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sábado, 28 de fevereiro de 2015

A casa do filho: PS



“O único sentimento que me permite antecipação é a alegria. Não sofro na véspera.” Mãe do Ian.

Ontem foi o dia do abraço final, de até logo. Mas uma tarde de percalços veio antes disso, porque é mais fácil se despedir de alguém com quem se está zangado.


Há duas semanas, meu filho e a namorada foram passar o final de semana em Porto Alegre, no apartamento que está pronto desde janeiro esperando que ele se mude para estudar na PUC. Fui buscá-los na rodoviária na segunda, quando perceberam que a chave tinha sido perdida. 


Procura daqui, vasculha dali, todos os lugares possíveis foram examinados e nada de encontrarmos as chaves. O que fazer?


Sugeri algumas coisas, mas não fui eu até lá resolver o assunto, que afinal, era dele. Ontem é que ele me ligou, de tarde, para dizer que seria complicado chegar cedo ao prédio para pegar a chave do síndico e fazer cópia antes que ele saísse em viagem. Estava combinado de o pai levá-lo cedo para isso, mas caso a greve dos motoristas de caminhão interferisse...


Parei o trabalho, liguei para vários lugares, tentando resolver o problema. Fui tomada de uma raiva imensa, já que tinha sugerido fazer cópia das chaves. Só resolvi que deixaria que ele se arranjasse e iria para minha aula na universidade à noite.


Em casa por uma hora, a raiva foi sendo elaborada: fico brava quando sou necessária, fico triste quando não sou. Quero o filho embaixo da asa, quero que seja feliz e livre desse sentimento de dívida. A ambiguidade me oprime e aperta o peito, mas as lágrimas não vêm para trazer alívio. Com um nó na garganta, ligo para ele e peço que espere na frente da casa do pai para eu passar e lhe dar um abraço antes que vá. Nunca me despeço sem acertar as contas, para nada.


Desce a entrada da garagem aquele moço, que na inclinação é ainda mais alto que eu. Digo que o amo e que desejo um bom começo de aula. Ele me abraça e diz o mesmo, baixinho. Olho para o rosto tão diferente de 17 anos atrás e meus olhos se enchem de lágrimas, mas e ele me pede para não chorar. Sei o quanto é doído nessa idade morar longe da namorada, e é essa a minha dor, por ele. 

Mudo de assunto, “Estou indo para a faculdade ter aula de português com tua profe do colégio”. Ele tenta sorrir e me deseja boa sorte. Saio com o cheiro da sua camiseta e o “Te amo muito” colados em mim.


Chegando à aula, a professora Clarice pergunta meu nome, que ainda não consta na chamada. “Madelon”, eu digo. “Ah, a mãe do Ian!” E se desdobra em elogios, os quais tento igualar durante a aula anotando tudo e resolvendo os exercícios - não é sempre o contrário? 


Escrevo e me dou conta do paradoxo: criamos os filhos para sair ao mundo levando um pouco de nós, mas nós é que somos transformamos por eles, ainda que ocupando o mesmo espaço. Até os 25 anos eu era a Madelon. Hoje, mais do que nunca, sou a mãe do Ian. E essa é uma alegria que não se muda para longe, fica como um prêmio escondido em um lugar só nosso. 


E em dias como hoje, um sábado de aula, rodeada de alunos a quem tanto amo, essa plenitude emerge e afoga a tristeza de ontem. 


Sou mãe, sabe? Mãe é um ser que mais sorri do que chora.  


Acho que a mãe do Ian recebeu o dom da alegria, para guardar para sempre. 

Amor da minha vida, daqui até a eternidade. Nossos destinos foram traçados na maternidade



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