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quinta-feira, 2 de junho de 2022

A padeira acidental

 “ÀS VEZES A GENTE SE ARRISCA PORQUE É A ÚNICA SAÍDA”

Faz um ano que minha vida mudou um pouco, e pouco mais de um mês que mudou totalmente.

Fui professora de inglês em colégios por 11 anos. E contando com as escolas de idiomas, faz uns 19 anos que sou professora.

Mas no ano passado, o ensino remoto quase acabou comigo!! Precisei sair do meu emprego não só por causa de saúde mental. Foi uma questão de sobrevivência mesmo. A gota d’água foi uma semana em casa, com crises de pânico. Conversei com meu marido e fizemos as contas. Ele me dizendo, “Isso não é um trabalho, é uma missão! Sai desse emprego. Eu pago nossas contas até tu te formar e trabalhar de novo”.

Foi a luz no fim do túnel para quem não via saída. E não tinha saída mesmo, porque eu estava saindo para nunca mais voltar a ser professora. Mas sabia que não sabia fazer mais nada. E que desespero isso me causou!

Mas tudo tem seu ciclo e as coisas se acomodam. Aconteceu assim:

Fui cursando a faculdade, me recuperando do pânico, da fobia social e de desequilíbrios físicos. Chegou a época de assistir às aulas para os estágios. E tive aquela sensação boa de estar no meio de adolescentes de novo, e crianças, de estar rodeada de vida.

Um belo dia, me deram uma rifa para vender. E como vinte reais (!) me fariam bastante falta se eu comprasse a folha toda, fiz o que achava impensável: vendi os números. E mais ainda: gostei de vender.

Detalhe: eu sempre detestei lidar com dinheiro, tinha imensa dificuldade de cobrar pelo meu trabalho e jamais tinha vendido coisa alguma!

Passou um mês e eu senti muita falta de ter MEU dinheiro, a ponto de ter uma crise num domingo. Perguntei ao meu marido, “O que tu acha de eu fazer pães para vender? Eu tenho medo de falhar.” Imaginei que ele levantaria possíveis empecilhos ou daria conselhos para eu não me frustrar. Mas não. Me disse que achava ótimo e que só fazendo para eu saber.

No dia seguinte comecei! E fiz etiquetas em casa mesmo para os produtos. Vendi todos que eu fiz. E no outro, mais pães, caminhei de porta em porta para vender, fiz contatos na vizinhança, adaptei produtos, medi pesos de receitas, precifiquei cada centavo, fiz um caixa detalhado, anotei o que produzi e vendi, tudo direitinho.

Nem consigo explicar a satisfação de voltar para casa com o cesto vazio e meu dinheiro SEM ESTRESSE na carteira!

E dali em diante, passei a anunciar, tenho encomendas, organizo o dia em função delas e do final da minha graduação, que está em fase de estágios em duas escolas – bem corrido.

Acho até que no final do ano voltarei para uma sala de aula e os pães serão uma atividade extra. Mas esse não é o ponto.

A questão é:

MUDEI TUDO! Me atirei sem rede, aos quase 50 anos. Não tinha ideia do que viria, nem esperava me reapaixonar pelo ensino.

 Eu só sabia que não podia mais ficar naquele esquema de trocar vida por dinheiro.

Mas sobretudo, provei para mim mesma que consigo fazer o que eu sempre dizia, “Qualquer coisa, faço comidas para fora”. Porque eu nunca acredei que teria a saúde física, organização e persistência para isso. Era só uma ideia conveniente.

E para resumir:

Não é sobre fazer pães. É sobre comprovar que não preciso morrer de preocupação e estresse para me manter.

É sobre, aos 50 anos, cuidar da saúde do corpo para poder fazer uma tarefa bastante física. E sobre aprender novas habilidades, como vender, mexer no Canva, anunciar, fazer precificação e contabilidade, monitorar estoques, compras e organizar o tempo.

Não sei por quanto tempo farei pães e bolos e sabe-se mais o quê dessa cozinha tão afetiva. Só sei que eu consigo, que preciso de muito pouco e que não estou muito velha para recomeçar.

O nome disso,

se você ainda não percebeu,

é LIBERDADE.


Não se esqueça de viver. Beijos de moranga com linhaça para você! 



2 comentários:

  1. Adoro teus textos ,sempre de otimismo e superação ."Tu é que nem bombril " kkkk mil e uma utilidade e onde passa da brilho. Pinta,escreve cozinha.... sempre surpreende .Do limão faz uma limonada. Cai , levanta ,sacode a poeira e da volta por cima .Grande exempo de saber Viver .Bjos querida!

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  2. Amei o texto, amei saber que (re)encontraste a luz no fim do túnel, seja com a produção de pães (que espero ainda provar) ou a volta à educação com os estágios. Saudades tuas e das nossas conversas em espanhol. Sê feliz, amiga! Isso que realmente importa. Besitos

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