...Foi então que resolvi, de pura raiva mesmo, fazer algo a respeito. Obviamente que eu não queria ser a única habitante da Loserlândia, depois de minha sobrinha partir para o Lado Negro da Força.
Eram 7h30 da madruga, num sábado. Pensei: vou fazer uma loucura. Vou correr. Corrrreeeer!!
Fui logo colocando um short e tênis antes que mudasse de ideia. Deixei uma mensagem no Whats do adormecido marido, dizendo:
“Saí pra correr (!) sem celular, identidade, água nem carteira da Unimed. Minha meta: 800m. Se eu não voltar até 9h é porque tô caída numa valeta, com o pé quebrado. Me deixa lá.”
Pensei em encarar a vizinhança mesmo, mas já era hora de muitos vizinhos acordados, então fui a uma área mais remota, mas com vários conhecidos, em caso de acidente.
Fui de carro até lá, já que até os grandes atletas às vezes precisam se descolocar até seu local de treino, então não me julguem – cada gordinho com seus pobrema!
Saí do carro e coloquei a chave dentro da bermuda. Dobrei a esquina e fui bem contente, tudo trepidando no meu corpo, ninguém na rua.
Sentimento de “não acredito que consigo correr” durou 50 metros e logo deu lugar a “não acredito que vou morrer de forma tão estúpida”. Nisso eu estava passando pela lateral da casa da namorada do meu filho, e lá estava pai dela, tomando chimarrão – pô, Jorge! – de modo que fiz que não vi e mantive o passo de corrida até umas moitas me encobrirem.
Estava tão mal que achei que se eu parasse, poderia ter um treco que variaria entre vômito e ataque cardíaco, então segui caminhando morro acima.
À minha esquerda, o cemitério. À direita, mandioca. Cemitério, mandioca. Cemitério, cana de açúcar. Capela mortuária, florzinhas. Bosque, bosque. Descida. Comecei a correr de novo. E assim fui, nesse ritmo de corre, quase empacota, caminha, corre, caminha, por 2.200m. Ao todo, devo ter caminhado um terço, mas vamos deixar por 600m.
Confissões do percurso:
1) Uma senhora bem velhinha, carregadíssima de sacolas, me olha com pena ao me ver correndo morro acima. Não consegui cumprimentá-la. Escolhi respirar.
2) Passei por um campinho com um sofá xexelento abandonado, com duas lâmpadas fluorescentes em cima, e me senti tentada a deitar ali mesmo, agarrada nas lâmpadas.
3) Eu deveria ter usado uns três sutiãs, mas não queria passar vergonha, sabe como é.
4) Passei por uma clínica de massoterapia e pensei no que doeria dali a algumas horas. As palavras “nervo ciático” e glúteos” piscavam em neon no meu cérebro.
5) Durante todo o percurso eu tive medo de pisar em falso e quebrar meu pé de novo. Esse pensamento era uma promessa de alegria, cama e Netflix por um mês.
6) Fiz uma volta tremenda para evitar a casa do Jorge e da Loraci, na volta, mas acabei passando na casa da mãe de uma amiga. Ela me cumprimentou. A casa dos tios do meu marido estava fechada, felizmente!
7) Só não parei em um bar com propaganda de “cerveja” porque
a) era muito cedo
b) eu não tinha levado dinheiro
c) ele tava fechado.
8) Ao contrário do Rexona, seus glúteos não te abandonam. Concluí que eles fazem um esforço tão grande para ficarem presos ao corpo que chegam a dar uma leve endurecida, tipo de uma gelatina para um pudim.
9) Estado do cabelo na ida: não olhei. Estado do cabelo na volta: frizz nível Simba. Quase lamentei que não tinha sol pra eu estrear meu boné novo.
10) Hoje acordei com um dilema: correr ou fazer pudim de laranja. Era muito tarde pra correr despercebida e muito cedo pra acordar os vizinhos com o liquidificador. Prevaleceu o bom senso: farei o pudim em outro momento.
Bem, vocês devem estar se perguntando porque resolvi publicar esse embaraçoso registro pseudo-esportivo em modo aberto no Google.
É simples. Todo mundo sabe que quando a gente anuncia que está fazendo uma coisa desafiadora, ela tende a não durar. Assim, não me sinto moralmente obrigada a repetir a experiência, o que pode até funcionar como um boost pra eu criar o hábito de quase morrer umas três vezes por semana.
Quanto ao pudim, tá na hora de fazer barulho. Estou indecisa entre ele, uma “aipiêi” bem geladinha ou dar banho na cachorra.
Gente, torçam por mim!
Voltarei a relatar minhas sábias escolhas em breve.
Xoxo
Couch Potato
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| A pessoa que causou tudo isso. A da direita, no caso, que comeu demais. |

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