É um dia atarefado. Muitas coisas para fazer antes do almoço,
para a tarde render.
A casa está bagunçada. Ela conseguiu esse estado de
desarrumação em apenas duas horas no dia anterior. Brinca sempre, “Quer saber
se eu usei uma coisa? É só ver se está sem tampa ou fora do lugar”. Mas fica
com uma pontinha de frustração por esse seu comportamento.
Não faz isso deliberadamente,
é apenas distração. Distração ao extremo e uma agitação que confunde sua mente.
Vontade de fazer tudo ao mesmo tempo e pouco foco no momento. E tem dias em que
a vigilância constante sobre ela mesma a deixa exausta, desanimada.
As pessoas não entendem como é ser assim. É difícil
imaginar, ela sabe, que uma pessoa não consiga escovar os dentes na frente da
pia; apenas caminhando pela casa e fazendo alguma coisa junto. Ela sabe que
seria mais produtivo fazer uma coisa de cada vez, mas simplesmente não
consegue.
Hoje é um dia típico em casa, com tarefas variadas, e é mais
ou menos assim que as coisas acontecem:
Acorda, vai até o banheiro. Enquanto escova os dentes, vai
até a cozinha fazer um café. Coloca uma xícara de água com café solúvel no
micro-ondas e pega o pote de frios. Volta ao banheiro para terminar de escovar
os dentes. Volta pra cozinha para fazer um sanduíche. Lembra de antes colocar
uma toalha e um prato na mesa da sala. Volta para a cozinha. Pega o pão e a
faca para fazer o sanduíche. Lembra de colocar talheres na mesa, vai para a
sala. Volta para cozinha e lembra da margarina para o sanduíche. Olha na
geladeira, pega a margarina e vê o mamão. Coloca a margarina em cima do forno
elétrico, descasca o mamão e o corta em cubinhos. O micro-ondas dá sinal. Abre
e pega o café. Procura a margarina para fazer o sanduíche e não acha. Olha o
mamão no prato grande e pega um potinho para ele. Pegando o pote, olha em volta
e acha a margarina. Faz o sanduíche. Vai para a sala com o mamão. Busca o café
e o sanduíche. Senta para comer. Esqueceu o adoçante e o guardanapo. Busca
essas coisas. Senta novamente para comer. Se sente inquieta e busca o celular para
ir olhando alguma paisagem bonita e comendo mais devagar. Tudo pronto, enfim toma
seu café, com calma.
Se passaram oito minutos desde ela que levantou até sentar
para o café. E lendo as coisas assim, escritas como acontecem, parecem
cansativas até para ela. E se parecem cansativas de fora, viver dentro de uma
mente assim, tão ativa, não é diferente.
Tudo poderia ter sido feito numa
sequência de “começa isso, termina e só depois começa aquilo”. Ela sabe que precisa
viver cada “agora”. Mas é tão difícil viver o agora com a cabeça no “a seguir”.
E ela sabe disso, então se sente estranha, se repreende. Tem
quase certeza do seu déficit de atenção. E estudou bastante sobre isso. Sabe que
tem o componente da desatenção, o da hiperatividade e o da impulsividade, e que
nem sempre alguém tem os três. Sabe como é o tratamento, à base de medicamentos
aliados à terapia. Com receio de que digam que não é nada, acaba não buscando
um diagnóstico.
Conhece muitas estratégias para lidar com sua desatenção. E
as usa, caso contrário não seria uma adulta funcional.
Ela entra e chaveia o apartamento sempre, deixando as chaves
(um molho com todas) sempre na porta. Isso é um ritual nunca quebrado, pois
sabe que, em caso de emergência, jamais encontraria as chaves.
Anota as compras do supermercado sempre em um bloquinho e o
coloca no bolso de fora da bolsa. As chaves, quando sai, também ficam sempre
ali.
Quando está no trabalho, que absorve toda a sua
concentração, ela sabe que precisa falar com essa ou aquela pessoa em momentos
curtos do dia. Agenda não funciona para isso, então ela anota na mão. Não
dentro da mão, pois pode não olhar. Anota na parte de cima, com caneta
permanente, para não sair ao lavar, uma lista de coisas urgentes além daquelas
da agenda.
Os óculos, em casa, são uma brincadeira de esconde-esconde. Os extravia o tempo
todo e, míope, precisa encontrá-los.
O celular é outro problema, pois está sempre no silencioso.
Quando o perde, já nem se dá mais ao trabalho de procurar. Deixa para depois -
vai dar de cara com ele dentro do cesto de prendedores de roupa, por exemplo.
Ou na mureta da sacada, onde estão as orquídeas e bromélias. E hoje à tarde vê
que as bromélias estão se multiplicando demais, tão lindas.
Precisa comprar mais uns vasos e transplantar algumas. E
precisa de mais terra, uns 20kg. Puxa, como é difícil carregar um saco desse
peso até o segundo andar! Parece tão mais pesado do que os pesos que vão no leg
press na academia.
E há quanto tempo não vai à academia? Precisa voltar a fazer
exercício, ganhou peso. Mas a tireoide, que ela trata há tantos anos, está sem
medicação agora, talvez precise voltar a tomar o remédio.
Resolve marcar a consulta com o endocrinologista.
Vai até o
quarto procurar o celular. Não está. Banheiro, escritório. Não. Cozinha. Não.
Área de serviço. Não. Vê o regador. Resolve molhar as plantas. Vai até a sacada
e molha cada vaso, com muito interesse nos brotos e flores. No meio das bromélias,
acha o celular. Relembra de marcar a consulta. Vai pegar sua agenda no escritório.
O regador fica na sacada, as plantas molhadas pela metade.
Olhando a agenda, vê que precisa elaborar um material para o
dia seguinte. Senta ao computador, tem três horas para enviá-lo por e-mail.
Foca ao máximo e faz isso em duas horas. Responde e-mails. Encontra textos
interessantes para outra turma. Produz mais material. Já são 18h30, e ela se
lembra de marcar a consulta. Mas o consultório já fechou. Anota na agenda para
o dia seguinte.
Mas ela sabe que, no dia seguinte, vai precisar escrever na
mão. E vai precisar olhar para a mão no horário do almoço. Melhor colocar um alarme
no celular com nome “médico”. Talvez ela esteja por perto quando ele tocar.
Terá que ligar de tarde.
De tarde, alguém lhe pedirá ajuda para arrumar o mural. E ela
usará o intervalo para ir à padaria. Cada agora será engolido por outro, a
seguir. E mais um dia passará tão rápido!
Os dias passam rápido o suficiente para a vida ir seguindo,
com essa distração tão incômoda. Mas passam devagar para quem vive nessa
inquietude, com o cérebro que resolve criar um monte de coisas na hora em que
ela deita para dormir.
Os dias passam rápido demais para ela terminar os seis
livros começados. E passam muito devagar quando ela se dá conta de que não tem
concentração para terminar um, sequer.
Os dias passam devagar quando ela se lembra de que não tem
como fugir de si e habitar outra mente. Os dias passam...ah, os dias...
...e já se distraiu de novo, completando esse texto,
pensando em como o dia está bonito hoje. O olhar escapa para a janela, para o
sol de agora.
O dia está lindo hoje. O texto está pronto. Faz sol agora.
Faz sol hoje.
Aqui, agora.
E dos dias de sol, ela tem consciência.
Sempre.

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