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sábado, 26 de abril de 2014

Aconteceu com outra amiga



Ouvi dizer que a mulher é uma criatura premeditada, ao contrário do que se supõe pelos seus humores no mínimo variáveis. Na hora da insanidade, ela ainda se preocupa em cometer uma besteira na banheira, para não sujar a casa e tal. O homem, ouvi dizer, esculhamba geral, na sala de estar, para incomodar mesmo e chocar a plateia. 

Um exemplo da contida insanidade feminina é o que aconteceu com minha (outra) amiga.

Certo dia, ela ficou indignada. Mas brava mesmo, pê da vida. Não daquele tipo de ira que passa xingando meio mundo. Já ouviu falar de brabeza que requer quebramento de objetos?  Pois é. Ela que é tão pacífica e deve ter acumulado um monte de indignação por mais de trinta anos sem quebrar nada, teve seu momento de fúria. Assim me relatou os fatos:

“Estava muito brava. FURIOSA com alguma situação que nem me lembro mais. 

Esbravejei pela casa e nada de me acalmar. A cachorra me olhava com uma cara interrogativa. Precisava quebrar alguma coisa. Me disseram que os índios têm uma oca cheia de objetos de cerâmica para quando alguém fica naquele estado ir lá e pirar geral. Desejei por dez segundos ser índia e botar aquela oca abaixo. Mas que saco, mulher branca da cidade não tem desses privilégios.

Meu primeiro pensamento foi tacar o controle remoto na enorme TV do quarto. Mas aí refleti que provavelmente só racharia a tela, quebraria o controle e me deixaria muito furiosa depois. 

Pensei em copos, ‘vou quebrar uns copos’. Mas aí imagina se voa algum caco de vidro na minha cara, me deixa mais possessa da fisionomia e ainda com uma cicatriz que comprometa minha beleza? Achei melhor não. 

Pensei em vidros, então. De pepino Tauá. Adoro pepino Tauá. É mais caro, mas  vale a pena. E os vidros estão ali, no armário da cozinha, why not? 

Para evitar que voassem cacos, quebrar os vidros fechados e embrulhados em um pano de limpeza, olha que prático. Com que instrumento vou quebrar? Olhei atrás da porta da lavanderia vários cabos de vassoura desvassourados, ali estava meu instrumento quebrante. Coloquei os vidros dos deliciosos pepinos Tauá dentro de um saco de limpeza bem bonitinho e investi para cima do monte com uma fúria misturada com satisfação pela minha engenhosidade. Sou esperta, pensei. 

Comecei o massacre. Que frustração, gente. Os trecos não quebravam de jeito nenhum! Pensei em que lei da física dificulta os vidros com tampa de serem quebrados a paulada dentro de um saco de pano. Na hora não me veio nem explicação nem a ideia de destampá-los ou bater com o próprio saco de vidros na parede. Provavelmente aquele não era um bom momento, intelectualmente falando. 

A próxima e acertada tentativa foi genial. Olhei dentro da churrasqueira: tijolos. Vários tijolos sobrando. 'Vem nimim', chamei três deles. Não conjugo bem os verbos nessas horas. Coloquei os tijolos no chão. Pequei um martelo. Mas antes de começar, o instinto de sobrevivência do piso da área de serviço. Coloquei um tapete bem grande e grosso por baixo, para garantir. E comecei com as marteladas, esmigalhando os tijolos. 

Eu sei, amiga, você deve estar pensando que eu sou louca. Mas só se algum dia quebrar tijolos a martelada para evitar bater em alguém, é que vai entender a catarse daquele momento. Te aconselho a tentar antes de ficar me julgando.”

Desfiz minha cara apavorada. Minha amiga prosseguiu.

“A raiva passou completamente. Um sentimento de missão cumprida tomou conta de mim. Consegui me acalmar sem ter esbofeteado alguma criatura, falado um monte de coisas das quais eu ia me arrepender e nem danificado algum objeto que eu futuramente teria que reparar. Calma e inteligente, sou uma mulher incomparável!”

De fato (há que se concordar nessas horas). Mas e limpar toda aquela sujeira?

“Ah, aí meu lado masculino deu as caras, né? Embrulhei o tapete e coloquei em cima do tanque. A faxineira viria no dia seguinte. Eu não estaria em casa.”

E ela não perguntou o porquê daquele monte de caquinho de tijolo embrulhado?

“Minha querida, a faxineira não é louca nem nada. Ela sabe com quem está lidando.”

Humm...voltei a tomar meu chá. Mudamos de assunto. Você já assistiu The United States of Tara? Ela nem sabia do que se tratava, para minha sorte.

Era isso pessoal, baseado em fatos surreais. 

Minha amiga pediu para não ser identificada, assim, vou respeitar sua vontade. 

Agora é postar logo esse texto, que bateu uma fome de sanduba. Espero que ainda tenha um vidro de pepino Tauá na geladeira. 

Não são mesmo deliciosos?
Será que o Dave Grohl curte pepino Tauá? Foo Fighters. Walk!

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