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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Para cada criança do meu dia



Nove da noite. Quase tudo pronto para amanhã. 

Arrumando a bolsa, retiro a trufa que um aluninho me deu de Páscoa hoje. Não teve “oi”, só aquele bombom enorme e delicioso estendido na minha direção, com orgulho, antes de entrar na sala para a aula da tarde. O abracei com minha cara pintada de coelhinho e lhe disse o quanto amo chocolate. 

Resolvo comê-la agora enquanto espero as roupas para estendê-las. O ruído da máquina de lavar com meus uniformes é necessário. Sento na área de serviço, apoiada na enorme janela de onde vejo a cidade vizinha e mais outra. Na avenida com suas luzes enfileiradas os poucos carros transitam devagar.  

Desejo silêncio, mas agora não o tenho.

Olho para o céu estrelado e acho que é Vênus aquele ponto mais brilhante que foi subindo no globo de vidro do céu, respingado de luzes. Sempre serão as estrelas e os planetas que se mexem, mesmo que aquele seja Mercúrio e que eu saiba que estou errada. 

Abro a trufa e sinto seu cheiro delicioso. Olho para um pontinho piscando e desejo que fosse uma estrela cadente para fazer um pedido de mãe para mãe. Mas é só um satélite que se move lento e intermitente, observando talvez o que cada um está fazendo agora. Penso se sabe que nem todas as palavras que saem de nossa boca são doces como o que sinto em minha boca. Meu coração aperta.

Tenho um jeito especial de lidar com crianças. Geralmente consigo entender o que estão sentindo ou deixá-las à vontade para me contarem o que as aflige. 

Mas hoje não foi assim com todos. Tentei tanto e não consegui decifrar um menino, o que me presenteou. Só no final da aula me confidencia que chamei o colega de The Flash e não a ele. E que se enganou ao pintar o egg que era brown de yellow, o que consertamos juntos, mas que o deixou triste. E que seu presente, que eu amei, não é tão grande quanto os outros. 

Tento novamente convencê-lo do quanto é especial, e há tanto tempo, para mim. Lhe pergunto se quer que pinte seu rosto de coelhinho também. Ele ainda chora e não se decide. Só quando acaba a aula e os maiores entram na sala é que diz que sim, mas que agora não dá mais tempo.

“Dá tempo sim! Vem aqui.” 

Pego o lápis aquarelável e desenho um nariz vermelho naquele rostinho pequeno e triste. Seco as lágrimas, e com o lápis preto, faço os bigodes com capricho, ele meio que reclamando de quantos são em meio aos soluços. Acabo, e antes de ir ele me abraça, inesperadamente. Meu coelhinho volta para junto dos colegas com os olhos vermelhos e vai brincar no pátio.

O resto da tarde passa, chega a noite. E só agora, que o satélite que não é estrela cadente me questiona, é que admito minha culpa. Não tive as palavras certas na hora exata ou a percepção necessária para uma criança hoje. Penso no que ele sente e nos seus porquês, pois até aos sete anos temos nossos motivos.

Desejo, olhando o céu infinito, ter o poder de parar o tempo para cada criança que chegasse a mim ao longo do dia. 

Nenhuma delas deveria ter um olhar apressado quando mostra que o dente está frouxo, quando diz que ralou o joelho e o pai fez curativo, quando conta que o maninho vai fazer um ano, ou que vai viajar com a família no final de semana. 

Cada criança devia ter a mesma calma com que contemplo agora o Cinturão de Órion, que para sempre vou chamar de Três Marias. Cada criança deveria ter da gente, o tempo todo, a doçura que merece, mesmo quando chegasse a nós um pouco mais amarga.

Cada criança merecia ter o nosso agora, independente do que nos rodeia no momento ou dali a pouco, nem que para isso precisássemos desligar os relógios que giram as estrelas no céu de noite.

Quem sabe conversando com calma, algum deles me ensina como fazer isso.

O satélite se foi, a roupa está pronta.

Um dois, três...

...o silêncio de fez. 

Hora de sonhar com os anjinhos.

Amanhã tento de novo. 

Pare o relógio que gira as estrelas do céu. Quero crianças sempre por perto.

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