Foi depois de uns vinte minutos de conversa com meu irmão
pelo telefone. Ele me contava umas novidades ótimas e a gente falava dos planos
para o futuro mais próximo e de como estava nossa vida.
Perguntou como estava o
trabalho, com tantas coisas, e a faculdade.
- Estou muito ocupada, nem sei como estou dando conta. Mas
está tudo bem.
- Mesmo?
- Sim. Por incrível que pareça estou mais produtiva do que
nunca e com as coisas em dia. Não tenho escolha, sabe como é.
- Que bom! Tá, mas e tu está feliz?
Pensei por dois segundos na profundidade daquela pergunta
antes de responder. Não costumo titubear quando me perguntam se estou feliz,
mas meu irmão conhece bem minha alma e sabe como estou só pelo meu “oi”.
- Sim, estou feliz. Como vou dizer que não sou feliz com
tudo que eu tenho? Oportunidade de trabalho não me falta e faço o que eu amo. Tenho
um lugar meu para morar e um carro que me leva aonde preciso. E preciso
terminar a graduação, então...nem me sobra tempo para pensar que estou sozinha.
Desocupei a mente disso. Sem falar que tenho saúde e não tenho diabetes, né?
- Hahaha...é verdade.
- E nem câncer que nem a mãe teve, apesar das várias
suspeitas sempre. Vou driblando...hehe.
Rimos um pouco quando falamos que as doenças da família
ainda não me atingiram.
“Ainda”, disse o Rafa, com o humor de sempre, que eu adoro.
Só depois é que fico pensando nas conversas desse tipo.
“Como vou dizer que não sou feliz?” é algo mais profundo do
que a pergunta que meu irmão me fez.
Como a gente pode admitir a infelicidade
sem tapar o sol com a peneira quando ela existe? Não que exista para mim, mas supondo-se que com tudo
isso eu fosse infeliz, como confessar?
Ser infeliz diante de tantas dádivas da vida seria no mínimo
falta de gratidão, quando tantos gostariam de estar em nossa situação.
Ser infeliz diante de todas as conquistas e progressos que
se faz seria admitir o fracasso pessoal em se reconhecer como merecedor de
crédito. Porque cada um sabe onde lhe aperta o sapato, e cada pessoa tem uma
história nem sempre tão feliz por trás do agora.
Admitir infelicidade, descontentamento ou falta de plenitude
talvez fosse atrair coisas ruins para só aí perceber o quanto a vida era boa
antes. Algo do tipo Feliz Ano Velho, livro em Marcelo Rubens Paiva reflete como
sua vida era boa antes de ficar paraplégico por conta de um mergulho
imprudente.
Quem sabe eu seja algumas vezes supersticiosa em valorizar
muito tudo o que tenho por medo de perder essas preciosidades da vida.
Mas creio que para o meu irmão vou sempre falar o que está
bem no fundo da alma.
Não que a vida não possa melhorar, mas sim, sou feliz.
Pelo menos, agora, com tanto trabalho e estudo em vez de quimioterapia.
Com doces e abraços para os dias menos ensolarados.
E hoje tem sol.

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