Meu filho de 17 anos passou no vestibular e está indo morar em
Porto Alegre, a 115km. Nenhuma novidade até aí - é apenas o que esperávamos que
acontecesse - e que felicidade ver que essa nova etapa se inicia em breve.
Somos muito próximos, embora nada grudentos um com o outro.
Nossas conversas, interesses, leituras, filmes e senso de humor comprovam nossa
afinidade incomum, apesar de que entre idas e vindas da casa do pai e o apartamento
da mãe ele tenha fixado residência com o pai e sua família há dois anos.
Mas isso não mudou muita coisa, já que moramos no mesmo
quarteirão.
Ontem fomos ao cartório assinar os papéis para que ele
alugue o apartamento em seu nome. Escrevi com a caligrafia dos meus bilhetinhos
de domingo, “assistido pelo pai, o fiador, e pela mãe,...” e assinei diversas
vias, assim como o pai. Foi no cartório que me contaram dos planos de buscar as
chaves neste sábado, limpar o apartamento e esperar que cheguem a geladeira e a
cama.
Pediram para que eu o levasse, com a companhia da namorada,
para fazer esse primeiro “reconhecimento de terreno”, apesar de ele e o pai já
terem ido ver o lugar e a vizinhança. A cama que ele vai levar é a daqui de casa,
nova e superconfortável, como ele mesmo já tinha me dito. Confirmei com o pai
dele se era mesmo essa a cama que seria levada.
“Mãe, por que tu perguntou pro meu pai da cama se já tínhamos
combinado isso?”
Foi aí que caiu a ficha.
Enquanto a moça do cartório reconhecia as assinaturas,
começou aquele “não precisa de ajuda, nos viramos bem sozinhos, mãe.” E eu não
tenho dúvidas disso. Mas é aquela coisa de família, sabe? Daí a insistência do
pai e da mãe para que deixasse a gente “entregar ele para o mundo”, que é seu
lugar, como sempre soubemos.
Dali em diante, fiquei meio ranzinza.
Não me dei conta na hora de que discuti amargamente por
motivos bobos enquanto voltávamos para casa, onde eu iria cortar seu cabelo. Me
deitei, lembrando da cirurgia de uma semana antes.
Cansei.
Continuamos a conversar até que consegui, finalmente, chorar.
“O que tu quer que eu
faça, mãe?”
“Nada, filho... só estou triste porque tu vai embora de
casa.”
Entendemos nossas implicâncias e mau humor dos últimos dias.
Me senti como a namorada boba (complexo de Édipo muito à parte), que inventa
briga no domingo para ser mais fácil de dizer o adeus da semana.
Porto Alegre é perto, minha vida não é vazia e sou uma pessoa
alegre e feliz. Mas é a cama, sabe? O berço do ninho de mãe.
Posso comprar outra, e tem colchão sobrando para recebê-lo nos
finais de semana, mas vai ficar aquele vazio lá. Talvez seja importante até que
fique, como para me conformar de que agora tem a casa do pai e tem a casa da
mãe.
E agora essa é a casa da mãe, porque tem a casa do filho.
A casa do filho.
Estamos sentados no sofá da sala, eu olhando para a rua e
tentando me animar para cortar seu cabelo. No meu celular, uma mensagem de
outra mãe, minha amiga, a quem admiro demais:
“Madelon fiquei sabendo que você cuidou do
meu nenê esta noite e ainda por cima levou até sopa no trabalho. Muito obrigada,
você é uma pessoa especial. Deus lhe dê tudo em dobro o que você faz pelos
outros.”
Li e me emocionei. Chorei o outro tanto que
estava guardado, e um abraço apertado e diferente me consolou. Abraço de menino
maior que a mãe, como que dizendo, “eu vou estar aqui quando precisar de mim.”
Na mensagem de minha amiga, cujo “nenê” agora
adulto é como um filho para mim, a lembrança de ter sido útil da maneira mais
maternal possível, cuidando quando ele estava doente e ela longe, viajando.
Em algum cantinho do meu coração deve ter
se aberto uma janela que iluminava o ninho vazio como um local de acolhida para
os outros, vários filhos emprestados que tenho em volta, assim como os
familiares e os amigos.
Respirei fundo, lavei o rosto e fomos
cortar o cabelo, ele tomando um café e comendo meu chocolate.
Rimos dos cortes
escolhidos na internet e fizemos um diferente dessa vez. Meu backseat driver deu palpite e ficou legal.
Olhei para ele hoje de manhã. Acho que meu guri ficou com uma carinha de mais
velho.
Quem sabe em lugar de outra cama compro uma cadeira de barbeiro e mais uns apetrechos?
É de se pensar...
É de se pensar...

Nenhum comentário:
Postar um comentário