Enquanto uns nutrem desprezo ou indiferença por ex-cônjuges
que os fizeram sofrer, pais ausentes ou relacionamentos abusivos, há aqueles
que ainda não acertaram as contas com o passado e preferem reverenciar seus
mortos.
Entendo a saudade que se sente dos que partiram para sempre
e com os quais vivemos tudo que podíamos, demos o nosso melhor e “acertamos as
contas” a cada dia. Essa saudade, ainda que melancólica, nos traz certo
conforto. Conseguimos lembrar com alegria e orgulho do legado que essas pessoas
deixaram em nossas vidas. E a lucidez para as virtudes e para os defeitos não
diminui nosso amor.
Mas tem aquelas pessoas que nunca estão quites com os que
partiram, estejam eles a sete palmos ou a quilômetros de distância.
Não conseguiram
digerir em tempo o que aquela pessoa representou para si. Não brigaram o
suficiente, não escutaram, não ouviram, não choraram, não gritaram até lhes
faltar o fôlego. Não tentaram até a exaustão antes de desistir. Não disseram
adeus aos que se foram e deixaram a porta aberta para o que poderia ter sido.
E aí as almas penadas ficam pelos cantos, em conversas não
terminadas, esperando sua vez de falar. Em aromas e sabores. Pelas gavetas, em
imagens e recortes. E em cada encontro com novas pessoas, observando, esperando
mencionarmos seus nomes.
Os defuntos vivos e os falecidos acenam nas esquinas,
irresistíveis. E aqueles tantos momentos de incabível sofrimento que causaram se
desvanecem como a cor das fotografias guardadas nas caixas de papelão.
Resta
apenas o ideal. Somente as lembranças mais doces, as conversas mais
incríveis e as lições mais sábias é que são escolhidas para ficar. E o passado
é cultuado como num altar, às custas do agora. E a vida fica estagnada.
Seguir em frente tem a ver com acertar as contas. E acertar
as contas muitas vezes significa ficar em débito com quem nunca mais irá nos
pagar.
Acertar as contas é gritar para as paredes de salas vazias que
aqueles que se foram deveriam ter nos dado mais atenção e ter sido decentes e
honrados como nos lembramos. É aceitar que a vida não é justa e engolir em seco
com um nó na garganta. É saber que também a parte ruim forjou o que se é agora.
E buscar de preferência, um saldo positivo na memória do que somos hoje.
E eu sei, é mais fácil lidar com nossos fantasmas do que com
os vivos, que povoam nosso agora e pedem atitudes, atenção e amor. Os vivos
exigem respeito e lealdade - a eles e a nós mesmos. Os vivos desacomodam.
Os mortos acenam com doçura, perdoam a mesmice, a covardia e
não nos perguntam o que temos feito com nossa vida. E a eles escutamos olhando as
fotos antigas, com seus melhores sorrisos desbotados.
Enterrar nossos mortos é difícil. É não apenas virar a
página, mas fechar o livro, colocá-lo de lado e levantar da cadeira. É focar o
olhar no horizonte, sabendo que o espelho retrovisor distorce um pouco a distância.
Olhar para a frente - e especialmente para os lados - é
sempre mais difícil.
Mas é e sempre será uma questão de escolha.
E particularmente, acho que vale a pena.
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| Casamento dos meus pais. Meu avô ao fundo. |

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