comigo. Matinho, não mar. Tenho um medo de água que vai me acompanhar pro além.

- Tá.

E aí já estava tarde e aquela conversa bizarra, típica da nossa família, acabou por ali. Com registros escritos de nossas preferências póstumas.

E os que conhecem a mim e à Andressa, não vão mais cair no conto do bilhete com o jornal do dia.

Mas gente, por favor, não pensem que não perdemos pessoas importantes ou que somos insensíveis à ideia da morte. É só que a morte é uma parte da existência, que um dia certamente acontecerá.

Aí meu pai me vem com essa em sua última (mais recente, aliás) visita, "Se não fosse a morte, qual o sentido de aproveitar plenamente cada instante da vida?"

Sábio ele. Concordei. Acho que só as partes mais sofridas desse nosso intervalo entre dois nadas ou duas eternidades é que dão sabor às partes agradáveis.

É como disse o filósofo Diderot, "Se tudo cá na terra fosse excelente, nada haveria de excelente."

Então é isso.

Quase meia noite, não vou morrer hoje. Espero que seja por volta dos cem anos, mesmo com os órgãos capengas para doação.

Mas quando acontecer, mesmo que meio loguinho, que fique registrado que está tudo na paz e que, cara!...me diverti d-e-m-a-i-s nessa vida!!

Doem o que puder, assem o que sobra.

Só não me guardem num potinho.

Quero ser livre.

Assim, tipo agora.
Matinho da minha escolha...hehe.







quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O ano em que reprovei na escola



Foi na 2ª série do Ensino Médio. 
 
Tecnicamente, portanto, meu filho é bem melhor que eu, já que acabou de passar para o terceiro com o esforço e maturidade conquistados no ano anterior.


Nessa idade eu não era assim. E tinha muitas desculpas para isso. Todo mundo tem, certo?


Meus pais estavam se separando. Minha irmã um ano e um dia mais nova estava se distanciando de mim. A vida estava melhor nos filmes, músicas, desenhos e amores platônicos por personagens fictícios. 


Ter boas notas nunca me rendeu elogios. Naquele ano acho que fui desleixada para chamar a atenção. E chamei. 


Depois de reprovar na escola, me deixaram morar com minha prima em Santa Maria, sem condições para visitar meus pais a cada final de semana. Não tinha amigos no início e minha prima ficava muito tempo com o namorado, de modo que eu ficava muito sozinha. 

Aos 16 anos, achava que ninguém se importava comigo. Isso foi a desculpa daquele ano. 


No ano seguinte, me sentindo um fracasso nos estudos, comecei a trabalhar e conheci a pessoa que mudou minha vida. Terminei o Ensino Médio através de provas. 
Tanta coisa se passou para eu chegar à profissão que sonhava aos 6 anos...foi necessário que tudo “desse errado”para eu fazer o que amo hoje, ser professora da disciplina das minhas músicas, língua inglesa.
 
Com minha vida escolar longe do que eu imaginava, tive que mudar minha concepção de sucesso. Aprendi que sucesso é se esforçar até o final, independente do resultado, coisa que não fiz naqueles anos.


Sei que a adolescência é dura para muitos. Para mim foi tanto que ficou impressa na memória. Quem sabe por isso goste tanto de lidar com adolescentes, acho que entendo o que sentem. 


E se você que estiver lendo me permitir um conselho, independente da idade, 


“Tudo acontece com um propósito, que você só vai entender no futuro.” 


Ter reprovado de ano me fez ver que a gente tem que fazer sacrifícios se quiser os resultados, mesmo que a vida não seja justa, fazer o quê?


Ter reprovado de ano me mostrou que meu talento sem esforço de nada adiantava.


Ter reprovado de ano mudou tudo. Meu lema de agora é,


“Seja mais forte do que a sua melhor desculpa, o mundo é dos esforçados.”


Alguns aprendem isso com suas conquistas.


Eu só aprendi à custa de alguns fracassos.


A vida é um pouco como na escola.

Cada um aprende do seu jeito.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A sogra que lia Tolstói


Oficialmente, não tenho mais sogra. Mas tenho uma ex-sogra quase mãe. Nunca nos afastamos, já que nos conhecemos desde meus 18 anos e vivemos coisas muito importantes juntas.

Além do coração generoso como nunca vi, admiro nela seu gosto por literatura. Conhece desde os clássicos brasileiros até os da literatura mundial.  Guarda recortes e marca as páginas de que gosta para reler.

E assim, há alguns dias, me conquistou mais uma vez. 

Eu estava impaciente e pensando na vida quando a visitava. 

Então ela me pediu para ler para mim, em voz alta, o conto que mais marcou sua vida. É de Leon Tolstói, “De quanta terra precisa um homem”.

Sentou-se ela na cama e me pediu para eu sentar na cadeira de balanço. Leu o início e depois o trecho final do conto, por longos minutos.  

Fala de um homem ganancioso, a quem foi oferecida tanta terra quanto pudesse percorrer em um dia, sob pena de perder tudo o que tinha caso não conseguisse terminar o percurso até o anoitecer.

Eu tentava desviar a atenção de que uma senhora estava lendo para mim, que confortavelmente a escutava na cadeira de balanço. 

Pensava em como ela já tinha lido ela para meu filho quando pequeno. E eu para meu ex-sogro, quando ajudei a cuidar dele em sua longa doença.

Ao final do conto, conversamos sobre o significado do sacrifício por ter mais bens e do ônus das nossas escolhas. Falamos sobre as terras que nós duas conquistamos e as que deixamos de conquistar. Nossas conversas são sempre profundas e algumas, como aquela, memoráveis.

E fiquei sem saber como digeria aquele sentimento de receber um inesperado “presente sem embrulho” de alguém tão especial.

Agora escrevendo, imagino que o homem precise apenas de terra suficiente para reunir os seus à sua volta. 

Talvez de um teto e uma cadeira de balanço, para que um dia alguém lhe retribua a leitura e o cuidado.

O homem precisa dar passos sábios, na direção do outro, antes do anoitecer. 

Antes que a terra de que precisa seja jogada sobre si.
Whistler's Mother, pintura da qual meus ex-sogros e eu gostávamos.

sábado, 7 de dezembro de 2013

As vantagens de ser invisível



Se a inveja é uma droga, pelo menos não nos diz respeito. Ser invisível tem lá suas vantagens. 

Somos pessoas aleatórias. Trabalhamos nos bastidores, em papéis que aparecem em letras miúdas nos créditos finais, quando a plateia já se retirou da sessão. Poupados de críticas públicas e desnecessárias, somos alvos esporádicos.

Nossa contribuição é aparentemente modesta e nossas conquistas, quando importantes, não aparecem nos jornais. Somos reconhecidas com “parabéns” sem pontos de exclamação. E a falta de expectativa de aplausos é quase sempre reconfortante.

Nós, os invisíveis, caminhamos incógnitos pela rua, dirigimos carros invisíveis e nos vestimos invisivelmente, com uniformes. Nossa aparência está a serviço da vida, do trabalho e de outras atividades e não o contrário. Gastamos mais tempo lendo café e saboreando livros do que cobrindo imperfeições cutâneas.

Ocorre que às vezes lembramos que o manto da invisibilidade é uma opção e o retiramos, por um pouco de ar fresco. 

Nesses dias trocamos de roupa, sem deixamos de ser irreverentes. Soltamos o cabelo, sem nos darmos ao trabalho de penteá-lo. Usamos um pouco mais de maquiagem, sem cobrirmos aquilo que somos. E tiramos o pó daquele estoque de cultura da prateleira para interagir com pessoas afins.

E por alguns momentos deixamos de ser invisíveis. As cabeças se voltam um pouco mais, os olhares se detêm e refletimos nas superfícies. E vendo o reflexo na vitrine, nosso sorriso se distrai e escapa. 

Mas só o suficiente para voltarmos satisfeitos para a segurança do nosso manto, de onde observamos mais do que somos observados.  E se nos mostramos íntegros para uns poucos, vez por outra insistem em comentar, inconvenientes,

 “Cara, você não existe!”

 E a gente ri, invisivelmente, e pensa,

“Existo sim. Vocês é que não sabem.”

Existo quase sempre, do meu jeito estranho e divertido.

É que deixo de ser invisível somente quando necessário.
The perks of being wallflowers.