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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os adoráveis mortos que não conseguimos enterrar

Das características do ser humano que mais me fascinam está a tendência a idealizar aqueles – mortos ou vivos – que passaram por nossas vidas. 

Enquanto uns nutrem desprezo ou indiferença por ex-cônjuges que os fizeram sofrer, pais ausentes ou relacionamentos abusivos, há aqueles que ainda não acertaram as contas com o passado e preferem reverenciar seus mortos.

Entendo a saudade que se sente dos que partiram para sempre e com os quais vivemos tudo que podíamos, demos o nosso melhor e “acertamos as contas” a cada dia. Essa saudade, ainda que melancólica, nos traz certo conforto. Conseguimos lembrar com alegria e orgulho do legado que essas pessoas deixaram em nossas vidas. E a lucidez para as virtudes e para os defeitos não diminui nosso amor.

Mas tem aquelas pessoas que nunca estão quites com os que partiram, estejam eles a sete palmos ou a quilômetros de distância. 

Não conseguiram digerir em tempo o que aquela pessoa representou para si. Não brigaram o suficiente, não escutaram, não ouviram, não choraram, não gritaram até lhes faltar o fôlego. Não tentaram até a exaustão antes de desistir. Não disseram adeus aos que se foram e deixaram a porta aberta para o que poderia ter sido.

E aí as almas penadas ficam pelos cantos, em conversas não terminadas, esperando sua vez de falar. Em aromas e sabores. Pelas gavetas, em imagens e recortes. E em cada encontro com novas pessoas, observando, esperando mencionarmos seus nomes.
Os defuntos vivos e os falecidos acenam nas esquinas, irresistíveis. E aqueles tantos momentos de incabível sofrimento que causaram se desvanecem como a cor das fotografias guardadas nas caixas de papelão. 

Resta apenas o ideal. Somente as lembranças mais doces, as conversas mais incríveis e as lições mais sábias é que são escolhidas para ficar. E o passado é cultuado como num altar, às custas do agora. E a vida fica estagnada.

Seguir em frente tem a ver com acertar as contas. E acertar as contas muitas vezes significa ficar em débito com quem nunca mais irá nos pagar. 

Acertar as contas é gritar para as paredes de salas vazias que aqueles que se foram deveriam ter nos dado mais atenção e ter sido decentes e honrados como nos lembramos. É aceitar que a vida não é justa e engolir em seco com um nó na garganta. É saber que também a parte ruim forjou o que se é agora. E buscar de preferência, um saldo positivo na memória do que somos hoje. 

E eu sei, é mais fácil lidar com nossos fantasmas do que com os vivos, que povoam nosso agora e pedem atitudes, atenção e amor. Os vivos exigem respeito e lealdade - a eles e a nós mesmos. Os vivos desacomodam. 

Os mortos acenam com doçura, perdoam a mesmice, a covardia e não nos perguntam o que temos feito com nossa vida. E a eles escutamos olhando as fotos antigas, com seus melhores sorrisos desbotados. 

Enterrar nossos mortos é difícil. É não apenas virar a página, mas fechar o livro, colocá-lo de lado e levantar da cadeira. É focar o olhar no horizonte, sabendo que o espelho retrovisor distorce um pouco a distância. 

Olhar para a frente - e especialmente para os lados - é sempre mais difícil. 

Mas é e sempre será uma questão de escolha. 

E particularmente, acho que vale a pena.

Casamento dos meus pais. Meu avô ao fundo.

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