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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Porque sou CONTRA dietas


Este texto nasceu de um vídeo de uma jovem que acompanho desde seu documentário “Maris: cura pela ioga", na Netflix, sobre como a prática ajudou em sua recuperação da anorexia. 

Maris Degener é uma alma sábia, muito além de seus 20 anos, e diariamente posta textos sobre autocompaixão, aceitação do nosso corpo, cuidados com saúde mental e equilíbrio para uma vida feliz, sem cobranças desnecessárias.

Já volto ao vídeo que ela fez, que você pode assistir aqui, em inglês, antes de continuar.

Compartilho um pouco minha experiência com esse único e amado corpo que tenho.

Eu nem me dava conta disso, mas sempre fui magra. Era basicamente um moleque nos anos 70 e 80. Fiz ginástica artística por uns 8 anos, andei muito de patins, corria pela rua, andava de bicicleta e tinha um corpo bem funcional para o que eu queria fazer. 

A comida lá em casa era feijão, arroz, carne e alguma salada, todo santo dia. Não tinha muita fruta porque era caro. Mas também não tinha chocolate, bolacha recheada e refrigerante – essas eram as coisas do fim de semana, poucas e divididas entre os 3 irmãos. Assim, acho que tive sorte nesse quesito.

Na gravidez, aos 25 anos, eu esperava engordar uns 15 kg, pois apesar de comer muito saudavelmente, era chocólatra ao extremo. Mas vomitei tanto no começo e tive tanta azia no final, que contabilizei só 7kg, que logo perdi e mais um tantão, INFELIZMENTE, por um problema de saúde: inflamação da tireoide (tireoidite pós parto), que trato até hoje (doença de Hashimoto). Por fim, recuperei meu peso habitual.

Anos mais tarde, uma depressão muito severa me levou às profundezas do inferno. E aí, um os remédios que o psiquiatra receitou aumentou meu apetite incrivelmente! Me vi devorando carboidratos desesperadamente, em quantidades absurdas. E mesmo quando o remédio foi trocado, o hábito se manteve. Resultado: mulher no fundo do poço da depressão, quase um ano em casa, em uns cinco meses engordei uns 30 kg! E continuei, até chegar a pesar 91 kg. Tenho 1,63m de altura, imagine...E engordei tão rápido que fiquei desfigurada. Tinha quase 30 anos naquela época.

Mas demorei uns 4 anos para colocar em prática o que uma nutricionista tinha me recomendado, pois uma cirurgia grande, para retirada do útero aos 36 anos, me aguardava: “Metade do teu prato vai ser tua ‘floresta’, cheio de verduras e saladas coloridas. A outra metade, divide com carboidrato e proteína. E não conta calorias, principalmente de frutas e verduras”.

Esse sábio conselho eu comecei a seguir – pasmem! – nas festas de final de ano. Comecei deixando a sobremesa de lanche da tarde. E fazendo o prato delicioso naquelas proporções. Quando achava que queria servir mais, ia molhar as plantas ou estender roupa, para então ver se ainda estava com fome. Não, a vontade passava. Com a maior paciência do mundo, em dois anos eu tinha emagrecido 20kg. Os outros 10 eu perdi aliando exercício, em mais um ano.

Vida nova, disposição renovada, hábito de fazer musculação quase diariamente. Fiquei assim por muitos anos, já que era meu estado natural de vida. E nunca me privei de comida NENHUMA. Sou contra dietas restritivas. Meus exames de sangue continuavam invejáveis, como sempre foram mesmo quando eu estava obesa.

Bem, nos últimos 4 anos comecei a namorar, casei e me aposentei do ritual do acasalamento...hehe...brincadeirinha. É que meus esquemas mentais de escassez e indisciplina têm a tendência de me tirar coisas. Nesse caso, a autoestima e a saúde. Assim, fui acumulando 18kg.

De novo, Madelon? Sim, de novo. 

Mas entendi porque tive que passar por isso novamente: aprender mais humildade e a me amar independente do peso. Da primeira vez que perdi um monte de peso, eu meio que desprezava (mentalmente) o fato de as pessoas que se enchem de porcaria (auto desprezo, obviamente) e passei a gostar de mim novamente SOMENTE porque tinha “conseguido” aquela façanha que nem eu achava possível.

Bem feito, tapa na cara! Na escola da vida a gente repete o ano também – e eu sou uma aluna bastante repetente!

Fiz os exames em maio, com meus 81 quilinhos adquiridos com muitas comidinhas afetivas (e bastante cerveja), jantares desnecessários, quantidades absurdas no prato e zero exercício. Resultado: subiu tudo de ruim, menos os triglicerídeos. A endocrinologista de deu um prazo para perder peso e normalizar os exames “antes de tomar remédio para o colesterol” (!!!), e eram só 5 meses. Jura? Só pode estar de sacanagem.

Nem tentei, a princípio. Faltava vontade. E faltava dar aquele clique. Até tinha tentado dieta low carb, quase (no carb) por uma semana...eca! Meu cérebro toca uma sirene com o NÃO.

Acho se um dia me proibissem de comer bosta, eu serviria um pratinho, polvilharia com açúcar e canela e mandaria ver! Percebe que cérebro imaturo? Mas ele é bonzinho, só tenho que ter jeito para domar o bichinho, daí a terapia.

Aí, tcharamm! No domingo de Páscoa (nunca tinha ganhado tanto chocolate na vida), meu filho (adulto, bem magro, cozinheiro e mega cuidadoso com a saúde) me mostrou o aplicativo que usa para controlar as calorias e nutrientes do que come. Instalei o MyFitnessPal e pedi que me mostrasse. Ele inseriu meu peso, objetivos, nível de atividade física (zero) e chegou a um cálculo calórico, que definimos em porcentagem para os macros (proteína, carboidrato e gordura).

Me encantei com a facilidade e a liberdade de comer o que eu queria, mas negociar as quantidades e ver os nutrientes que estava colocando no meu corpo. Se tem coisa que me dá prazer é fazer e comer comida saudável. Por dois meses usei e logo de início perdi uns 4 quilos.

Larguei de mão dele aos pouquinhos, na correria do dia a dia, mas os hábitos e quantidades ficaram. Para minha surpresa, com um pouquinho de exercícios, perdi 9kg e ganhei saúde.

O que quero dizer com isso? Conselhos:

- Cada um tem seu tempo. O meu é bem longo e acontece em momentos tão inesperados que nem me preocupo mais. Ele sempre chega.
- Se você não se ama acima do peso, não vai ser perdendo peso apenas que sua autoestima será resgatada ou mantida.
- Pra que insistir em dietas e soluções rápidas e milagrosas quando você já falhou miseravelmente com isso? Porque a gente está programado para falhar, se sabotar e continuar sentindo auto piedade?
- A resposta para alcançar a SAÚDE é como no budismo: o caminho do meio – não ser radical.
- O corpo é só um reflexo da mente, e dela decorre a saúde. Quanto menores e mais agradáveis as escolhas de mudança, mais elas se tornam permanentes.
- Engordamos por desequilíbrios no bem estar mental. Emagrecemos ao restabelecer esse respeito pelo nosso único e querido corpo, o único que temos nessa jornada terrena.
- Se tivéssemos acesso a treinamentos que ensinassem as pessoas a ter PACIÊNCIA em vez de buscar resultados imediatos, a indústria da dieta provavelmente faliria.
- Só compartilhei minha perda de peso porque foi simples, sem esforço e focada na SAÚDE, por isso achei inspiradora.
- Ainda estou bem acima do peso, com 72kg. Provavelmente vou emagrecer mais, pois só restabeleci velhos hábitos. Mas se continuar assim, tudo bem. Só quero meus exames normais novamente e longevidade com qualidade de vida.

Amo meu corpo como me amo por completo, com a ajuda do meu esposo, da minha psicóloga e do amor dos meus alunos, amigos e familiares.

E por amar meu corpo, sou contra dietas restritivas ou radicais, e pró-autoconhecimento e mudanças permanentes. Assim como sou contra colocar curativo em feridas infectadas ou tapar um vazamento com fita adesiva.

Dieta é uma solução temporária, uma privação muitas vezes de situações sociais e até uma escolha de vitimização com o “Não posso, estou de dieta”. O que acontece depois que o indivíduo vai da manutenção para a vida rodeada de maus hábitos de antes?

Por fim, o vídeo da Maris Degener era sobre a Beyoncé.

No documentário Homecoming, antes de se apresentar no festival de Coachella, ela se pesa, mostra o peso e diz que tem um longo caminho pela frente. Então aquela mulher empoderada e que, com sua música traz mensagens de autoaceitação e girl power total, se submete a uma dieta altamente restritiva (5 importantes grupos alimentares excluídos) que, segundo ela mesma, a faz sentir fome e privação, para atingir um objetivo.

Que objetivo? Ter um corpo mais adequado (depois de ter tido três fillhos, diga-se)? Ter disposição física para se apresentar num show extenuante? Sentir-se realmente bela? 

Pôxa, Bey...se você, com tudo que É não se sente bela, o que sobra para tantas mulheres que você inspira?

Enfim, após nitidamente desaprovar a própria dieta, ela endossa uma campanha que vende online essa mesma dieta. E dentre os objetivos que o cliente escolhe, um deles é “Fazer do jeito da Beyoncé”. 

Lembrando que a própria manifestou a dificuldade da dieta, mesmo com personal chefs, personal trainers, etc. Dá para entender?

Finalizando, Maris Degener, que lutou tanto para superar um transtorno alimentar, expressa seu desapontamento em ver uma mulher que admiramos apoiando a cultura da dieta, que se baseia no sentimento (feminino) de não aceitação e vergonha do nosso corpo.

“Tão poucos de nós escapamos da cultura da dieta sem sermos prejudicados por ela”.
Maris Degener

Que a gente abrace mais nossa gostosura, nossa personalidade e sejamos abundantes de vida sempre.


Ser de muita luz e clareza de seu propósito do mundo. Inspiração!

Millenium Falcon esticada, mas tinha mais de mim para abraçar...haha.


OBS: por dieta, me referi a algo bastante restritivo e de busca por resultados rápidos, focado principalmente na perda de peso. Não considerei casos em que ela é necessária como meio de manter a vida (obesidade grave associada a doenças, por exemplo) ou em que alguém precisa adaptar a alimentação em função de intolerância ou alergia a alimentos.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

1º de abril: revelações matrimoniais!


Uma coisa interessante aconteceu hoje de manhã. Meu marido iria voltar ao trabalho depois de três semanas de férias e eu tenho folga segunda de manhã. Em vez de começar logo a fazer minhas coisas de aula, não resisti à vontade de fazer um café da manhã gostoso, pra ele e pra mim.

Arrumei numas bandejas pra sentarmos na sacada. Abrimos umas cadeiras de praia e, assim que ele sentou, sem camisa, já foi dizendo que estava muito frio. “Que bom”, eu disse, “Menos calor pra hoje”. Ele colocou uma camiseta (que eu tenho quase certeza de que estava guardada numa garrafa PET) e fomos comer.

“Isso não é muito confortável pra mim”, disse o homem 30cm mais alto do que eu com a bandeja no colo. “Que mal agradecido!”, eu pensei. Mas aí me lembrei que ele tinha dormido SEM TRAVESSEIRO!

Será que ele dormiu mal? Porque podia ter pegado de volta seu travesseiro favorito de cima da minha cabeça quando foi pra cama, pela 1h30 da manhã, como sempre faz. Eu não precisava de quatro travesseiros e mais o meu de corpo, compridão, e ele sabe disso. 

Será que ele estava inconscientemente tentando protestar contra minha apropriação indevida de travesseiros e espaço na cama? Só porque vou dormir sempre antes das 11 da noite? Humm...

E enquanto isso eu falava. Falava da camiseta mal dobrada. E ele chomp, chomp, glub, glub, inclinado na bandeja, que eu já tinha levantado com uma almofada.  E já tinha colocado outra nas costas dele. Percebe o movimento em volta da pessoa que recém acordou?

Aí pedi pra ele olhar pro céu. “Mais alto, amor! E olha a lâmpada da sacada...é assim que a gente corrige a postura da pessoa”. Ele riu pela primeira vez na manhã e disse que tinha vontade de me jogar um pedaço de bolo...hehe...aí deixei ele quietinho.

Aliás, tentei.

Meu entusiasmo matinal perseguiu a cheirosa pessoa até o quarto, onde ele colocava o cinto e pegava a carteira e chaves.

- Muito obrigada pelo café, Mozudinha!

- De nada, amor! Adoro fazer café pra ti. E quando não estiver a fim de falar de manhã, só me diz, “Eu quero ficar quieto”.

Pausa dramática (literalmente).

- Eu gosto de ficar quieto de manhã.

Assim, na cara. Depois de TRÊS ANOS juntos e eu cantando, rindo, dançando, derrubando os móveis que nem uma labradora  A CADA MANHÃ! E sempre dizendo que não sabia como ele aguentava meu entusiasmo matinal.

Pois então: ele não aguenta.

Ninguém aguenta. Até porque acordo umas duas horas antes de qualquer pessoa.

Percebi que meu marido não era como eu pensava que ele era. Houve uns 5 segundos em que me senti meio traída. Mas logo notei que ele apenas estava sendo amoroso e simpático por tempo demais e, assim que recobrava a consciência de manhã, começava a interagir porque adora meu entusiasmo.

Meu primeiro pensamento agora seria: por que esperar três anos pra dizer que prefere ficar mais quieto pela manhã? Meu filho era bem mais direto e lascava isso na minha cara, de modo que convivemos sem maiores problemas.

Meu filho, por outro lado, sabe que não tenho como me divorciar dele. E que a gente é meio que obrigado a se amar, como ele mesmo disso uma vez. Sábio esse guri.

E sábio esse homem.

Se tivesse me dito há uma semana que precisava ficar mais quieto, eu provavelmente teria ficado muito triste e chateada. Muito mesmo. E faz três dias que eu puxei uma D.R. pra dizer que a gente precisa se abrir mais um com o outro, falar as coisas que nos desagradam e mudar alguns comportamentos pro nosso casamento continuar nessa parceria que sempre tivemos.

Sou pró-discussões, mas tudo requer sensibilidade e o momento certo para não magoar o outro. E esse cuidado com os sentimentos do outro é justamente a base do nosso relacionamento. Reclamar disso seria como reclamar da paciência dele, que é o que mais admiro.

Pra completar o início do dia, me despedi do meu companheiro matinal falando umas besteiras:

- Esse dia é uma RE-VE-LA-ÇÃO no nosso casamento! Vou ter que comprar um labrador pra me acompanhar nessa casa!

- E quando ele ficar grande, tu dá o cachorro?

- Claro que não. Eu vendo! Por mais do que comprei. Tu tá investindo teu dinheiro? Pois eu serei uma investidora de cachorros. Vou fazer o trading enquanto ainda são filhotes e fofos. Vou botar meu dinheiro pra trabalhar pra mim, oras.

Que nada!

Vou continuar tomando café às 5 da manhã, quando acordo. E vou confiar nos estudos que dizem que os homens (e os humanos em geral) costumam acordar mais quietos.

Vou continuar encorajando o “Desembucha o que tá te incomodando!” e acolher o feedback como uma adulta saudável.

Quem sabe eu faça uma caminhada antes das 6h pra gastar minhas energias...

Ah, esse último e o trading de cachorros é primeiro de abril.

Mas no resto, pode confiar.

Investe na parceria, senão o amor vai morrendo, bem devagarinho.

Coloca o seu relacionamento pra trabalhar pra você.

E investe a longo prazo, que se a cotação cair por um tempo, não tem porque se preocupar.

Casamento bom sempre acaba gerando lucro.

...prefiro seu silêncio. Mas só se for possível. E com muito love, baby. 

PS: Ontem houve uma longa conversa entre meu filho e meu marido sobre investimentos financeiros, da qual participei apenas como ouvinte, daí os termos acima. Hoje “investi” R$ 1,17 na poupança... Não dava pra comprar nenhuma ação com esse único dinheiro que eu tinha. Desculpa, rapazes!




domingo, 24 de fevereiro de 2019

Aconteceu com outra amiga

Tenho uma amiga que é linda, inteligente, divertida e excelente motorista, mas tem um único defeito: acumular rejeitos (apenas e tão somente) em seu carro. Lavar o carro? Só dá no sábado, dia de ficar em casa, mas que também é dia de limpar todo o apê com, aí ela acaba adiando. Ah, e aqueles 40 pila ela preferiria poupar para gastar num sushi, lavando seu pequeno veículo preto na calçada do prédio. O sushi acontece – a lavagem não. O interior do carro da minha amiga tem lixeirinha transbordando de papel de chocolate, várias garrafas de água e cascas mumificadas de banana. Então, um dia, dirigindo na rua principal de sua pequena cidade, ela sente uma cosquinha no pé direito. Pausa para você ir formulando suas hipóteses. A amiga tira o pé do acelerador e dá uma chacoalhada, deve ser algum papel de doce que foi parar ali. Mais umas quadras, nova cosquinha andando no pé da amiga. Ela olha para baixo. Adivinhou, né? La cucaracha! Uma baratilda saudável, reforçada, criada a whey e restos do chão do carro. Pausa para imaginar o pavor da anti-higiênica pessoa. Nesse momento, ela dirige sem o pé no acelerador, levantando as pernas à altura do volante, tipo quando a gente andava de bicicleta na carona e não podia arrastar os pés no chão, sabe? O carro continua indo no embalo, mas onde parar aquele chiqueiro ambulante para procurar o inseto? Ela avista uma vaga na frente de um restaurante. Aponta o carro e estaciona ali, a quase um metro da calçada. Sai correndo e vai para o lado do passageiro. Abre a porta. Procura a barata. ACHA a barata! A coitada está apavorada, escondida embaixo do pedal do acelerador. Mas minha amiga precisa agir e atacar o inseto antes que provoque um acidente. Na frente do pessoal que está na calçada, a indivídua tira sua sapatilha, cata a barata e, com um golpe certeiro, a abate. Com uns guardanapos que estavam no chão do carro, a amiga recolhe o corpo e o deposita na sarjeta – não a julguem, é tudo biodegradável. Sem olhar para os lados, ela entra no carro e dirige até em casa, pisando nos pedais como quem está atravessando um potreiro minado de esterco fresquinho. Chega à garagem. Ufa! Não sabe como conseguiu se controlar e agir de maneira racional diante de uma situação tão amedrontadora! Sente-se quase uma diva corajosa triunfante. Praticamente uma Mulher Maravilha. Mas cai na real em 10 segundos. “Sou apenas uma Peppa Pig com mais sorte do que vergonha na cara. Preciso mandar lavar esse carro!” Mas a lavagem de carros estava lotada naquele dia. E minha amiga não tinha mangueira nem vontade de lavar o carro. Nem de tirar o lixo, que poderia estar habitado por familiares da barata assassinada. Sobe até seu apartamento - muito mais limpo, felizmente. Pega o inseticida. Desce. Abre o carro, prende a respiração e descarrega uma nuvem de SBP no veículo todinho, fechando a porta em seguida. Carro interditado por uns dias. Mais um corpo baratal no chão da garagem. Culpa. Luto. Aceitação. Vida que segue. Só que a partir daquele dia, tudo mudou: seu carro agora é um veículo imaculadamente limpo, lavado todos os finais de semana. Nunca mais houve uma embalagem de alimento deixada ali. Há um odor delicioso, de aromatizador para carros. Ela comprou um novo o tapete para o lado do motorista e uma lixeirinha só de enfeite. E todos continuarão lhe pedindo carona. Esse relato é totalmente verdadeiro, exceto o parágrafo anterior. Mas se quiserem carona, o carro tem boa música, uns lanchinhos e inseticida no porta-luvas. Minha amiga preferiu não se identificar. Sábia essa diva do chorume motorizado!