Se a inveja é uma droga, pelo menos não nos diz respeito.
Ser invisível tem lá suas vantagens.
Somos pessoas aleatórias. Trabalhamos nos bastidores, em
papéis que aparecem em letras miúdas nos créditos finais, quando a plateia já
se retirou da sessão. Poupados de críticas públicas e desnecessárias, somos
alvos esporádicos.
Nossa contribuição é aparentemente modesta e nossas
conquistas, quando importantes, não aparecem nos jornais. Somos reconhecidas
com “parabéns” sem pontos de exclamação. E a falta de expectativa de aplausos é
quase sempre reconfortante.
Nós, os invisíveis, caminhamos incógnitos pela rua, dirigimos
carros invisíveis e nos vestimos invisivelmente, com uniformes. Nossa aparência
está a serviço da vida, do trabalho e de outras atividades e não o contrário. Gastamos
mais tempo lendo café e saboreando livros do que cobrindo imperfeições
cutâneas.
Ocorre que às vezes lembramos que o manto da invisibilidade
é uma opção e o retiramos, por um pouco de ar fresco.
Nesses dias trocamos de roupa, sem deixamos de ser
irreverentes. Soltamos o cabelo, sem nos darmos ao trabalho de penteá-lo. Usamos
um pouco mais de maquiagem, sem cobrirmos aquilo que somos. E tiramos o pó daquele
estoque de cultura da prateleira para interagir com pessoas afins.
E por alguns momentos deixamos de ser invisíveis. As cabeças
se voltam um pouco mais, os olhares se detêm e refletimos nas superfícies. E
vendo o reflexo na vitrine, nosso sorriso se distrai e escapa.
Mas só o suficiente para voltarmos satisfeitos para a
segurança do nosso manto, de onde observamos mais do que somos observados. E se nos mostramos íntegros para uns poucos, vez
por outra insistem em comentar, inconvenientes,
“Cara, você não
existe!”
E a gente ri, invisivelmente,
e pensa,
“Existo sim. Vocês é que não sabem.”
É que deixo de ser invisível somente quando necessário.
| The perks of being wallflowers. |
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