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domingo, 24 de novembro de 2013

As mentirinhas da minha mãe



- O que vai ter de almoço hoje aí, mãe?

- Vou estar sozinha, então vou fazer umas linguiças assadas, maionese e arroz.

- E a salada, veinha?

- Ah, é salada de batata.

Aí caímos as duas na risada. É nossa piada interna. 

Faz um tempo, minha mãe queria perder uns quilinhos. Meu irmão e eu demos umas dicas e ela passou a se alimentar de forma supersaudável. 

Moramos em cidades diferentes. Um dia liguei e ela falou um cardápio parecido, sem nenhuma verdura. E insistia que a salada dela era salada de batata. Eu, teimosa, argumentava que tudo bem não comer salada, mas que batata com maionese não é salada. 

Acabamos chegando a um consenso e rindo do ocorrido.

Sou meio radical com as verduras na minha vida. Mas é porque realmente amo, tanto quanto doces e cerveja. E sou uma brutamontes no campo sentimental, que precisa revirar as emoções e não consegue tapar o sol com a peneira.

A Dona Marisa é mais flexível com a vida e muito mais craque em umas mentirinhas para si mesma. E eu acredito e admiro as mentiras da minha mãe, porque funcionam.

Ela se faz crer com tanta veemência que as coisas estão bem quando estão péssimas, que tudo acaba dando certo. 

Minha mãe conseguiu a proeza de superar um câncer de mama há dois anos, como se não fosse nada. 

“Vai dar tudo certo”, dizia. E dava.

Enfrentou a cirurgia, quimioterapia e radioterapia com um otimismo inacreditável e poucos efeitos colaterais. Até raspar a cabeça antes de cair todo o cabelo passou por um divertido moicano, segundo me contaram. E deu tudo certo.

Sempre dá. Porque nos dias dela tem uns oásis de tranquilidade. Tem sempre TV, chimarrão e revista de palavras cruzadas.

Na minha vida cheia de saladas tem bastante estresse, nada de TV  e pouco tempo para o pôr do sol. Meu oásis é ir para o mato final de semana e escrever essas coisinhas.

Hoje liguei e a danada mentiu que não teve tempo de me escrever.

- Mas o que tu faz o dia inteiro, mãe?

- Ah, filha, é que...é que não tive inspiração. 

- Ah, é? A última carta foi minha, há meses, lembra?

- Tudo bem, daqui a uns dias te escrevo.

- Nem vem, mãe. Escreve hoje senão tu acaba não escrevendo. Pode ser qualquer coisa! Copia uma receita, narra algum diálogo, escreve um poema bobo. Inventa. Mente, mãe. 

Mente que comeu salada no almoço.

E eu vou mentir que não fiquei morrendo de inveja do teu cardápio, do teu sofá, das tuas palavras cruzadas.

Vou esperar tua carta, aquela letra linda, na caixa do correio, como quando eu tinha 16 anos.

E responder dizendo que sinto muito, mas muito tua falta. 

De verdade.
E aí, mãe? Muita salada aí em Londres?

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