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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A sogra que lia Tolstói


Oficialmente, não tenho mais sogra. Mas tenho uma ex-sogra quase mãe. Nunca nos afastamos, já que nos conhecemos desde meus 18 anos e vivemos coisas muito importantes juntas.

Além do coração generoso como nunca vi, admiro nela seu gosto por literatura. Conhece desde os clássicos brasileiros até os da literatura mundial.  Guarda recortes e marca as páginas de que gosta para reler.

E assim, há alguns dias, me conquistou mais uma vez. 

Eu estava impaciente e pensando na vida quando a visitava. 

Então ela me pediu para ler para mim, em voz alta, o conto que mais marcou sua vida. É de Leon Tolstói, “De quanta terra precisa um homem”.

Sentou-se ela na cama e me pediu para eu sentar na cadeira de balanço. Leu o início e depois o trecho final do conto, por longos minutos.  

Fala de um homem ganancioso, a quem foi oferecida tanta terra quanto pudesse percorrer em um dia, sob pena de perder tudo o que tinha caso não conseguisse terminar o percurso até o anoitecer.

Eu tentava desviar a atenção de que uma senhora estava lendo para mim, que confortavelmente a escutava na cadeira de balanço. 

Pensava em como ela já tinha lido ela para meu filho quando pequeno. E eu para meu ex-sogro, quando ajudei a cuidar dele em sua longa doença.

Ao final do conto, conversamos sobre o significado do sacrifício por ter mais bens e do ônus das nossas escolhas. Falamos sobre as terras que nós duas conquistamos e as que deixamos de conquistar. Nossas conversas são sempre profundas e algumas, como aquela, memoráveis.

E fiquei sem saber como digeria aquele sentimento de receber um inesperado “presente sem embrulho” de alguém tão especial.

Agora escrevendo, imagino que o homem precise apenas de terra suficiente para reunir os seus à sua volta. 

Talvez de um teto e uma cadeira de balanço, para que um dia alguém lhe retribua a leitura e o cuidado.

O homem precisa dar passos sábios, na direção do outro, antes do anoitecer. 

Antes que a terra de que precisa seja jogada sobre si.
Whistler's Mother, pintura da qual meus ex-sogros e eu gostávamos.

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