Oficialmente, não tenho mais sogra. Mas tenho uma ex-sogra quase mãe. Nunca nos afastamos, já que nos conhecemos desde meus 18 anos e vivemos coisas muito importantes juntas.
Além do coração generoso como nunca vi, admiro nela seu
gosto por literatura. Conhece desde os clássicos brasileiros até os da
literatura mundial. Guarda recortes e
marca as páginas de que gosta para reler.
E assim, há alguns dias, me conquistou mais uma vez.
Eu estava impaciente e pensando na vida quando a visitava.
Então ela me pediu para ler para mim, em voz alta, o conto
que mais marcou sua vida. É de Leon Tolstói, “De quanta terra precisa um
homem”.
Sentou-se ela na cama e me pediu para eu sentar na cadeira de
balanço. Leu o início e depois o trecho final do conto, por longos minutos.
Fala de um homem ganancioso, a quem foi
oferecida tanta terra quanto pudesse percorrer em um dia, sob pena de perder
tudo o que tinha caso não conseguisse terminar o percurso até o anoitecer.
Eu tentava desviar a atenção de que uma senhora estava lendo
para mim, que confortavelmente a escutava na cadeira de balanço.
Pensava em como ela já tinha lido ela para meu filho quando
pequeno. E eu para meu ex-sogro, quando ajudei a cuidar dele em sua longa
doença.
Ao final do conto, conversamos sobre o significado do
sacrifício por ter mais bens e do ônus das nossas escolhas. Falamos sobre as terras que nós duas conquistamos e as que deixamos de conquistar. Nossas conversas são
sempre profundas e algumas, como aquela, memoráveis.
E fiquei sem saber como digeria aquele sentimento de receber
um inesperado “presente sem embrulho” de alguém tão especial.
Agora escrevendo, imagino que o homem precise apenas de
terra suficiente para reunir os seus à sua volta.
Talvez de um teto e uma cadeira de balanço, para que um dia
alguém lhe retribua a leitura e o cuidado.
O homem precisa dar passos sábios, na direção do
outro, antes do anoitecer.
Antes que a terra de que precisa seja jogada sobre si.
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| Whistler's Mother, pintura da qual meus ex-sogros e eu gostávamos. |

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