Em uma manhã como qualquer outra, ela sucumbiu ao peso do dia a dia insípido. Despiu-se de sua pele fria e cinzenta, que deixou jazendo no chão da sala. Saiu deixando a porta aberta, pois nada do que havia lá dentro tinha sido seu.
E muitos foram se aproximando, curiosos. E quem olhava não enxergava tudo. Os que enxergavam não acreditavam. Os que acreditavam não entendiam.
Foi assim que seguiram à sua procura, pelos lugares onde ela nunca estivera. Por cada cômodo da casa, onde ela não fazia falta. No pátio cercado de grades e flores que só ela via. Em seu trabalho, moroso e sempre igual, lamentaram seus silêncios demorados. Nas ruas da cidade, sapatos andavam no mesmo ritmo da a água da chuva caindo das calhas. Nas salas das bibliotecas, os livros mais amarelados se acomodaram para sempre nas estantes.
E a vida voltou às intermináveis segundas e quintas-feiras. Não se sabia das estações.
De uma distância segura, ela os observava, do outro lado do bosque, no alto. Anestesiados, automáticos e tranquilos, transitavam de lá para cá. Ora com guarda-chuvas, ora com óculos escuros e chapéus, o céu nunca os tocava.
Enquanto isso, sua carne se recobria de uma pele rosada e fina. Feria-se fácil agora, e olhava as cicatrizes com longo espanto. Caminhava por entre as árvores, com galhos secos cortando-lhe as pernas e barro gelado recobrindo seus pés.
Sentia o sol arder no rosto e nos ombros, as frutas ácidas ferirem a boca e o amassar das folhas secas fazer cócegas nos ouvidos. O cheiro do mato molhado não era menos doce que seus antigos e invisíveis jasmins.
Acordava com o nascente e repousava com o poente. E se houvesse chuva, ela sorria ou chorava. Mas olhava sempre para o outro lado do bosque, os olhos brilhando ao imaginar tudo que poderia não ter sentido se ainda estivesse ali, a centenas de metros apenas, um cadáver de si mesma. E só então ela ria.
E foi assim, do outro lado do bosque, que ela respirou pela primeira vez. E seguiu respirando, transpirando, inspirando. Por muitos outonos ainda, que seguiram quentes verões.
Por primaveras amarelas que seguiram as fogueiras dos invernos frios, até o exalar do último ar morno dos pulmões.
A terra úmida agora lhe cobre. Raízes de plantas verdes se esticam para alcançá-la. As folhas secas e flores de árvores próximas fazem uma macia cama sobre sua cama.
Mas ela não está mais lá, no barro escuro de onde veio.
E dessa vida, além do bosque, não se arrepende. Da pele cinzenta, jogada no chão da casa, nem mais se recorda.
Só se recorda do que viveu.
Bem, é apenas o que ouço falar. Mas quem sou eu, afinal, se os sonhos me confundem?

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