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sábado, 15 de dezembro de 2018

O dia em que virei idosa


Sempre digo que não sou velha - apenas um modelo vintage, 1971. Ainda mais com meu jeito de ser (inconvenientemente infantil), que está meio em descompasso com a minha certidão de nascimento.

Mas essa semana eu me rendi. Virei uma septuagenária.

O que vocês levam em uma bolsinha ou carteira de festa? Eu levo celular, carteira de motorista e dinheiro, um batom pra retocar, que nunca na minha vida foi usado, um pó pra tirar o brilho da cara (idem ao batom) um pente e as chaves do carro.

Essa semana, precisei socar no plastiquinho da carteira de motora o cartão da Unimed. E botei o cartão do SOS Unimed junto. E isso que eu só ia até a escola, na formatura do 9º ano, e voltar pra casa. Ah, nada de cartão de banco, que idoso tem medo de assalto relâmpago. Coloquei 50 pila, pois o pessoal ia sair pra jantar depois, mas obviamente arreguei e fui pra casa, uma idosa que acorda 5 da manhã.

Concluo desse evento:

Preciso rever meus conceitos e trocar a maquiagem por uns comprimidim de cada remédio básico (Neosaldina, Dorflex e Tylenol sinus), mais as duas bombinhas de asma e um descongestionante nasal. E comprar uma bolsa maior pra sair, provavelmente.

E confesso com muita, mas muita vergonha, que vou fazer uma anotação, em algum lugar, do número do meu marido. Por dois motivos: caso me achem inconsciente (nunca por bebidas alcoólicas, que não tenho mais 18 anos) ou acabe a bateria do meu celular, pois eu não sei de cor o número dele.

É que idoso na época tecnológica não sabe de cor o número dos familiares mais próximos, mas ainda lembra o número das amiguinhas da quinta série do colégio – o que é assustador porque até parece indício de Alzheimer.

Para encerrar essa crônica da derrota, meu marido e eu decidimos que seremos idosos fofos, como um casal de japoneses que vimos na Internet, que se vestem combinando há 38 anos!

Já fizemos um cospobre acidental do casal, com roupas de ficar em casa. E eu "entuco as meia" praquele charme extra. Segundo meu marido, a gente combinando facilitaria nossa terceira idade. Caso um se perdesse do outro (já perco ele no supermercado), era só perguntar "Você viu um idoso parecido comigo?" e pedir pra devolver.


Por enquanto, vamos de camisetas das nossas séries preferidas, pra dar uma disfarçada. Ele de Han’s Guitar Solo e eu de House music. Uma roupa de baixo decente, conselho de idoso, em caso de acidente. Nossas colunas ferradas. Eu com dor no ciático. Ele dormindo sempre de meia.

Mas diante as realização recente do SOS Unimed, me lembrei de que desfruto da melhor parte de estar idosa desde uns 30 anos de idade. 

É que ouvimos recentemente um podcast com um cara muito inteligente, metódico e ranzinza (Sr. K é demais!), que eu seu aniversário de 40 anos, reuniu a família mais próxima em um jantar e fez um brinde anunciando algo do tipo, “de agora em diante, não vou mais a aniversário de crianças genéricas nem a batizados. Não levo mais a sogra pro lugar tal. Não me sinto mais obrigado a visitar parente, etc.” 

Assim que terminou o discurso e o pessoal estava boquiaberto (palavra de idosa), ele pediu a sobremesa. 

*Bah, dum tss!*

Quanto a mim, só não anunciei em brinde de aniversário, até pra pagar de querida. Mas não vou a aniversário quando não tenho vontade de ver gente. Festa de casamento e formatura, só das pessoas mais amores da vida, mas me arrumo esbravejando.

Debut, tenho orgulho de ter ido a um só, da minha sobrinha (obrigação pela qual não passarei mais). Não visito parente nem conhecido que tem aquele “papo do preço do leite”, reclamação com faxineira, listagem de cirurgias, “onde dói hoje” e fofocas genéricas. 

Não vou a salão pra evitar de escutar conversa de tragédia, pessoas genéricas dizendo que “suicídio é uma fraqueza da pessoa” (caio na gargalhada e fica chato) ou as últimas novidades da sociedade local.

Enfim, dos meus 47 anos, resumo que sou uma idosa em pleno uso de suas faculdades mentais, facilmente identificável, com plano de saúde e que tá pouco se lixando para as convenções sociais.

Não sei se isso aumenta a longevidade, mas é mais libertador do que andar de pijama na rua e ir trabalhar de chinelo.

Acreditem, falo por experiência.

E recomendo.

Nosso cospobre e os amorzinhos originais. Já tive esse cabelo de penico dos 8 aos 10 anos. Me rendeu o papel de Romeu na peça da escola. Serei uma Rapunzel grisalha, devido ao trauma.




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